Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Remorso




By scg


Qual é o tempo de um cigarro?
Eu mesma, longe da minha covardia, digo-lhe, é o tempo que vi
Talvez, de toda uma vida.

O que mata não foi todo o maço
O que mata é a lembrança de um só que perdi.



Suzana Guimarães

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cheiro de flor e hortelã




Volta.

Olha novamente, sou eu mesma.

Perdão, precisei de tempo. Você pode imaginar? O tempo foi muito longo e tenebrosos os invernos, exaustivos todos os verões... nos outonos, eu perguntava aos céus e às folhas caídas por você. Volta de onde está, olha para mim, toda primavera, por mais sem flores, foi para você. 

Perdoa-me, foram muitos os chamados e muita a ânsia da certeza. Perdoa-me e volta. Por favor, pega aquele mesmo roteiro, espera em pé, perdido naquele ermo caminho sem fim, sob o calor do deserto, sob nossas inúmeras desconfianças... Saiba que é tudo e para mim, início e fim. 

Volta.

Retorna.

Liga o carro, busca-me.

Estou há tanto tempo esperando-o que acabei por duvidar de mim.

Volta, e amassaremos o campo de hortelã, menta, sempre-viva, tudo onde os deuses atônitos presenciaram nosso tão inacreditável esbarrão.

Venha, vamos rir deles. Vamos rir de nós.


Suzana Guimarães

sábado, 14 de dezembro de 2013

A Lista




O primeiro me subestimou.
O segundo teve medo.
O terceiro me acanhou.
O quarto, um criado-mudo.
O quinto provocava risos.
O sexto veio para eu esquecer.
O sétimo, calvo, calmo, parvo.
O oitavo foi o segundo que voltou.
O nono quase me conheceu.

Dispenso o primeiro, quero o último.
Rio do segundo.
O terceiro espera eu voltar, na mesa de um bar.
O quarto, provavelmente, ninguém mais espana.
O quinto afogou-se em seu próprio riso.
O sexto virou cartilha, esqueci.
O sétimo, onde?
O oitavo repete ano, não dá!
O nono chegou atrasado.

E o décimo?

Vai me beijar. 


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

UM FUTURO VIVIDO

Fotografia de Suzana Guimarães


Meus olhos estão molhados, de saudade do futuro que vivemos. Mais uma vez, escrevo para você e assim o farei, até o dia em que outras certezas pegarem-me de assalto, numa terça-feira qualquer, de um meio de mês qualquer, numa rua qualquer de um bairro no estrangeiro. Até o dia em que eu passar por outro alguém assim igual passei por você.

Lembra-se? Após anos, decidi mudar o trajeto, velho conhecido, e mudar de rua. Mudei de endereço num dia marcado para passar por você, que vinha andando, cabeça baixa. Eu, distraída. Você carregava cartas, escritas para alguém, mais tarde, bem mais tarde, descobri, você escrevia cartas porque queria ser só seu, mas sentia-se numa longa espera, por alguém que você nem sabia se apareceria e mesmo se existia.

Derrubei você e as cartas. Você ofereceu um chá, e, eu que não gosto de chá nem café, aceitei. Li as cartas em nossos setenta e sete dias, até o dia em que você pulou no primeiro vagão de trem e me deixou parada, perplexa e só, na estação.

A mesma estação onde permanece fechada, a casa. E ela? Não sei. Escrevo para dizer-lhe que ela agora nem mais é minha, também a abandonei, feito você. A nossa casa, que sequer pisamos nela, mas que muito bem a conhecemos, está lá, na beira daquela estrada, abaixo da linha férrea, tudo trancado, relógio parado, toalha no chão caída. Lá, eu não volto, apesar de que saí na noite passada, atrás de você, e, você em outra casa, fechado dentro dela, deixava a voz ecoar ao vento que chegou a mim e ouvi. Já sei. Você não quer.

Você não quer, então eu também não quero. Queremos pegar numa cadeira, sabendo que é uma cadeira, sentindo-a cadeira, queremos nos sentar nela, bem distantes a minha da sua, assim você quer e eu concordo, e queremos esperar os dias seguirem normais. Chega de corações saltando pela garganta, de noites mal dormidas, de cabelos arrepiando sem que ventos lhes tocassem, sem que pensamentos os eriçassem. Chega de sobressaltos, de tapas em palavras, de beijos surrealistas escorrendo por alças de blusas. Chega daquela coisa insana, de nossas e de tuas.

Você nem gritou adeus e arrancou da minha mão todas as cartas. Na hora, as portas se fecharam, a do trem e a da casa, aquela que sequer foi aberta! Nem chegamos lá, você partiu antes, aflito e medroso, sumiu. Eu corri lá, peguei a lembrança de tudo aquilo que compartilhamos, bati portas e janelas, num misto de ódio e ternura, peguei todos os sentimentos e os carreguei nas mãos enquanto ainda as queimavam... até que tudo se acalmou, e eu então guardei tudo, dentro de um botão de uma rosa branca, abri e fechei as folhas pétalas, perpétuas, igual fazia com as cartas, e decidi lhe escrever para dizer que, aquilo, eu vivi, você querendo ou não, e este é o seu castigo: a eterna lembrança de mim, que você não quer. Em mim, ficou tudo de si, mas você, eu nunca neguei. Em mim, janela ou porta, uma vez aberta, não fecha.


por Suzana Guimarães


Nota: texto originalmente publicado em 13 de dezembro de 2010, no Blog 'O Medo de Suzana'. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

aconteceu


um pouco antes do Sol, num dia ainda frio, ainda cinza, mas o gramado, verde; eles estiveram por lá, antes de mim, e as margaridas não poderiam ser mais brancas e nem mais amarelos, seus pistilos, o centro do dia marcado. 

assim, disseram os anjos, ao deixarem sobre a grama, um pouco de suas alvas asas, frágeis, frágeis... tal qual o momento em que o vi, leve, curto, mas tão intenso quanto os raios que castigam a pele esbranquiçada pela inércia da espera. 

ninguém viu quando a Terra firmou-se, concreta e parou. 

só eu, só eu girei. 

em torno de você.


Suzana Guimarães



domingo, 1 de dezembro de 2013

PARALISIA


by Suzana Guimarães




Sentados, estáticos.

Passou uma fila de formigas, ordeiro exército, elas derrubaram o açucareiro. Os olhos arregalaram-se. 

Um-quarto do meu corpo paralisou.

Passou um esquilo na janela, um galho de árvore dobrou-se seco e caiu... os olhos arregalaram-se. 

Mais dois-quartos...

Vento passou pelas frestas nas juntas das janelas, o cupim arrotou.

Meu corpo todo gelou, estarrecido

Vi então um enorme elefante atravessando a loja de cristais.




E eles, parados, com os olhos arregalados.


Por Suzana Guimarães

domingo, 17 de novembro de 2013

E fica você aí, sorrindo para mim...



E fica você aí, sorrindo para mim, homem dos dias que espero, dias cinzas. Você não sabe, mas por aquela porta pensei inúmeras vezes não passar, nem naquele terreno assentar, nem em seus cabelos bolinar. Dos dias que espero, ninguém nada sabe, seria a terceira noite, e uma certa bruxa velha sorriria. Todos sorririam, seria festa, mas eu não quero. Convidaram-me para sete casamentos, enviaram uma chave, cor marfim, endereçada a mim, hesitei, hesitei, para enfim guardá-la... pela força do hábito, pela constância da busca, por minha eterna insensatez.

E fica você aí, sorrindo para mim, homem dos dias que me ganham, cinzas. 

Mas, é tarde, cansei dos intensos matizes, das bromélias imortais, dos pássaros que decoram o itinerário. O sopro das minhas tolas vontades abrasou a terra seca e também aquele país úmido e cálido. Queimou-se a última tocha, até o fim. Eu sei, fiquei lá para ver, para ter certeza. Sobrou um monte de cinzas, de um outro tipo, que me desgosta, que me retira do caminho.

E fica você aí, sorrindo para mim, em cima dessas cinzas. 


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Se um dia você vier



Raíssa Medeiros

Se um dia você vier, avisa antes. Não fala nada, mas não deixa de olhar em meus olhos se há ainda algum amor. Mesmo que não mais veja o tanto que viu antes, fica. Não faça alarde sobre nada e nem faça segredo. Caminha suave, e não me dá notícias de seus dias. 

Aproxima-se e diz que se perdeu pelo caminho. 

Se um dia você vier, venha manso, falando baixinho, como se cochichasse num casamento em um templo. Diz que se arrependeu de ter me deixado por tanto tempo esperando-o. Diz que sou sua e que você sempre foi meu.

Aproxima-se como se tivéssemos nos visto, ontem. Não se esqueça de prestar atenção em meu olhar, curva-se, se preciso for, só para ver, para constar, para ter frágil certeza.

Se um dia você vier, eu lhe direi toda a minha mágoa, sem pronunciar uma palavra. Direi do meu cansaço e apontarei as portas que nunca mais abri.

Se um dia você vier, procura por mim, que sempre estive ao lado seu.


Por Suzana Guimarães.



sábado, 2 de novembro de 2013

A única coisa que você me deixou...

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)

A única coisa que você me deixou foi a eterna lembrança em algumas músicas... Não foram apenas duas ou três fotografias, nem seu olhar, sua altura inatingível, sequer os poemas feitos nas madrugadas perdidas ou suas homeopáticas doses de compreensão. Não foi a memória de seu corpo bem trabalhado, nem a tatuagem em forma de asas, muito menos a sua verborragia. Não foi a excitação deixada por sua barba ou o irresistível cavanhaque, muito menos, sua docilidade, nem os ventos calmos ou turbulentos que passavam entre mim e você. Não foram seus e-mails e nem seus profundos silêncios... suas respostas às vezes rápidas, às vezes, frágeis.

Não foram duas ou três fotografias, foi mesmo amor, e uma casa se montou em cores de recomeço, eterno recomeçar.

Não foram duas ou três fotografias, e outra casa voltou ao mofo e ao jogo, quem dá menos?

Não foram duas ou três fotografias e o tempo que contou, a cumplicidade e o reflexo.

A única coisa que você me deixou foi um pouco de você no conjunto das coisas dos outros.


Por Suzana Guimarães 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

PA-LA-VRAS



A música diz "há palavras que nos beijam"... 

Até parece que só beijam... elas apalpam, seguram, agarram, eternizam-se, viram repetição na cabeça e rio caudaloso interno que não sossega. Aquelas palavras permanecem e eu cuido para que sobrevivam, palavras chaves, se carregadas de falsidade, se mentirosas, se enganosas, se equivocadas, não importa, para mim, pouca coisa anda importando, feliz de mim que ainda posso ouvir o cadeado fechando-se, prendendo. Mal sei quantas foram, não contei, ouvi, fingi que não ouvi, nem sorri, mas eu estava ocupada, muito ocupada, guardando, gravando, questionando, ah, questionando, seria delírio? 

Diz, vai, diz, repete, repete, vamos à exaustão igual à dança, à luta, à conquista de uma terra nova e desconhecida. 


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

POUCA COISA



Lara Amara



O pó do deserto ventou sobre as transparentes águas, cristalinas, cristalinas, refletidas 

do lago imaginário...

Pouco pó, pouco vento, pouco. 

Num deserto, pouco é fatal, a gota pouca que faltou, a pouca sombra que se fez, a dação do pouco num mundo gigante, num delírio enorme. 

Pouco.


Deixo um espaço, para desenhar esse tamanho...


Pouco.


Por Suzana Guimarães

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Rol de camisinhas




Ela deveria fazer um rol. A minha avó fazia, de roupas, para a lavadeira levar para casa e lavar. Sentada no sofá, eu achava aquilo uma das coisas mais belas do mundo. Lençóis de linho branco, bordados, jogados no chão, contados e recontados, montados numa grande pilha, embrulhados em um maior e com nó. A mulher assentava aquilo no alto da cabeça e ia. Voltava dias depois, entregava a trouxa e minha vó, sozinha, contava e recontava.

A moça conta as camisinhas*, conta e reconta, questiona, falta uma. Arranha os dentes. Será que ele escapuliu? Investiga a sua própria agenda, pois ela conta tudo em papéis, rabiscos pequenos, em letra pequena, ainda não foi dia da trepada. A moça questiona. Ele dá de ombros. Queria dar outras coisas, queria nunca mais ouvir falar em contas, queria deixar a sonsa. 

Ela dá um respiro, pequeno ar que solta, vai ao terreiro, dá um grão para cada animal no chão, dá um gole para cada flor que ainda não se colhe. 

Ela deveria fazer um rol...


Por Suzana Guimarães


* preservativo (também conhecido como camisinha no Brasil) é um método contraceptivo do tipo barreira.

sábado, 31 de agosto de 2013

SOBRE OS DIÁRIOS


Os diários foram transportados para o seguinte endereço:
Espero vocês lá!
Suzana Guimarães, a Lily

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Meus olhos ardem. Minha garganta arde. Ontem, bateu em mim um incômodo geral, como se eu estivesse adoecendo. Passei a noite virando-me na cama, procurando a melhor posição. Tentativas tolas. Embaraços são nós que nunca desatam.


Agosto, 27

Eu disse algo sobre diários?

Suzana Guimarães

'Em 30 anos, nunca conversamos.'

Adorei esta frase: 'Em 30 anos, nunca conversamos.' 


Eu queria escrever algo sobre esmaltes, adoro esmaltes de unhas. 'Ainda tenho as unhas pra pintar...', sim, escreverei sobre, porque ainda tenho tempo, a hora seguinte faz promessa, sempre.

Meus filhos estão histéricos? Não sei a razão das férias escolares americanas durarem dois meses e três semanas. A minha mãe sempre disse: "lugar de criança é na escola".

Eu estou histérica? Não, apenas não há mais espaço para mim. Eles me chamam o tempo todo. Eles reclamam. Eles gritam. Eles pedem. Cadê eu? 

Agosto, 27

Diários... sim, antes que eu enlouqueça.

Suzana Guimarães
Preciso de concentração para pintar as unhas, para escovar os dentes, para fazer malas. Preciso de concentração o tempo todo porque, quando mais o tempo passa, mais vou me perdendo. Perdendo mesmo, de uma forma incontrolável, sem sentido, desgarrando... Tenho até medo de secar de vez e tornar-me um ser apenas falante e pensante, observador. Ando com medo de me distanciar demais da minha condição de carne.


Ela ainda diz que irá chover e eu continuo esperando.


Ninguém sabe dos meus vacilos, daqueles momentos de extrema fraqueza. Assim é porque eu aprendi a me esquivar deles... nunca há muito tempo entre um sentir e outro. Foi-se o tempo em que eu poderia saboreá-los.


Às vezes, penso em gritar. Às vezes, penso em deixar tudo pra lá. Mas, ele disse-me que se sente morto, então, não estou só.


Agosto, 27


Eu disse alguma coisa sobre diários?


Suzana Guimarães
Os diários não se perderam, apenas o tempo. Tudo muito acumulado em mim, em camadas. Depois, irei soltando, quando por debaixo daquela árvore eu não mais passar. Querendo ou não, os dias se sucedem e as pequenas folhas que hoje bailaram nos ares para mim irão se perder, ou, perdidas já estão, deixaram um adeus silencioso, disseram-me coisas, mas eu ainda não sei o quê. Mais tarde, elas se soltarão da minha lembrança, na hora em que eu abrir uma pequena e oportuna brecha.


Eu disse que gostava de diários? 



Agosto, 27

Suzana Guimarães

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Não se aproxime muito. Carrego em mim o poder do descortinar, de colocar o podre para fora, de fazer o perfume feder.


Agosto, 23

Vê quem quer, quem aproveita.

Suzana Guimarães.

Diários?