terça-feira, 13 de agosto de 2013
Eu disse que gostava de diários?
Sem muito a dizer: além de alguns vivos que morreram para mim, no último mês, quatro se foram, literalmente. Fase sombria e solitária.
Sem tempo para gozar as alegrias porque a tristeza está de plantão...
Agosto, 13
Suzana Guimarães
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Eu disse que gostava de diários?
Ele me deu uma carona de moto. Fiz onda para subir nela - eu, cavaleira por alguns anos da minha vida. Ele olhou-me como se eu fosse uma imbecil. Por dentro, eu ria. Ele não teve coragem de diminuir-me com algum comentário, como sempre o vi fazendo, com as mulheres. Ele teve que engolir o que pensava. Subi. Na hora de descer, retomei o charme ou desgraça, pouco me importa. O que me importa é a minha diversão, mesmo que rápida, mesmo que entre lágrimas, mesmo que minha vida esteja uma desgraça. Pelas costas dele senti a sua falta de paciência. Explicou. Eu ri, levantei bem a perna e saí, só para fazer charme, mas dessa vez, foi para os caras do estacionamento que me engoliam com os olhos.
Agosto, esqueci o dia.
Suzana Guimarães
Agosto, esqueci o dia.
Suzana Guimarães
Eu disse que gostava de diários?
O bom de se estar em casa é que, ao se perder, as chances de se achar são mais rápidas. Eu me perdi várias vezes no trânsito, ontem, a gente vai perdendo o vínculo, o que era óbvio torna-se parcialmente nebuloso...
Mas, às vezes, você não está em lugar algum. Não estou escondida na costa oeste, posso me ver por lá, mas, isso só eu posso fazer. Entretanto, também não estou exposta num país úmido, onde o clima se fecha sobre a sua cabeça, num abafado bafo. Estou em algum lugar que reservei para mim, e nem sei dizer se é agradável ou não esse espaço.
Dizem-me que é um glamour viver na Califórnia. Deve ser, não sei. De uma certeza, eu tenho: o glamour está em nós, não importa onde.
Agosto, 12
Suzana Guimarães
Mas, às vezes, você não está em lugar algum. Não estou escondida na costa oeste, posso me ver por lá, mas, isso só eu posso fazer. Entretanto, também não estou exposta num país úmido, onde o clima se fecha sobre a sua cabeça, num abafado bafo. Estou em algum lugar que reservei para mim, e nem sei dizer se é agradável ou não esse espaço.
Dizem-me que é um glamour viver na Califórnia. Deve ser, não sei. De uma certeza, eu tenho: o glamour está em nós, não importa onde.
Agosto, 12
Suzana Guimarães
sábado, 10 de agosto de 2013
Eu disse que gostava de diários?
Preciso de alguma música. Ele pensou em Por Elise, foi bom ouvir por segundos um som antigo, mas troquei pelas músicas de hoje, assim, dessa forma, agarro-me um pouco mais à mim mesma. Perdi o passado e o fio da meada faz tempo... A cadela está inquieta e continua fedendo aos meus pés. Percebi que a mesa de vidro, a varanda, aquela rotina estabelecida é tudo apenas fetiche, mania. Não desagarro de mim porque sou tudo o que realmente possuo. A cadela atrapalha meus passos quando ando pela casa. Meu vazio é maior que o mundo. Nada preenche e para lugar algum quero ir. Andei carente, necessitada, mas isso já passou. Tudo passa. Não passa somente o que insiste vivo a queimar-me.
Eu disse que gostava de diários?
Agosto, 10
Eu disse que gostava de diários?
Agosto, 10
Suzana Guimarães
Eu disse que gostava de diários?
A mim, pouco coube. Não sei de mim, mas todos os personagens aves eram negros. Eu sei o que vi. Abri a porta da grande gaiola, eram várias espécies a transitar por lá. Nenhuma delas saiu porque, de longe, eu enxerguei tudo precário, mas, de perto, era tudo rico relicário. De qualquer forma, deixei encostado na pilastra mais próxima, um velho guarda-chuva, em pé, para caso de chuva. Ao lado, predominava o verde. Deixei também a porta aberta, pouco me importando se iriam gostar que eu assim agisse ou não.
Agosto, 10
Suzana Guimarães
Nota: não é bom tirar um cochilo à tarde.
Eu disse que gostava de diários?
Falaram-me que deve haver sentido nas coisas feitas ou a se fazer. Muita gente fala-me muita coisa.
O mais louco, à frente, grita "eu não sou louco, não!" e o que ele vê é somente a fila.
Falaram-me em bom senso. Isso me lembra a médica dizendo-me, anos atrás: "Meu pai diz que bom senso não existe porque não existe a expressão mau senso".
A expressão importa. A palavra importa. E o ato. O que não importa é o desprezo do outro por mim, pois isso vai rio abaixo.
Agosto, 10
Suzana Guimarães
Eu disse que gostava de diários?
Acordei pensando no motorista do táxi. Ele vive em pedras e asfalto e é utópico, mal sabe onde pisa. Eu faço versos, pareço transitar da nuvem rosa para a azul, o dia todo, pareço. Eu faço versos, mas não sofro de utopia. Talvez eu seja simplesmente míope, só consigo ver de perto, o longe é longínquo demais para mim.
Agosto, 10
Suzana Guimarães
Agosto, 10
Suzana Guimarães
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Eu disse que gostava de diários?
Eu fotografava Belo Horizonte, pelas janelas do táxi, no banco de trás, e o motorista dizia-me que eu deveria ser mais patriota. Não sei se faço belas fotos, mas meu olhar é destituído de preconceitos. Ele perguntou-me se eu queria voltar, eu disse jamais. Ele disse que eu não precisava ter medo de ter a minha câmera arrancada de mim, eu ri. Ele disse que também havia morado na América, em San Francisco. Perguntou onde eu morava. Eu disse, na Califórnia, também. Ele contestou, então você não mora em San Francisco. Bom, deixa para lá, o fato é: ele disse que ganharia o mundo, mas jamais seria radical, desfazendo-se do Brasil. Respondi que muitos problemas que temos num país, não temos no outro e vice-versa. E eu havia feito a minha opção de problemas. Ele disse que ninguém quer ter problemas. Respondi: não se vive sem eles. Ele perguntou se eu conhecia Mucuri. Ele não sabe, eu conheço o cu do mundo.
Agosto, 9
Suzana Guimarães
Eu disse que gostava de diários?
Dia longo. Brotoejas na cara. Saudade da mesa de vidro, da varanda, do jeep. A cachorra fede aos meus pés. Solta gases. Tampo o nariz e digito. Estou tossindo. É emocional e é porque às vezes eu me engasgo por rir. Dia longo e eu querendo dormir desde quando acordei. Saudade até de você, cara torta! Dia longo...
agosto, 9
Suzana Guimarães
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
SOBRE MIM
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| (Fotografia gentilmente cedida por Dulcie Britto) |
Fala bem baixo, por favor, sussurra, se possível. Não me diga nada sobre o futuro e não pergunta sobre o cotidiano, sobre aspirador de pó, panela de pressão, supermercado. Deixa-me num canto, deixa-me um espaço nulo onde eu possa preencher a minha dor. Dói em mim toda a minha história, do início ao fim. Dói.
Fala bem baixo, murmura cantigas numa Língua que eu nada entenda, respeita meu ninho, meu desapego e a verdade que vi. Tudo dói. Quando eu sorrir, saiba que faço através de antigo hábito, mas não há muitas razões para tanto. Não me diga que muitos sofrem mais. Não me diga que sou perfeita. Não mostre meu berço de ouro. É dor de vida, viver machuca. É dor de filha. É dor de estrangeira. É dor do enganado.
Fala meu nome bem baixo, dele tudo sei, e o que ainda não descobri, tampo bem tampado para não saber.
Por Suzana Guimarães
sábado, 27 de julho de 2013
SOBRE VONTADES
Detesto vontades moles. Não tenho paciência para quem não sabe o que quer. Passo o dia tomando café, ouvindo ela dizer que irá chover. Estou presa em mim, pedi ajuda, o guarda mostrou-me a chave... Disse sim. Acreditei. Caminhamos. Entendi errado, pensei que ele se perdia, mas, mais tarde, vi que ele se achava. Foi tanto o gosto da liberdade que abandonei-me na fuga. Larguei a guerreira, libertei enfim a prisioneira e pensei em chuva, em passos largos em pedras entalhadas pelo tempo.
Detesto vontades moles. Ele sabia para onde ia, eu, não. Eu queria o caminho onde é chuva todo dia.
Detesto vontades moles. O guarda mudou de ideia, trancou-me novamente.
Ele queria o caminho que eu entendia erroneamente perdido... Mas, por ser mole, sua vontade se esvaía...
Passo o dia pensando na chave. Tomo café. Ouço ela dizer vai chover.
Novamente reclusa, dispenso o guarda, a liberdade, aquele desejado caminho. Sonho com a posse da chave.
Detesto homens que se fazem de forte.
Por Suzana Guimarães
sábado, 20 de julho de 2013
AINDA SEI FAZER POEMA
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| Imagem gentilmente cedida por Daniela Ferreira |
Eu nunca o amei, e, sim, apenas, o seu amor por mim. Carreguei esse amor como a um troféu. Falei dele para as pessoas e busquei nos momentos de vazio o abrigo da lembrança. Era sagrado e carnal, ondas subiam e desciam pelas minhas pernas, amoleciam meus braços, enfeitiçavam meu espírito. Brilhavam meus olhos. Você nunca foi lindo para mim, foi somente presença a ocupar o espaço à volta, lotado de minhas descrenças. Eu nunca o amei porque sou promessa de um rei e você não é rei. Sou um resgate mal sucedido. Sou um corpo procurado. Você jamais me buscou, jamais cobrou a lembrança e os anos se passaram e eu acostumei-me a enganar-me. Você e todos os demais só souberam dizer-me não.
Sou o não do homem despreparado para o combate do amor. Sou a escrava à venda, a fugitiva, a vendedora de orquídeas, sou uma trilha, a relva, o caminho que o espera. Sou a mulher que você nunca despiu. Sou o martelo no leilão, o momento em que ele desce à mesa, mas sou antes da batida, nunca fui confirmação. Solidão do imperador cansado, que não me encontra e que sabe o quão difícil é promessa não cumprida. Sou a coroa, o manto desperdiçado por não encontrado.
Eu nunca o amei, porém assim o consagrei, rei. Agora, o que me resta fazer? Mudei tanto... já nem uso mais aquele perfume, nem considero o seu nome o mais lindo de todos. Evitarei lembrar-me do galope do cavalo...
Seguirei. Quem não possui reinado, considera qualquer canto, um palácio.
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 18 de julho de 2013
REZA A LENDA
Rogo aos céus Tsuru...
rogo, rogo e eles são todos apenas déjà vu.
Roda a saia de papel crepom, roda o véu chanfrado que silencia meu amado.
Roda vida, roda, bola, roda a roda da fortuna.
Roga a moça desencantada, a imperatriz desarmada, todo sonho de amada...
Por Suzana Guimarães
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Ensaios de um livro: Além de tudo (possível título)
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| (Direito autoral de Suzana Guimarães) |
E eu, em minha moral, digo-lhe, porte-se, seja decente. Eu não vou lhe dizer 'eu não a amo', porque eu não sou de dizer, sou de ações. Gosto dos atos, dos coitos, das armas contrabandeadas. Gosto de comprar o uísque falso porque palavras nada me atraem, principalmente as dos rótulos. Não direi falta amor porque desconheço isso, amor, não sinto o que não pego. Eu sempre quis mesmo foi a conquista da terra mais cara, isso me excita, porque subo com prazer para lá deixar meu cocô, meu território marcado, aqui estive, gente otária!
Não confunda o que faço ou fiz com isso que você imagina: amor.
Aprendi cedo a jogar a sujeira para debaixo do tapete, a vigiar possíveis passos, janelas e portas a denunciar. Sou mestre na arte de andar bem manso e, ninguém, de nada saber. Especialista em confundir paredes que ouvem.
Na falta do que lhe dizer, pois detesto palavras, jogarei em sua cara a minha moral. Descobri que lustrando-a com os troféus colecionados de todas as minhas defecações, ela se purifica, santifica-se.
Estou mudando de ramo, vender moral polida com cocô é mais rendoso e prazeroso, justifica-me mais.
Além de tudo, há a minha moral (Início)
Ensaios de um livro: Além de tudo (possível título)
Por Suzana Guimarães.
Nota: Preciso de alguém que me conheça muito e que possa me traduzir para o Inglês.
Nota: Preciso de alguém que me conheça muito e que possa me traduzir para o Inglês.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
INSUPORTÁVEL DOM DE SER POLLYANA
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| Picture by Suzana Guimarães |
Lily surgiu porque já havia um Blog com o nome ´Contos de Suzana´. Daí, pensei na tradução de Suzana que é "pura como um lírio", e, lírio em Inglês é Lily...
Foi assim que começou o Blog ´O Medo de Suzana´ e ´Contos de Lily´, e, consequentemente, a falsa aparência de que tenho dupla personalidade.
Forte aparência ou não, e pouco me importando, descobri que a Eleonora Duarte soube me ler por todas as entrelinhas... ela fez uma primorosa análise de mim, não sei bem se aos poucos, como se olhasse o mar, ou de uma vez só enquanto percorria as tortuosas ruas de Portugal. Isso foi em julho de 2012.
Leo, você acertou! A Suzana distingue-se da Lily. Descobri isso ao receber da minha mãe todos os meus textos escritos nos últimos anos, impressos.
Eu me deitei para ler. Comecei folheando o ' Medo´. Depois, li alguma coisa em ´Lily´, e, só aí, nesse momento, percebi a gritante diferença.
Respeito a Suzana, mas não gosto muito dela. Prefiro a Lily. Suzana é dócil, procura ajudar, compartilha, pode até perdoar. Lily não veio a este mundo para acomodar, veio para incomodar. Lily quebra os sonhos da Suzana, dá tapas, "espeta com agulhas finas na casa de brincar" - suas palavras, Eleonora. Lily é a Suzana nua, é a pessoa que nasceu do desassossego de saber que há quem veja, mas finge não ver. É fruto do cansaço, da preguiça de gente. Lily não é gente, é o espírito da Suzana que não mais suportou viver dentro de um corpo meio aprisionado, meio ignorado, meio Pollyana. Lily odeia essa menina, a Pollyana. Ela descobriu isso, outro dia, conversando com o Dario Banas. Ele disse que o livro deveria ser proibido. Ela disse que havia o ´Pollyana adolescente´, ele quase desfaleceu.
Lily não perdoa. Ponto. Lily não vê o lado bom em tudo, pois há uma certa lama que, após o toque, é irremovível. Lily incomoda, não sonha, tem ódio de quem se faz de difícil, dos fraudulentos e dos mesquinhos. É debochada e sabe rir do escorregão do outro que a fez triste. Ela é um riso gostoso e leve de vingança, certeza de que a vez de cada um, um dia, chega.
O papel, o palpável, que é o sonho de consumo dela, revelou-me. Ela sou eu, hoje, irremediável remédio.
Por Suzana Guimarães
sexta-feira, 14 de junho de 2013
terça-feira, 4 de junho de 2013
COMPRAREI UM LOFT
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| Picture by Raíssa Medeiros |
Comprarei um loft, para nele caminhar nua em minha
solidão. Nua, não, de calcinha e camisete.
Os móveis chegarão aos poucos, garimpados em lojas de cantos de ruas,
onde se vende de tudo. Buscarei no passado meus cusquenhos e outras telas
onde me perco apreciando-as. Um sofá novo e atualmente sem vida, esperando por
mim, alheio ao pó e ao mofo. Buscarei minhas taças de cristal e os
copos coloridos e também meus potes de cerâmica vidrada para servir comidas quentes nos
invernos. Alguns livros, alguns discos, todas as fotografias. E também as
panelas antigas, meu tacho, minha máquina de costura sem pedal. Minhas panelas
de pedra, os armários feitos de madeira de igrejas... Trarei meus santos. Comprarei roupa de cama nova, usarei a
lingerie que se perde nas gavetas. Pintarei as paredes, eu mesma, farei stucco em
algumas delas. Minha casa será um todo e eu a semente da maçã. Darei as chaves
aos meus filhos. Voltarei das festas e jogarei meu corpo no tal sofá, minha
cama. Dispensarei demaquilantes, passarei o dia com os olhos feito os pandas. Ouvirei
minhas canções enquanto o vinho gelar na geladeira. Escreverei, escreverei, até
o desgate, e provarei que nenhum poeta é fingido. Ele é o ébrio que usa a
embriaguez como desculpa para dizer tudo aquilo que não tem coragem. Ele é o desajustado que usa
a poesia como fuga porque seu desejo de
mudança é bem mais rápido que o tempo dos relógios e em inconformismo tal que
assusta o mais persistente de todos os viajantes. Ele não finge, ele confessa. Ele
viaja sem sair do lugar e ganha de todos. Não farei sexo, não beijarei na boca,
e dispensarei o vibrador de presente.
Comprarei esmaltes escuros, lerei a agenda que furtei
da minha colega da faculdade, viverei os dias da agenda, telefonarei para seus
namorados e amigos e conversarei por horas a fio, como se eu fosse ela.
Sairei pelas ruas de chapéu e aprenderei a andar de
bicicleta. Depois, andarei com lenço de seda preso ao pescoço, pelo prazer do voo
que ele faz na beira da praia mais isolada, onde o vento bate só para quem
tem coragem de senti-lo.
Serei a poeta
sem o aguardente, terei coragem então de ser outra e serei a vigília nas noites
em que eu me lembrar de você,
lembrando-me o tanto que poderíamos ter sido felizes.
Por nada valerem as conversas dos bêbados, por nada
valerem os delírios dos poetas, atearei fogo em meus textos, em pires bem
pequenos, para que o processo dure o tempo exato da decomposição de um corpo.
Por Suzana Guimarães.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
SOBRE CAMINHOS QUE SE PERCORRE
Cheguei na madrugada antes de você. Pensei que tudo havia sido um sonho, mas, não, foi real. Sentei-me ao seu lado e ouvi tudo o que você me dizia, sem abrir a boca, sem que você precisasse olhar para mim. Vagava silenciosa noite, a mesma que eu via, longe de você, no tempo da descrença. Era tudo simples ideologia ou mesmo mania. Tudo sombra a me dizer coisas insanas, ninguém para me salvar e eu nunca realmente desejei salvação. Morreria daquilo, daquela falta, mesmo que essa morte se multiplicasse, pois vãs foram as tentativas do mundo de doutrinar-me. Agora, não morro mais.
Cheguei na madrugada antes de você. A vida, velha senhora em roupa de festa, sorriu a nos ver assim tão despidos, tão fáceis, tão banhados e comungados. Não se abre um corpo à força, derrubar muralhas é coisa de almas estranhas.
Assim, de tudo sei, tudo vi, tudo. Rarefeita razão de ser. Tudo efêmero, pequeno, pouco. Agora, meu olhar sobre você. Senta ao meu lado e me diz tudo o que deseja, tudo o que já sei. Diz, para eu ouvir, para eu saber. Ou nada diz, deita-se sobre mim e fala simplesmente que belas são as madrugadas em que nos procurávamos.
Por Suzana Guimarães
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