Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Para quase falta tudo." (RMS)

(arquivo pessoal de suzana guimarães)

sábado, 6 de agosto de 2016

Relato breve...

​Eu queria. E era comum querer... Desejava um tempo especial, quase antes do fim do dia, do início da noite, o morno que se dá quando o calor ameniza, deixa a terra e as águas do mar alcançam as areias; um tempo calmo, gentil para comigo e eu para com ele. Mas também desejei - era muito comum querer! - passos pesados socando a terra, trovões, raios, enxurradas... a desgraça, a destruição da calmaria. Eu queria...


(fotografia por Suzana Guimarães, via celular)


Sentada aqui onde estou, debaixo desta árvore, diante do mar, vendo as pessoas multiplicando-se em meus piscares de olhos... ouvindo o homem furando a terra, a britadeira quebrando as pedras, as vozes comentando... comentam sobre o barulho, mas para mim o cenário é o mais que perfeito porque nunca é o mesmo (lembre-se, as pessoas multiplicam-se aos meus olhos e se vão...) e eu cansei e o tempo que eu queria, não quero mais, só este. Estou parada, e se quero, quero apenas o fim da mesmice...

Já não posso mais, as mesmas imagens, o mesmo vocabulário, as recordações que se atravessam. 

Sei que é meio-dia e que o homem parou para almoçar (e faça o tempo que for, ele parará), o silêncio apoderou-se do lugar, e eu ainda aqui. Espero um ônibus, o motorista me perguntará (ele, mais tarde, perguntou), "Where are you going?", e eu, prontamente, "I do not know". Sigo nesse ônibus, olho as cenas e elas não se repetem...

O que cansou-me foi a repetição...​​
​ 


por Suzana Guimarães​

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ah!


(foto: suzana guimarães)


Se eu soubesse, se você passasse, ah, se eu soubesse e você passasse. Se eu soubesse que você sabendo e eu também passasse... e se nós soubéssemos que passaríamos, eu passaria todo dia, eu saberia todo dia, e você saberia que eu passaria e também passaria, só para que eu soubesse.​

(suzana guimarães)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Aos cinquenta anos de idade



Aos cinquenta anos, a gente atira para matar. Não há mais rodeios e a necessidade apregoada é balela; nessa idade, sabemos muito bem como resolver as coisas; resolvendo. Não há necessidade, mas os atos são rápidos, sem premeditações infundadas. Demorou? A gente já se foi. Aos cinquenta anos, não há mais espaço para romantismos baratos e dramas. É tudo nu e cru. Ah, amo essas duas palavras! A gente tem fome e com certeza esperar o outro tomar alguma atitude é coisa impensada. É cru porque nos tornamos bruxos, adivinhões, e a conta de somar é a que mais sabemos. Um fato ou ato somado a outro é resultado sabido e esperado. Só os tolos, os tais românticos e dramáticos, erram ou subtraem, ou pior, dividem. Somos muito bons em multiplicar! Porém, predomina a tal necessidade que é falsa, pueril, enganosa, só para fazer charme, diversão. Aos cinquenta, a gente vai à fonte para beber água quando pairam dúvidas. Vai ao âmago da questão, vai aonde o cômodo diria para não ir, mas a gente vai. Fica aquela coisa remoendo dentro de nós, e fazer a verdade ser revelada fica fácil... a gente bebe a água, sorrindo.


Aos cinquenta, rir é mais fácil que chorar.


Suzana Guimarães

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Tenho Fome da Tua Boca

(Suzana Costa Guimarães)


"Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta, ...
busco no dia o som líquido dos teus pés.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue."
 


Pablo Neruda


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Mayhem in the streets Romeo and Juliet Revised






High School English Project. Zero Budget! Street English!
It was done in so little time.
Good job, guys!

Trabalho escolar. Nenhum recurso. Tempo escasso. Muita boa vontade.
Inglês cheio de gírias porque foi exigido trocar uma cena de Romeu & Julieta do Inglês formal e antigo para os dias atuais.

sábado, 23 de abril de 2016

(...) Com o passar do tempo e eu nem sei explicar o motivo exato que me levou a isto, ou mesmo, os motivos; com o passar dos anos, e o Sol castigando minhas ideias neste deserto cruel - mas, florido -, esturricando minhas vísceras, meus pulmões já traumatizados; com o passar do tempo cegando meus olhos, eu acreditei que ele viria rei, rei calçando chinelas - sim, chinelas, daquelas que fazem barulho no chão plaf-plaf -, dentro de bermudas velhas e camisetas de propaganda. E então, eu passei a enxergar o mundo masculino assim, chinelas plaf-plaf. Nunca mais, nunca mais os ternos, as belas camisas, algum charme. E meus vestidos seriam para sempre a vírgula mal colocada.
Com o passar do tempo, mimetizei-me (...).

(Suzana Guimarães)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um cílio de um milagre

por Suzana Guimarães 


Abriu-se um céu, um infinito de estrelas; perfeitas! Abriu em mim uma clareira onde ninguém até hoje havia habitado. Abriu-se um mar de cor que não posso descrever porque a clareira brilha tanto e fisga-me tanto que eu penso quão tolos foram todos os meus conceitos, meus desejos e quão frágil a vontade de penetrar cada vez mais em um paraíso... Porque nunca antes houve paraíso, nem vãos e cordilheiras na carne quase apagada de tanta e tanta falta de luz e desse clarão que diziam existir e eu nunca acreditei... Uma fonte jorrando qualquer coisa indescritível, uma vontade de estar ali para sempre, e quando chegar o último respiro que já nem importa mais, pedir um pouco mais mesmo ardendo, queimando, assim como o sol e a neve... porque realmente não importa...mais, mais, suba a rampa, galopa como nunca antes...já nada mais quero e posso esconder. Abriu-se em mim um mundo. 

Gastei palavras quando um único olhar poderia traduzir todas as línguas.


Suzana Guimarães

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Deus nos deu dois olhos porque sabia que não iríamos enxergar muito bem.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

No muro

No início, os empregados do manicômio retiravam a doida de cima do muro. Ela percorria todo o muro que circundava um dos pátios, descalça e de camisolão...

O que mais intrigava o diretor do referido hospital era ela não desejar nem o lado de dentro e nem o de fora. Nunca fugiu. Decidiu ele, então, deixá-la livre. Em cima do muro.

Histórias que ouvi do diretor.

                                                            Por SCG

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Mordeu o lábio e fixou-me... Eram olhos de imperador.

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Meu Deus!

(por R. Meneghini - via celular)



Eu poderia dizer Meu Deus! E assim repetindo e exclamando, Meu Deus! E ultrapassar o espaço entre nós sussurrando Meu Deus...

Eu já estou a dizer Meu Deus! E já estou a dizer e a dispensar qualquer confusão...

Surge em meu rosto brisa breve, pequenas risadinhas...

E eu retomo e penso, Meu Deus!

Bate calmaria de um tempo antigo, toda a minha vida - juro, caminharia tudo assim novamente, assim, resoluta...

Só para de novo dizer, Meu Deus!




Suzana Guimarães

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Tempo?


Denso no corpo volátil na alma É assim que se define Quando o tempo perde sua falsa existência
Um dia, cem anos
Dois dias, cem anos...

Quantos mil anos em minutos?
Quanto tempo em segundos?
Quanto tempo se pode aguardar?
O que é aguardar?
É guardar?
Eu guardei?


Suzana Guimarães



domingo, 31 de janeiro de 2016

Vou dormir cedo porque amanhã está esperando-me.

(foto: SCG)

sábado, 30 de janeiro de 2016



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)



Los Angeles, 30 de janeiro de 2016.



Querido,


Li, certa vez, que uma carta nos Estados Unidos demorou cerca de sessenta anos para ser entregue, mas um dia, ela chegou ao destinatário. Por isso, envio-lhe esta. 

Não, não estou esperando sua honrosa resposta. Certamente, daqui a sessenta anos, eu estarei em outra dimensão, pois meu caminho, eu já percorri a metade. Agradeço as chuvas de pedras, apesar de viver em um deserto. As pedras, nós já temos, a chuva, prefiro a que realmente água. 

Recebi suas fotos, de todas as suas últimas viagens. Assustei-me com a terceira pessoa que vi em todas elas e que se parece com você, mas não pode sê-lo. Antes, você sabe, eu via duas porque você ora se mostrava doce, ora se mostrava ausente, e eu não gostava dessa última. Eu não suporto ausências e notícias de pessoas desaparecidas. Sim, eu sei, preciso tratar-me disso! Aquele homem doce encantava-me... mas, agora, vejo um cara sem amor no olhar, sem delicadeza, um poema morto, papel picado e amassado... vejo um homem desconfiado, sim, a melhor palavra, melhor que "estranho". 

Quando a gente se encontrou naquele Café, eu falei que você estava "estranho" (perguntei se estava cansado e você alegou gripe), mas não fui feliz ao escolher a palavra, porque eu aprecio a estranheza, tenho vício nela; eu não gosto é do previsível. 

Onde você foi parar? Onde você está? 

Cadê você? Em suas fotos do passado, eu sempre via esperança em seus olhos, sonhos, caminhos, vontade de chegar próximo à alguma estrela, tocar alguma coisa que ainda nem havia sido criada... Hoje, vejo olhos levemente fechados, sem brilho, à espera de alguma tocaia... Em algumas fotografias, por estar ao lado das pessoas que ama, percebo a velha doçura, mas quem se deita em sua cama sozinho à noite é você, não é? A gente não pode ter os amados colados ao corpo, mesmo que sejam nossos anjos...

Descobri meio por acaso que você passou alguns anos tocando violão em bares, compondo letras muito lindas, esperando que alguma coisa o lançasse num golpe só a algum abismo... para que você sentisse o prazer de estar em qualquer lugar, menos em sua eterna zona de conforto.

Li essas músicas, entendi que a gente não retira com facilidade as digitais que os outros deixam em nossas almas. Eu, infelizmente, de nada soube, na época. Eu teria lhe dito que, dos seus noventa medos, um só poderia realmente vir a acontecer...

Foi então que tive pena dos poetas, e lembrei-me daquela frase, "Sou poeta e não aprendi a amar". Tive pena também do poema. Tive pena de você e também de mim, apesar de que eu não sou poeta e nem você. Apesar de que somos apenas duas pessoas que se encontraram em um tranquilo cruzeiro pelo oceano Pacífico e, em uma mesa de jogos, perdemos todo o nosso dinheiro e passamos então a nos odiar, colocando um a culpa no outro. Perdemos nosso tempo e até o juízo, bebemos tequila além da conta, nos jogamos nus na piscina do navio, fizemos muito sexo e fomos parar, presos, na cabine do comandante.
O resto ficou na ressaca...

Eu não fui cúmplice de nada! Você fez tudo o que fez, inclusive foi embora porque você já estava indo.

Essa carta é apenas para lhe dizer - pouco importando em que tempo chegará - que você não tem idade ainda para desistir e se tornar sócio de um restaurante de comidas vegetarianas. Você não deveria matar o artista, o poeta, o sonhador, o tocador de viola só porque a sua mulher morreu naquela curva mal feita que ela mesma fez na estrada. Você não teve culpa, nem no carro estava. Aqueles sonhos "assassinados" se foram, mas outros ainda podem surgir. 

Sou, sim, aquela mulher que você inventou, e, por ser invenção, fico na história, feito assombração. Mas, você eu não conheço mais, nem inventei. Desconheço-o totalmente.

Deixo-lhe essa carta, desejo-lhe uma mulher genuinamente feliz e úmida (e que saiba dirigir!), que lhe estenda a mão e lhe aponte caminhos. 

Mas, antes de tudo, desejo-lhe sua própria ressurreição.


Beijos, querido, beijos!

Lily


Por Suzana Guimarães