sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Meias sete oitavos e as coisas simples
Calçou meias pretas grossas sete oitavos e botas também negras, enrolou-se num cachecol lã de ovelha. Ficou nua enquanto caminhava para escancarar as janelas e deixar o vento entrar. Reacendeu a antiga vela cor de carne, antes, assoprou para levantar a poeira. Esperou ele se banhar, fazer a barba e passar algum perfume enquanto pensava em álgebra. Bastou um psiu dela e um convite simples. Bastou um leve abrir de asas, enquanto ele, distraído, pensava em troca de óleo.
A vida é muito simples!
Suzana Guimarães
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
O voo de janeiro (#10)
Foram vários os voos...
E, de todos, o melhor foi o da grande cegueira, quando deixei o sul.
O norte é seco, o norte é frio e cinza...
Mas, nele, ser cego é apenas um detalhe. E bobo. Tolo detalhe.
Há liberdade por entre as nuvens, há sossego...
Vai ver, nunca fui mesmo um pássaro tropical.
Suzana Guimarães
| foto por Suzana Guimarães |
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Que pena, sou um pássaro! (#9)
Que pena, sou um pássaro!
Por ser pássaro, não posso falar, apesar do bico que pode lhe bicar.
Dia cinza, todo para mim, para o meu à toa (e eu irei cagar em cima do poema)
Porque pássaros cagam.
Só para sujar este teu cabelo engomado, esta roupa alva de branca e este passo fingidamente certo.
(E eu cago em cima desse poema)
Pena não poder alcançá-lo para poder também bicá-lo, homem mentiroso!
Tu sabes ler e escrever?
Pois, desamancha e apaga. Desmancha e apaga até você perceber que mentira é coisa feia! Homem que não se endireita! Ah, daria dez voos só para dar um rasante em sua cabeça oca e assustar suas noites leves... daria dez voos para rir de você e dizer-lhe que a mentira tem que ser muito boa para eu acreditar...
mas, pássaros não falam. Só cagam.
Suzana Guimarães
Apenas pássaro, mas inteiro (#8)
Pássaro nascido de uma promessa, de um sopro de vento que prometia o abismo, o mais alto dos montes, a mais frágil das pontes, o mais profundo dos mistérios...
o coração no peito, satisfeito.
o coração no peito, satisfeito.
Nada, nada, nada neste mundo possui força capaz de desviar a rota...
Eu cairei sim, de ponta-cabeça, através, em direção...
O secreto cairá aos meus pés, rendido.
O secreto cairá aos meus pés, rendido.
Suzana Guimarães
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Toda a passarada sabe e você? (#7)
| (Arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
Os homens todos deveriam saber
Toda a passarada sabe
Até o pó do asfalto sabe.
Nada neste mundo sairá do lugar para se refazer.
Nenhum percurso será mais o mesmo e isso é para sempre, mesmo que reste a lição
Só homens colecionam experiências... Oh, lástima!
O pó desprezível e desprezado do asfalto que foi pisado sabe.
E você, homem? Não sabe?
Toda a passarinhada sabe
Nem ela tem os céus repetidos
Nem ela
Nem os céus.
Muito menos o inferno!
(Que fica, por ser inferno, lhe comendo).
Toda a passarada sabe
Até o pó do asfalto sabe.
Nada neste mundo sairá do lugar para se refazer.
Nenhum percurso será mais o mesmo e isso é para sempre, mesmo que reste a lição
Só homens colecionam experiências... Oh, lástima!
O pó desprezível e desprezado do asfalto que foi pisado sabe.
E você, homem? Não sabe?
Toda a passarinhada sabe
Nem ela tem os céus repetidos
Nem ela
Nem os céus.
Muito menos o inferno!
(Que fica, por ser inferno, lhe comendo).
Suzana Guimarães
domingo, 17 de janeiro de 2016
"(...) Pouso muito pouco, somente o necessário para parecer deste mundo." (série PÁSSAROS # 6)
| (arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
E me olhou com cara de desejo sério...
Deixou-se ser olhado dos pés à cabeça; passando pelos braços, na camisa manga longa azul claro, de listras finas... Mãos muito brancas. Andou de forma lenta, para ser olhado, frente e costas. Deixou ser percorrido e eu me deixei percorrer, sem tumulto, assalto e pudores. Meus olhos o devoraram e ele viu... Embora exausta do deserto.
Rosto em ângulo, cor e traços perfeitos para mim. Talvez o mesmo para ele.
Havia alguma coisa de sabemos para onde queremos ir. O traço final de um esboço bem acabado.
Já era tarde e eu já era só cansaço quando, ao partir, voltei meus olhos pela última vez, e o vi, esperando que eu assim fizesse, voltasse os olhos, o corpo e novamente o reconhecesse. E, ele, lá, encostado à parede, olhou-me com cara de desejo sério. Amém.
Suzana Guimarães
Nota: SOBRE POUSOS dedico a Italo Morelli.
Nota: SOBRE POUSOS dedico a Italo Morelli.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Apenas pássaro (#5)
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| (Arquivo pessoal de Suzana Guimarães) |
Apenas pássaro, apenas pássaro...
Nas mãos do homem, um viveiro.
Homem, fala, fala suas palavras amargas
Conta
Mostra
Quero ver suas mãos. Agora, vazias.
(Todas as histórias um dia se explicam...
Porque são dos homens)
Todos os voos são invejados
Porque
eternizados no ato e para poucos...
Que são apenas pássaros.
Suzana Guimarães
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Porque sou pássaro (#4)
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| (por Suzana Guimarães) |
Pousado num fio de luz, sinto o mundo.
Ouço voz! Uma criança faz soar festivamente: "Veja, veja, há um pássaro dentro de mim!".
Porque sou pássaro, sei. Porque sou cego, não posso ver...
Mas,
Reconheço sua língua sibilante...
Desconheço somente a língua dos homens: fraudulenta, farta, faca cega que sabe o que corta e o faz sarcasticamente.
O fio tremula, alço voo
Levo comigo esse menino.
Suzana Guimarães
Ouço voz! Uma criança faz soar festivamente: "Veja, veja, há um pássaro dentro de mim!".
Porque sou pássaro, sei. Porque sou cego, não posso ver...
Mas,
Reconheço sua língua sibilante...
Desconheço somente a língua dos homens: fraudulenta, farta, faca cega que sabe o que corta e o faz sarcasticamente.
O fio tremula, alço voo
Levo comigo esse menino.
Suzana Guimarães
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Porque não são pássaros! E eu sou. (#2)
Claro que de tudo sei
Tempo, tempo, tempo...
água que molha, sol que seca, vento que leva
Tempo:
até a migalha virar pó
até a pedra virar pó?
até meu bico ficar mais forte!
Oras, eu sei tudo sobre tempo...
E cá estou
Só para reverberar alguns sons
Só para sobre
voar.
Porque eu sou pássaro!
Mal sabem quantos serão meus voos...
e dizem que sabem contar...
ah, ah, ah!
Suzana Guimarães
Tempo?
Claro que de tudo sei
Tempo, tempo, tempo...
água que molha, sol que seca, vento que leva
Tempo:
até a migalha virar pó
até a pedra virar pó?
até meu bico ficar mais forte!
Oras, eu sei tudo sobre tempo...
E cá estou
Só para reverberar alguns sons
Só para sobre
voar.
Porque eu sou pássaro!
Mal sabem quantos serão meus voos...
e dizem que sabem contar...
ah, ah, ah!
Suzana Guimarães
Porque não são pássaros! (#1)
![]() |
| (Fotografia gentilmente cedida por Daniela Ferreira) |
Sou um pássaro cego que gosta do voo,
apesar de preservar o ninho.
Pouso muito pouco, somente o necessário para parecer deste mundo.
Poucas pessoas gostam disso...
Sou um pássaro cego que gosta do voo noturno ou de quando começa a se fazer noite
Gosto de sentir através - unicamente através - das minhas próprias asas...
e do vento que bate e do silêncio que canta...
Só os cegos sabem disso...
Meu ritmo, porém, é alucinógeno...
Poucas pessoas gostam disso... alucinadamente eu saboreio o nada, sinto ferver em mim todas as coisas passadas, presentes e futuras...
sinto as ondas quentes e frias
sinto o verdadeiro gozo
Porque, na cegueira, vejo todo o fundo.
Poucas pessoas gostam disso. Porque não são pássaros!
Suzana Guimarães
domingo, 10 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
"All those moments will be lost in time, like tears in rain."(Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva).
"Momentos antes de morrer, o replicante Roy Batty (no filme Blade Runner) disse a Deckard enquanto chovia: All those moments will be lost in time, like tears in rain (Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva)."
A importância tem tanta importância quanto as lágrimas na chuva...
A importância tem tanta importância quanto as lágrimas na chuva...
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
So...
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Claro como um dia
| (arquivo pessoal Suzana Guimarães) |
Eu vi um lago em um dia claro e vi o mundo que o circundava. Vi aves altíssimas, formosas e claras, assim como era a vida que eu sempre via... Eu vi as areias macias e pegadas antigas, onde brilhava a luz do sol abrangente, ardoroso, assim como era meu olhar por sobre a vida. Aquosa. Audaciosa.
Eu vi um homem parado que admirava o lago, o mundo, as aves altíssimas enquanto rolava nos dedos as areias macias, quase virgens, quase claras, alheias aos passos mal dados...
Eu vi um lago ou um homem em um dia claro?
De fato, eu nada via pois manhosa era a minha vida, saudosa de qualquer prévia partida.
O que o homem não via era o lago que de mim se emergia noutros lagos, rápidos atrás da desembocadura...
Onde nunca voou ave alguma.
Por Suzana Guimarães
sábado, 26 de dezembro de 2015
Geografia de mim
E foram surgindo caminhos estreitos, obscuros, estranhos; becos sem aparentes saídas, vielas sem luz... às vezes, pátios ensolarados onde sempre cantou uma única ave que carinhosamente chamava-me de bem... e também momentos de voos, asas abertas, coração acelerado em direção ao alto; comunhão com os astros... e foram surgindo dúvidas sobre mim, crescendo mudanças rápidas em meus movimentos (num corpo embora cansado e velho), e todos foram se perdendo daquilo que seria a verdade...
Porque hoje sou objeto metamorfoseado.
E foram tantas as mãos que moldaram esta para mim carcaça que por pouco, muito pouco, eu não saberia mais o correto endereço.
Por Suzana Guimarães
Para Cilnéia Felippe
Para Cilnéia Felippe
domingo, 13 de dezembro de 2015
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