Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



terça-feira, 4 de junho de 2013

COMPRAREI UM LOFT

Picture by Raíssa Medeiros

Comprarei um loft, para nele caminhar nua em minha solidão. Nua, não, de calcinha e camisete.  Os móveis chegarão aos poucos, garimpados em lojas de cantos de ruas, onde se vende de tudo. Buscarei no passado meus cusquenhos e outras telas onde me perco apreciando-as. Um sofá novo e atualmente sem vida, esperando por mim, alheio ao pó e ao mofo. Buscarei minhas taças de cristal e os copos coloridos e também meus potes de cerâmica vidrada para servir comidas quentes nos invernos. Alguns livros, alguns discos, todas as fotografias. E também as panelas antigas, meu tacho, minha máquina de costura sem pedal. Minhas panelas de pedra, os armários feitos de madeira de igrejas... Trarei meus santos.  Comprarei roupa de cama nova, usarei a lingerie que se perde nas gavetas. Pintarei as paredes, eu mesma, farei stucco em algumas delas. Minha casa será um todo e eu a semente da maçã. Darei as chaves aos meus filhos. Voltarei das festas e jogarei meu corpo no tal sofá, minha cama. Dispensarei demaquilantes, passarei o dia com os olhos feito os pandas. Ouvirei minhas canções enquanto o vinho gelar na geladeira. Escreverei, escreverei, até o desgate, e provarei que nenhum poeta é fingido. Ele é o ébrio que usa a embriaguez como desculpa para dizer tudo aquilo  que não tem coragem. Ele é o desajustado que usa a poesia como fuga  porque seu desejo de mudança é bem mais rápido que o tempo dos relógios e em inconformismo tal que assusta o mais persistente de todos os  viajantes. Ele não finge, ele confessa. Ele viaja sem sair do lugar e ganha de todos. Não farei sexo, não beijarei na boca, e dispensarei o vibrador de presente.

Comprarei esmaltes escuros, lerei a agenda que furtei da minha colega da faculdade, viverei os dias da agenda, telefonarei para seus namorados e amigos e conversarei por horas a fio, como se eu fosse ela.

Sairei pelas ruas de chapéu e aprenderei a andar de bicicleta. Depois, andarei com lenço de seda preso ao pescoço, pelo prazer do voo que ele faz na beira da praia mais isolada, onde o vento bate só para quem tem coragem de senti-lo.

Serei a poeta sem o aguardente, terei coragem então de ser outra e serei a vigília nas noites em que eu me lembrar de  você, lembrando-me o tanto que poderíamos ter sido felizes.

Por nada valerem as conversas dos bêbados, por nada valerem os delírios dos poetas, atearei fogo em meus textos, em pires bem pequenos, para que o processo dure o tempo exato da decomposição de um corpo.

Por Suzana Guimarães.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

SOBRE CAMINHOS QUE SE PERCORRE







Cheguei na madrugada antes de você. Pensei que tudo havia sido um sonho, mas, não, foi real. Sentei-me ao seu lado e ouvi tudo o que você me dizia, sem abrir a boca, sem que você precisasse olhar para mim. Vagava silenciosa noite, a mesma que eu via, longe de você, no tempo da descrença. Era tudo simples ideologia ou mesmo mania. Tudo sombra a me dizer coisas insanas, ninguém para me salvar e eu nunca realmente desejei salvação. Morreria daquilo, daquela falta, mesmo que essa morte se multiplicasse, pois vãs foram as tentativas do mundo de doutrinar-me. Agora, não morro mais. 

Cheguei na madrugada antes de você. A vida, velha senhora em roupa de festa, sorriu a nos ver assim tão despidos, tão fáceis, tão banhados e comungados. Não se abre um corpo à força, derrubar muralhas é coisa de almas estranhas.

Assim, de tudo sei, tudo vi, tudo. Rarefeita razão de ser. Tudo efêmero, pequeno, pouco. Agora, meu olhar sobre você. Senta ao meu lado e me diz tudo o que deseja, tudo o que já sei. Diz, para eu ouvir, para eu saber. Ou nada diz, deita-se sobre mim e fala simplesmente que belas são as madrugadas em que nos procurávamos.


Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 17 de maio de 2013

PARA O DIA EM QUE NOS VIMOS

 
 
Fotografia gentilmente cedida por Raíssa Medeiros
 
 
Desfolhar-se é natural, mas há uma gente que parece ter se robotizado, anda por aí gritando que tudo é felicidade e festa... ou finge ou foge, não sei.
 
Sorrisos plastificados, sempre os mesmos, lembram-me o Coringa, inimigo do Batman.
 
Desfolhei-me, mas, passado o tempo, tudo se refez, lentamente, e varridas pelos ventos foram as antigas folhas, engolidas pelo eco que gritava meu nome. As novas, a mim não foi dado o dia de seus nascimentos, exceto uma, aquela que nasceu, ingênua, no dia em que lhe estendi a mão e perguntei "como vai você?".
 
Repara, o eco agora engole nós dois, espera absoluto por nosso silêncio.
 
Haveria de ser festa, foi silêncio de monastério.
Haveria de ser rápido, se fez em mês.
 
Não preciso mais sorrir, falar, insistir, fingir, devorá-lo. O antigo mundo arruinou-se só para esperar por nós.
 
 
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 2 de maio de 2013

MENTIRA

  
 Você me irrita

diz que não sei fazer poemas

Mas insisto

são pernas curtas

feito mentira






(Suzana Guimarães)

sábado, 27 de abril de 2013

UMA CARTA DE SUZANA

  
Los Angeles, primavera de 2013.

                                                  
Querido Teopha,

Fiquei longo tempo sem lhe procurar porque perdi seu endereço, viajei muito e deixei de lado a prisão dos telefones celulares. Decodifiquei-me para conhecer-me melhor, e, nesse movimento, alcancei satisfação, mas também algumas mascaradas verdades. No bolso de um casaco de frio, encontrei um pedaço de papel com seu endereço, pensei então em dar-lhe notícias de mim.

Lembrei-me de você e de suas últimas palavras: "Eles têm medo de Suzana". Sim, escrevo-lhe para dizer que eu sei, e que, por isso, pouco vi do amor. Eu queria escrever um livro, "O Amor de Suzana", mas o tempo da ilusão se foi num só golpe de vento. A alguns não é dado o direito à reciprocidade do amor, ele é sempre um triste anjo de asa podada.

Alguma coisa havia entre o tempo que corria e o que eu realmente via. Foi longa a trajetória, carregada de acordes pouco afinados, onde encontrei uma gente louca a falar de utopia, na possibilidade da perfeição, e percebi, no caminho, que a perfeição tem a cara torta.

Eu tomava café e ele, um homem que conheci na fila do pão, falava sobre seus projetos, chamava-me de querida, estava sempre à minha espera, contudo, se eu não estivesse presente, ele se fazia mudo e eu pensava em postes. Gente-poste, gente que se cala e parece inatingível. E nos parques, ele compunha, estranhas, mas, delicadas músicas para mim, ele era todo ambíguo, mas se vestia como todos, para parecer ser igual, mais um deles.

Foi um tempo estranho, eu tinha sempre os mesmos sonhos, plantando papoulas na Transylvânia, pintando quadros em Madri, vendendo ostras numa ilha perdida da Grécia. Havia uma casa, toda branca, toda pronta, e, nos fundos dela, ele escrevia longas cartas para mim, dizendo de seu cotidiano de pescador de almas. Ele era poeta. E eu era sua musa encantada, um livro inteiro a ser lido num só dia, antes que o sol castigasse todas as flores que ele plantava para mim. Às vezes, ele me contava histórias e eu nunca sabia serem verídicas ou não.

Uma pergunta insistia: por que os homens se faziam tão calados? Por que pediam a minha voz se nunca faziam coro, um dueto, um mínimo de arranjo? Eu nunca saberia, nem que duas vidas eu vivesse. Decidi então esquecer as músicas, o fingido poeta, e, ao me deitar para dormir, passei a tampar o maldito relógio que marca as horas em vermelho e parece lembrança a me dizer que é tempo, é hora, decidi esquecer porque descobri que nunca houve nada muito real, desde o dia em que eu disse a ele: "Olá, como vai? Eu me chamo Suzana".

Estou na sala de embarque de um aeroporto, alguém repete meu nome incansavelmente... tenho que ir, mas antes, tenho que lhe dizer: de todas as mentiras, você é a mais verdadeira.

Beijos,

Suzana

Por Suzana Guimarães

CARTA PARA O MEU QUERIDO

Fotografia gentilmente cedida por Raíssa Medeiros
Los Angeles, abril de 2013.
                                              
                                                 Querido,


Eu queria que chovesse, mas não chove nunca por aqui. Às vezes, alguns respingos que iludem e me fazem pensar que tudo pode ser vivido novamente. Mas, não é bem assim... eu sei, você sabe. Eu queria ouvir um pouco mais o som do sino dos ventos, ouvir os pássaros que passam pela varanda à minha frente, em displicente alegria. Eu queria algo que me aconchegasse e me livrasse do sentimento de ser sempre só. Eu nem sei por que lhe escrevo...

Escrever uma carta para você e não poder enviá-la é ofício dos piores pois alivia, mas relembra o desconforto de nossas inúmeras frustrações vividas, à todas elas, juntarei mais algumas dúzias de cartas até o dia em que eu entender que não o tenho mais, que nunca o tive, que nunca fui realmente sua. Enquanto esse dia não chega, perco o meu tempo - tempo? - contando-lhe minha rotina.

Depois que eu perdi você, passei a perder coisas, nunca sei onde estão meus óculos, minha agenda, onde larguei meu telefone celular. Parei de pintar as unhas, de hidratar a pele, esqueci na gaveta meus brincos e pulseiras, meu tempo para mim. Nos momentos de ócio, perco-me olhando o enorme mapa pendurado na parede da sala, leio e releio os nomes dos países, dos rios e oceanos como se fosse sempre a primeira vez.

Quantas vezes você morreu ou eu o matei? Inúmeras vezes, tantas que não cabem numa só existência. No chão, há mais pegadas nossas do que possamos imaginar. E em nossa história só há prefácios, resumos, rachaduras que sempre procuram nos engolir. Quantas vezes eu o deixei e quantas você pensou me ter? Eu acreditava ser sua, mas não era, descobri que existe enorme diferença entre "assimilate" e "adjusting". Assim, em Inglês mesmo e da forma que está escrito, pois, hoje, Mrs. G., minha professora, enfatizou isso tanto, mas tanto, que, eu, distraída, olhando, através da janela de vidro, as pessoas que passavam ao longe, me revi e refiz certos percursos passados. A verdade bateu-me à cara, nítida e brilhante. Eu pensei que amei, porém, eu apenas fiquei ajustando-me a você, procurando me adaptar. Eu não o assimilei. Assimilar é receber na veia aquilo que lhe é apresentado. Por que eu nunca o aceitei, por que eu o deixei partir e também me deixei ir, por que rejetei o nosso amor, fingindo ajustes, mas no fundo querendo ser parte da sua pele? Por que você fez o mesmo?

Outro dia, visitei uma cartomante. Ela disse que havia um eterno homem em minha vida, eu ri, claro! Todas dizem o mesmo! Porém, ela o descreveu em detalhes. Disse que fui sua preferida dentre todas as dançarinas de um cabaré do passado; a filha de um senhor de terras que não o queria por perto e que mandou lhe matar... fui aquela que embrenhou numa noite escura e solitária para procurar por você... e encontrá-lo tarde demais, machucado, derrotado, morto. Ela disse que completamos agora nosso sétimo encontro e isso significa que somos almas gêmeas. Fomos aventureiros, loucos, constantes, amantes, preferidos, escolhidos, mas só soubemos nos negar, enquanto juntos.

Troquei você por meus discos, meus livros e todos os meus delírios. Reneguei seu corpo só para não assumir a dor do meu sem o seu. Falei, falei demasiadamente e emudeci quando mais precisava dizer. Aceitei seus erros, mas não assumi o homem. E deixei você para todas as outras. Ri de nós, chorei por nós, briguei com a nossa história, recusei ser infeliz, mentira, sequer tentei.

Eu nem sei por que lhe escrevo... Cheguei tarde para recomeçar. Andei o mundo todo à sua procura por tão longo tempo, por tanto amor, por mim, por nós, por uma história que valesse a pena, para ser novamente sua, e, você, inteiro, de verdade, para mim, porém, enquanto eu pulava no primeiro trem que passava na estação, você descia dele e enquanto eu caminhava para o norte, você se decidia a bancar o forte e desbancar o mundo, no sul.

Não chove. Não ouço trovões, não sei mais o que são relâmpagos, nunca mais os vi. Não sei por que lhe escrevo... não sei por que ainda penso em nós, e nem por que a imagem de você, morto, naquela esquina, com os olhos abertos, vidrados e estranhamente gritando meu nome tornou-se minha vigília, em todas as posteriores noites frias e solitárias, onde se ouve apenas um relógio a caminhar seus ponteiros, indolentes.

A você, meu olhar parado no mapa.

Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 5 de abril de 2013

PARA UM AMOR EM PARIS




Imagem do filme "Bem Amadas".



PARA UM AMOR EM PARIS, por Bruno Batista. Clique aqui.



Enviado por Franck Santos, clique aqui. para mim.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Um conto em francês - a um desconhecido.

 

 
Duas horas da tarde. Eu estava no supermercado, irritada, entre uma gôndola e outra, puxando o carrinho, passei por você. Mal o vi, mas bem ouvi suas palavras em Francês, ao telefone. Ah, você falava em Francês e o dia tornou-se ameno, envolto de aura em paz!
 
Noite atrás, sonhei que estava no Brasil, na mesma cidade, percorrendo as mesmas ruas, vendo a mesma gente. Euxarida das contrariedades, eu disse que iria voltar para casa e a minha casa, para surpresa minha, era na França, a minha casa.

Você me perguntou algo, eu respondi em Português: "leva-me para tua casa". Ah, claro, você falou em Inglês, disse-me "I`m sorry..." e arqueou uma das sobrancelhas, depois, sorriu. Eu sorri e fui andando.

Foi o som. O mais belo de todos. Tua voz ao telefone parecia saliva de algum deus, lubrificando a secura da minha terra, meu corpo seco e cansado.

Procurei por longo tempo um certo homem que não diria a palavra perfeita, mas faria o gesto esperado por mim. Muitos apareceram e eu me deixei enganar porque eu queria muito. Quando queremos muito, um Puro Sangue Inglês perde de nós na vastidão de um campo sem fim. Mas, o mundo é com fim, os campos também, assim como a ilusão de se estar com a pessoa procurada. Um dia, a gente acorda, cumpre nossos rituais e, no corredor de um supermercado, a gente brinca pedindo "me leva para casa" a um desconhecido. 
 
Sim, leva-me para tua casa, mostra-me teu mundo, diga-me tudo, da palavra certa para o copo, para a xícara, para as melhores comidas, para sabonete, escova de dentes, diga-me um corpo todo - o meu - em Francês. Fala, sussurra, canta, mesmo que eu nada entenda, mesmo com a certeza de que você é mais um passante, deixa-me caminhar no rastro calmo que tua voz me traz.

Se pudesse e eu gostaria tanto, se quisesse, diria-me "ne me quitte pas".
 

Por Suzana Guimarães

domingo, 31 de março de 2013

QUANDO UMA MULHER VIRA POLVO

Arquivo pessoal de Suzana Guimarães


Que desastre, o meu grande amor do passado ficou feio! Eu não o vi enfeiando, eu o vi ontem, após décadas. Eu teria dado dez anos da minha vida para estar ao lado dele, aguando violetas na beira da janela da nossa casa. Ontem – de que me importam datas? – eu sonhei com ele, e, no sonho, altamente desejável que fosse realidade, ele era aquele, aquele que lá para trás desprezou meu interesse de menina de 15 anos. Com o atual, não quero nem um esbarrão na esquina...
E você fica aí, em sua eterna pretensão de macho, o espetacular. Enquanto nós mulheres nos recriminamos diante do espelho do banheiro, você se vê o próprio leão da Metro, mesmo que a realidade seja outra.
Eu amo os homens, não, eu não amo os homens, eu amo o fato de me sentir interessada. E isso significa esperar respostas, comprar discussões, às vezes até chantagear. Eu não amei homem nenhum e posso provar. Diz quem já ouviu minha voz dizendo “eu te amo”. Diz, quem puder dizê-lo. Eu amo a troca, a espera, eu amo aguardar a resposta somente pelo prazer de responder e, para isso, sou imediata.
Sou imediata para a dança que enfeita o amor. Porém, sou lenta para descrer, e foi descrendo que cheguei ao ponto atual.
Falta-me tempo para você, só isso. Talvez, eu aceitasse bem sua feiura, os defeitos de todos, pois a beleza há tempos me abandonou. Se há algum frescor, só se for o do meu hálito rindo de si, na sua cara.
Não posso mais me perder à procura de pelos inconvenientes em meu corpo. Já perdi o jeito de pintar as unhas. Pago alguém para fazer por mim. Porém, isso não me contenta. Eu amava meus momentos. Não leio, não brinco, não perco hora, não faço sexo, nem trepo. Virei polvo.
Na quarta-feira passada, eu segurava um par de tênis número 21 - porque era preciso trocar o que estava nos pés da criança e não havia tempo ao sair de casa - segurando minha bolsa, duas mochilas, um buquê de flores e uma caixa de bombons para a professora aniversariante. Mais o lanche da manhã, num saco de papel, que seria comido dentro do carro, logo após a troca dos tênis. Blusas de frio, o saco de lixo que fedia na cozinha e as chaves para abrir e fechar portas. Entendeu?
Sinta-se então não o leão da Metro, mas um homem que pode ser admirado por uma mulher, no caso, eu, porque eu sei agora que toda quarta-feira pode ser sempre a mesma, de quarta a quarta.  Sinta-se homem, só isso. Sinta-se o escolhido, nasci para escolher, meu querido, está na minha natureza a escolha do macho, pois carrego apenas um óvulo para ser fecundado e, se, por lá, ele estiver no lugar e hora certos. Então, sou rigorosa, mesmo que você seja o mais tolo de todos os tolos, pois, o poder de escolha cabe a mim.
Se possível, venha e me passa o copo que está na prateleira, já que você está em pé e mais perto.


Por Suzana Guimarães.

segunda-feira, 25 de março de 2013

PROFESSO, e não importa o que você seja para mim.

 
Fotografia de Luís Meneghini

 
 
No retiro dos detalhes, irei estar com você na segunda Lua minguante. E seremos novos, você e eu. Um mundo nosso onde reafirmaremos em êxtase a experiência de estarmos juntos. Quase nada você falará, e eu bem pouco irei pensar ou tentar lhe fazer festa. Ficaremos nós, encostados peito a peito como da outra vez em que tudo era imenso, um mar sem fim, intransponível. Agora, no tempo do pouco, continuaremos a delicadeza interrompida. Você acolherá meu rosto em tuas mãos, e gradualmente caminhará com a boca todo o meu corpo, gastará todo um dia, todo o inverno para isso, passearemos por um fio de água. Com um único dedo me conhecerá, e eu estarei em silêncio, ouvindo o que restou de nós voltando de forma devagar, em lenta contagem de todos os dias que perdemos, mas fomos um.

 
No retiro dos detalhes, adormecerei por entre tuas pernas, tomaremos pequenas doses de alguma bebida forte, desfiaremos o dia como se desfia um terço... Tudo será pouco, leve, lento, pequeno.

 
Grande, só teu corpo por sobre o meu.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 21 de março de 2013

Administrando o docinho de banana na geladeira.



Porque você dormiu, você não escreveu...
O que sabe você da minha busca? Qual a tua pretensão em pronunciá-la, fazer referência? O que você sabe de mim se teus olhos sempre se negaram a me ver?
Você sabe o que eu lhe conto e eu lhe enrolo, lhe embromo e você dorme, e você administra o docinho de banana na geladeira...
Enquanto você dorme e o docinho é comido aos poucos, você fixa teus olhos no espelho amarelado do tempo que você não conseguiu conter entre teus dedos e eu aqui venho para lhe dizer o que sei, a tabacaria foi uma boa desculpa para teu arrependimento explícito de não ter me estendido a mão.
Estendo-lhe agora para você, meu tempo, meus dedos, meus pensamentos que você admira e odeia, você, que me mata e me ressuscita e que se engasga com a verve que lhe passo por entre... por entre dedos, entre coxas, entre notas, entre um passo e o seguinte.
Venha cá, aproxime-se, antes que eu me perca de vez de ti, ai, eu que nada entendo de perdas, apenas sinto-as.
Toma tempo para me entender, esqueça de si mesmo, por breve segundos... quem sabe, dentro da brevidade, você se encontre e veja que ela ficou noiva de um e se casou com outro, que teus castelos perderam o sentido e você não se perdoa. Por quê? Porque teu sono segura tuas pernas, não lhe permitindo caminhar e elas diminuem de tamanho a cada passo. E tuas pernas não alcançam teus sonhos, e teus passos, você os faz bem diminutos para caber teus pés.
Tua mãe não lhe fez pequeno, nem teu pai, nem eu. Quem lhe diminui e faz círculos no chão é você mesmo que tem medo do que vê por entre frestas, por entre saias e calças, por entre a noite escura, nos quartos proibidos. E então, você dorme.
Ei, ela ficou noiva de um e se casou com outro, porque o docinho foi comido aos poucos, na geladeira em que você o deixou...
Enquanto você dormia, eu gozava sozinha.
E, você? Tem gozado? A morte anda lhe alcançando? A vida anda lhe alcançando? Para onde foi o sofá desgastado? Para onde foi o teu desejo de criar peixes substitutos? Não há vida sem gozo e morte, não há morte sem gozo e nem eu sem muitos gozos. Sim, gozos, no plural...
Você imagina saber de mim, mas vou lhe dizer, na minha busca não há vazio, na saudade que sinto de quem procuro não há vacilo, na minha espera e busca, eu jamais dormi, e jamais administrei docinhos na geladeira...
Vem cá, escuta: a minha busca é soberana, lotada, é tanta que sobra e se esparrama pelos lados, para cima, para baixo. A minha busca é o meu excesso, a minha perdição, pois eu busco porque quero encontrar, e, encontrando, gozar, esparramar-me, viver de doer, gastar, gastar, gastar e marcar cada centímetro do meu corpo já bastante marcado... eu quero mais, porque não sei de pouco, não saio por aí pedindo ninharias para quem pode dar muito, ah, tenho dó dos falsos cegos e dos sujeitos de baixa autoestima!
O meio pão com o qual não me contento não é o único, eu também não me contento com meia gente, nem com meia vida. Por entre meus dias todos, busco sim quem irá lamber e delirar em meus excessos.
Antes que você novamente durma: meus excessos são maus e ótimos, ora uns, ora outros, feito nascente e poente, infernos e paraísos, feito os dias que eu criei com você, e, entre eles e você, prefiro eles. 
Por Suzana Guimarães.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

HORA DE PARAR

By Lelena Terra Camargo


 
 
Faz-me mal a escrita? Não, as consequências dela.

Por isso, vou parar por algum tempo.

O Blog ficará aberto para quem gosta de me ler.


Suzana Guimarães, a Lily

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

DOCE HOMEM ( VII )

 
Ficarei. Para sempre estarei, bem próxima, a um passo para dentro ou em ti, para que você viva e siga, mas eu estarei. Longe, me perdi, me vi desinfeliz, esforcei-me, afastei tua imagem, para andar perdida e fraca.

Brada coisa louca em meu peito, clama por tua cor e teu olhar sem pudor, escancarados olhos a me engolir... brada cousa louca, sou bicho correndo solto pelos campos, a caminho de você. Ao teu lado, tenho sorte e riso solto, tenho gozo e norte.

Nunca mais partirei. Estarei dentro de ti, no mais escondido, onde ninguém alcança. Respiro melhor no toque do seu olhar, homem compacto, homem que me cura e me enleva, que me enxerga muito além do que eu possa saber, faz riso em minha boca, um convite mudo e secreto que eu ao redor de ti dance a mais eterna das melodias, a mais brava de todas as lutas, doce homem que ri do leão que habita em mim, eternidade é a tua casa.

Demorei tanto para encontrá-lo, centena de suspiros e tropeços, demorei o tempo dos enfermos, os minutos lentos dos que sabem que vão morrer.

Quando eu morrer, abraça teu próprio peito, pois, eu dentro dele, estarei.

Amém.


Por Suzana Guimarães



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

ESTRANHO CONHECIDO



O que tu sabes de mim?

Conheces o fundo dos meus olhos?
Onde pende alguma água
Ou onde tudo já secou?
O que tu entendes de mim?
Poderias, tu, desenhar-me com a precisão
Que só cabe aos amantes?
Conheces o tamanho dos meus seios?
Tocaste algum deles?
Viu minha pele eriçar-se?
O que tu viste?
Tu me vias em vestes frágeis
Num balanço lento
de saias ansiando pela transparência
Viste com rudeza e descrença
dizendo saber de mim...
Como tu sabes de mim se teus olhos em mim jamais repousaram
assim igual ao repouso da chuva molhando um secreto jardim...
um dia de chuva fina e calma em algum deserto...
No fundo, no fundo, todos os desertos são calados.

Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

LEGADO


Um dos guardas entrelaçou seus dedos nos meus...

Ninguém me defendeu. Ninguém subiu ao púlpito e bradou minha inocência ou mera atenuação de todos os conturbados fatos da vida de uma mulher comum. Na saída da grande plateia, eram vários os homens que me acompanhavam, todos muito próximos de mim, fechando cerco à minha volta, seguravam-me pelos braços e empurravam-me à frente.

Ninguém me defendeu.

E isso se multiplicou cem vezes cem, na mais baixa das planícies, na mais alta das montanhas, na maior cidade do mundo e na mais tosca das vilas. Ninguém tocou um passo à frente no chão, nem um grito monossílabo, nem uma carta bem ou mal redigida, nem um amor para dizer "eternamente seu". Sempre algo, um fato ou alguém entre mim e o outro, sempre um dedo apontado em riste por eu parecer não entender.

Subi ao cadafalso como um barco à deriva... meu pé a um passo do novo, um lago onde eu quase nadei, um precipício onde eu quase mergulhei, quase, quase, quase... um espelho em que eu quase me vi.

Um dos guardas, somente um, entrelaçou seus dedos nos meus.


Por Suzana Guimarães.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

CARTA

(Fotografia gentilmente cedida por Thelma Ramalho)

Los Angeles, 5 de fevereiro de 2013.


Querida Lunna,

Fevereiro arde em febre e eu estou em pleno inverno. Você então me perguntaria: febre boa ou má? A febre da paixão ou a da dor, dos remédios, da farmácia? Nenhuma delas, Lunna, sinto febre do desterro. Desterrada está aquela velha mania de aguçar apetites. A poeta maior queria a fome, eu também já quis, agora eu quero a digestão da ilusão.

Lunna, como viver com os pés ligeiramente acima do chão se todo dia um dos pneus do carro fura? E todo dia você pensa em não se esquecer da agenda, e todo dia você esquece os mesmos números que nunca decora. O peixe no aquário morrerá de fome, e eu me questiono se passarei pendurando roupas no varal à 1 da manhã. Será para sempre? Antes, eu falava muito 'merda', agora, falo 'meleca', antes a palavra saía num xingo, a de hoje sai arrastando. A mais banal das minhas ações demora de quinze dias a um mês para ser finalizada.

O cavalo com viseira perde a beleza do caminho, mas trabalha melhor. Parece que se você colher rosas, o mundo paralizará. Será mesmo? Bom, isso é o ensinamento atual. É pra correr, Lunna, correr bastante. Dona Silvinha, toda tarde, sentada, vendo a mesma rua feia de 50 anos, na mesma cadeira, no mesmo lado da varanda é coisa obsoleta, isso não existe mais.

Só que outro dia, eu parei meu carro em frente a uma casa, desci dele, vi uma mulher aguando as plantas do jardim, depois, duas horas depois, voltei, e a vejo sentada olhando a rua, um pedaço de rua bem feia, calçada de cimento, espaço vazio de gente e carros e do outro lado um muro que nada diz. Lunna, minha inveja rasgou-me do peito aos pés...

Às vezes, eu abro um espaço, deixo alguém entrar, mas isso vem rareando, as bençãos de ouro se vão sem que eu possa controlar o fato. Houve um tempo em que tudo era magia da pouca idade, mas, nós, eu, pelo menos, preocupei-me com o controle do fluxo das coisas... e fiquei, à margem da vida, numa contagem absurda. Eu contava tudo: dinheiro, desejo, número de meias e amigos. E, agora, nada mais sei, perdi a contagem, perdi o absurdo... bons tempos aqueles, porque, hoje, não detenho mais nada, nem eu mesma, sequer meu paladar, meu gosto pela vida.


Cadê o gosto? Cadê o gozo, o ouro? Onde está a certeza de que estou caminhando na melhor avenida? Existiu essa certeza, ela existe? Acredito que sim, mesmo que ilusória. Hoje, tudo desgosto, amargo rosto que me olha pelo vão da janela, medroso da vida.



Por Suzana Guimarães

sábado, 2 de fevereiro de 2013

UM POEMA DEDICADO A J.

 
 
 
Banha-me nas águas brancas que moram ao redor de tuas duas ilhas, onde todo dia é verde claro e calmo. Onde nunca se faz escuridão e, quando você pisca, é só eclipse, mudança de Lua, mudança dos ventos do norte ou mesmo um cisco que brinca em teus olhos ávidos em contornar a pele lisa que você lava. Meu seio na concha da tua mão, teus dedos no contorno dos meus quadris. As águas me cobrem e descobrem, feito os lençóis que voam lá fora, secando nos varais, à espera de nós.
 
Desenha-me em teus olhos esta última e única vez, grava para sempre, memoriza o que reservei para ti, o que andou oculto, avesso ao mundo, desprezado e inútil, e que só você conhece agora na palma das tuas mãos. Larga-se de si mesmo e inspira-me em ti. Sinta que eu caibo na tua mão, desfaça o mal que me embaralhou...
 
Como devo lhe chamar?
 
Por Suzana Guimarães

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

BREVE HIATO

Te procurei. Fui aos escombros, era cedo para mim, tarde para você, era manhã. Amanhã, não mais te buscarei. Mas, ontem, eu fui. Havia muita fumaça, uma lista infindável de dor, meu peito se fechou... eu quis saber, e não foi por vil curiosidade, orgulho ou dor, foi pela antiga doação, tão cúmplice... sincera solidão a dois. Eu te procurei, iria lhe estender uma palma, bem alta, bem alva, bem morna, quase aguada, quase morta, quase nossa, quase viva, permanente, para deixar-te um pouco de mim.

Voltei para casa. Abri as janelas. Sorri. Acendi perfumadas velas, ajeitei as almofadas do sofá, pensei em ti.

Amanhã, leite morno com chocolate, uma vasculhada no armário, o carro na rua, e na rua e na vida, eu de novo.


Por Suzana Guimarães