quarta-feira, 22 de março de 2017
Breve
Fui visitá-la no mesmo hospital; no mesmo Centro de Terapia Intensiva (CTI) em que estive um ano antes. Aquilo tudo era enorme surpresa para todos, assim como havia sido para mim, quando lá, deixei um bilhete mal escrito da minha vida... Ela não me visitou. Ela não soube de mim porque não quis saber.
Olhou-me nos olhos e perguntou-me, "Por que isso foi acontecer comigo?".
Abri as cortinas. Apontei os leitos à volta dela, todos ocupados. Respondi:
_ "Olhe! Você não é a única!".
(Suzana Guimarães, por que a vida é pra ser ficção)
terça-feira, 14 de março de 2017
Será que ninguém chorou por mim por que eu não corri atrás de esquilos para fotografá-los; não fui ao parque, não relevei a existência dos esquilos; pouco me importei com a máquina, pouco me atentei para a tão bela arte da fotografia... será que foi por isso? Eu não corri, afoita, atrás de esquilos no parque.
Posso vê-los; competindo com esquilos.
sábado, 4 de março de 2017
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Para o meu rei
Fica assim, uma recordação de nós. É fim de temporada, é fim de ano, é fim de qualquer começo; tempo de ouvir a chuva caindo, serena. É inverno.
As pessoas mastigam incansavelmente ao meu lado e eu alimento-me e basto-me de você. As pessoas falam muito e alto e eu só sei recordar. Recordo a gente junto, assim, coladinhos, você respirando meu ar que sumia... porque você não sabe, mas eu pensei várias vezes em deixá-la ir de vez, a minha entrecortada respiração, pois, nos braços do rei, morre-se em satisfação.
Suzana Guimarães
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Era um bom momento para dizer, "Eu a amo", ele pensava, aflito, enquanto ela se despedia, falava coisas, e, para ele, poderia ser talvez a última vez, então era a hora, falaria.
Falaria, mas não falou. Pediu um instante, disse que gostaria de dizer-lhe algo e um silêncio calmo se fez presente. Ela esperou. Ele não falou.
Ele não falou porque o coração gritava muito mais alto: "Eu a invejo."
Suzana Guimarães
terça-feira, 18 de outubro de 2016
O universo, ele e eu.
Ele disse, "O universo natural é escuro e frio."
Sim, escuro e frio, pensei, desliguei o carro e sorvi a imagem que se formou, então, respondi internamente...
é escuro e frio, mas há silêncio e luz; há som quando se passa por elas...
por elas, todas elas que você nem imagina, as estrelas...
de onde sai a mudez do verdadeiro silêncio, de onde não se ouve voz humana, pobre e triste voz, sozinha e sem par.
Por Suzana Guimarães
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Porque sempre haverá outono...
As ruas frias, o sol quase fraco, as folhas quase ao chão.
Tudo é você.
O barulho que a máquina faz ao ligar, pela manhã, e o sino da igreja chamando para a missa.
As árvores mais apressadas, já nuas, me lembram você...
Tudo hoje cedo era você, insistente pincelada de cinza num chão desmaiado de histórias que nunca viveremos.
Suzana Guimarães
domingo, 9 de outubro de 2016
Um poema de Mário Quintana
"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."
Mário Quintana
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
O sentido da existência
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| (fotografia scg) |
Pesou o passar daquelas horas. O relógio à frente, na parede, ajudava. Pesou o corpo que se entregou dobrado. Ficou assim, dobrada em dois, sentada na cadeira dura e inerte. Sentiu vazio enorme e um clarão: a existência é sem sentido enquanto se embala na certeza contrária...
porque tudo acontece como que maestrado no final de tudo, mas no correr das horas parece vago e sem cor.
Podia ficar ali para sempre. Ou morrer ali daquilo tudo que era o nada a subir pelas pernas.
Curvada, olhou essa coisa alguma galgando dos dedos dos pés aos joelhos... nada fazia sentido, coisa alguma, gente nenhuma.
Foi então que neste desejo de morte, ouviu chamarem seu nome.
Suzana Guimarães
_ era 5 de julho.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Nota sobre comentários
Após anos, decidi reabrir a caixa de comentários. Contudo, agora, "os comentários passam por um sistema de moderação. Não serão aprovados os comentários:
- não relacionados ao tema do post;
- com pedidos de parceria;
- com propagandas (spam);
- com link para divulgar seu blog;
- com palavrões ou ofensas a pessoas e marcas;"
- com luzinhas e pequenos corações saltitantes porque pesam a página.
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- com luzinhas e pequenos corações saltitantes porque pesam a página.
domingo, 18 de setembro de 2016
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Sobre ele e eu.
Passávamos. Ele contemplava o rio; disse-me, "Porque ela está muito próxima, a Lua, então ele se enche todo. Quase transborda." Para mim, era apenas um rio, belíssimo, de águas grossas;
Passávamos... Penso que mal vejo o mundo; só quase transbordo... porque ele passa e vai ao meu lado. E só ele, só ele me enche toda.
Com ele, morrerei Suzana.
Suzana Guimarães
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
sábado, 6 de agosto de 2016
Relato breve...
Eu queria. E era comum querer... Desejava um tempo especial, quase antes do fim do dia, do início da noite, o morno que se dá quando o calor ameniza, deixa a terra e as águas do mar alcançam as areias; um tempo calmo, gentil para comigo e eu para com ele. Mas também desejei - era muito comum querer! - passos pesados socando a terra, trovões, raios, enxurradas... a desgraça, a destruição da calmaria. Eu queria...
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| (fotografia por Suzana Guimarães, via celular) |
Sentada aqui onde estou, debaixo desta árvore, diante do mar, vendo as pessoas multiplicando-se em meus piscares de olhos... ouvindo o homem furando a terra, a britadeira quebrando as pedras, as vozes comentando... comentam sobre o barulho, mas para mim o cenário é o mais que perfeito porque nunca é o mesmo (lembre-se, as pessoas multiplicam-se aos meus olhos e se vão...) e eu cansei e o tempo que eu queria, não quero mais, só este. Estou parada, e se quero, quero apenas o fim da mesmice...
Já não posso mais, as mesmas imagens, o mesmo vocabulário, as recordações que se atravessam.
Sei que é meio-dia e que o homem parou para almoçar (e faça o tempo que for, ele parará), o silêncio apoderou-se do lugar, e eu ainda aqui. Espero um ônibus, o motorista me perguntará (ele, mais tarde, perguntou), "Where are you going?", e eu, prontamente, "I do not know". Sigo nesse ônibus, olho as cenas e elas não se repetem...
O que cansou-me foi a repetição...
por Suzana Guimarães
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Ah!
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| (foto: suzana guimarães) |
Se eu soubesse, se você passasse, ah, se eu soubesse e você passasse. Se eu soubesse que você sabendo e eu também passasse... e se nós soubéssemos que passaríamos, eu passaria todo dia, eu saberia todo dia, e você saberia que eu passaria e também passaria, só para que eu soubesse.
(suzana guimarães)
terça-feira, 26 de julho de 2016
Aos cinquenta anos de idade
Aos cinquenta anos, a gente atira para matar. Não há mais rodeios e a necessidade apregoada é balela; nessa idade, sabemos muito bem como resolver as coisas; resolvendo. Não há necessidade, mas os atos são rápidos, sem premeditações infundadas. Demorou? A gente já se foi. Aos cinquenta anos, não há mais espaço para romantismos baratos e dramas. É tudo nu e cru. Ah, amo essas duas palavras! A gente tem fome e com certeza esperar o outro tomar alguma atitude é coisa impensada. É cru porque nos tornamos bruxos, adivinhões, e a conta de somar é a que mais sabemos. Um fato ou ato somado a outro é resultado sabido e esperado. Só os tolos, os tais românticos e dramáticos, erram ou subtraem, ou pior, dividem. Somos muito bons em multiplicar! Porém, predomina a tal necessidade que é falsa, pueril, enganosa, só para fazer charme, diversão. Aos cinquenta, a gente vai à fonte para beber água quando pairam dúvidas. Vai ao âmago da questão, vai aonde o cômodo diria para não ir, mas a gente vai. Fica aquela coisa remoendo dentro de nós, e fazer a verdade ser revelada fica fácil... a gente bebe a água, sorrindo.
Aos cinquenta, rir é mais fácil que chorar.
Suzana Guimarães
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Tenho Fome da Tua Boca
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| (Suzana Costa Guimarães) |
"Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta, ...
busco no dia o som líquido dos teus pés.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue."
Pablo Neruda
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