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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



domingo, 28 de outubro de 2012

SOLIDÃO DE VOCÊ

(fotografia, por SCG)
 
(...) Virei aquele ser que se mimetiza ao sítio, mas não pertence a ele. Adapto-me à força. Não sou de lugar nenhum, sou sua, apenas isso. Só você para me salvar dos outros e de mim mesma. Eu vivo correndo, como foi o meu pai, e você o salvava e você o salva, da mesma forma eu preciso ser salva, diariamente.

Faço de tudo para não pensar em você, para ser do lugar, viver o momento, mas meus esforços são puro fracasso. Vejo-a nas vitrines, nas senhoras que passam do outro lado da calçada, nas minhas mãos, na xícara de cafezinho. Vejo você no tempo, no nada, na visão à frente, no espaço à minha frente, o chão, o céu, o vento, o caminho que estou indo caminhar, como se você fosse o rosto enorme do mundo a me olhar.

Eu lhe conto coisas, amarguras, alegrias. Eu rio com você, mas tudo é só solidão, sou apenas uma tonta que não sabe viver.

Tenho medo de lhe perder, mais do que já perdi, no dia em que o silêncio de oratório for a minha única verdade. Tenho medo de desprender-me da razão, do fio, da linha tênue que me separa da total insensatez.

Parece que fiquei feia, sem graça, tirada dos engonços. Os dias correm e eu corro junto com eles, trepidando, feito cristais numa prateleira que vagarosamente despenca.
 
Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VOLÚPIA

  
Houve um tempo em que ela não fechava os olhos nas madrugadas porque a novidade batia à porta e lhe fazia desejar, recordar, querer mais. Ou não. Às vezes, negar era melhor. Mas, ela não fechava os olhos. Hoje, ela, após derrubados todos os deuses mofentos, também não fechou os olhos. Não, foi ontem. Quando foi? Importa? Há quem impregna o outro sem o toque da aventura, apenas transmite.

Era noite pois tudo era escuro, escuros os olhos dele, escuro fundo de fundo de um poço, obscuros desejos, porém, leves... aroma leve, leve, aura envolvente. Impregnada, ela ficou e guardou. Carregou para casa o etéreo, inodoro, impalpável, invisível.

Quase errou a rua, quase perdeu o rumo, quase não voltou para casa. Ah, se ele a chamasse!

Mas ele não chama, ele olha, ele perfuma, ele deixa o odor no corpo dela, sem lhe tocar.

Ah, se ele a tocasse!

Mas ele não toca, ele não foge, ele não corre. Ele olha, permanece. Ele é um cheiro sem cheiro, ele é volúpia, ele se estende pelas ruas, calçadas, entra no carro com ela, atrás dela, ao lado dela, dentro dela. Ela mal respira, economiza ar para carregá-lo por mais um minuto, dois, horas, uma ou três; por madrugada adentro.

por Suzana Guimarães

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

QUE SEJA CALMA

( Imagem retirada da Internet)

Que seja calma a música que toca, em som baixo, para não despertar mais nada... que sejam silenciosos os passos, os sentidos e as batidas do coração. É preciso adormecer. Que as vozes não façam eco, não reverberem, apenas completem os espaços entre os vazios do silêncio, só o bastante necessário.
Que tudo se guarde, se acalme, seja raso, seja lento, seja nascituro, tudo ainda imbuído no ventre. Que o momento seja este: aquele em que o ponteiro parou. É preciso adormecer.


Por Suzana Guimarães
 
 
 
Nota: texto anteriormente publicado em 'O Medo de Suzana', em 19 de setembro de 2012.

E SE...

 
(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)
 
 
E se eu lhe dissesse que fiquei mais forte, mais bela e singela? E se eu lhe dissesse que os dias se tornaram rasteiros ou lentos, no compasso de nossos passos? Que meus passos espreitam os teus, que meus braços pedem os teus? E se eu lhe dissesse que toda a verdade solta à pele, que falo e de minha boca cai líquido desejo?... porque há em ti um vento frio que me acolhe e me chama e me diz que o sol que arde lá fora é momentâneo e só nós eternos, desde que, veja bem, desde que meu corpo esteja próximo ao teu e eu entendo que existe, sim, existem oásis de verdade, um deles és tu.

E se eu lhe dissesse que não somos dois, somos um?

por Suzana Guimarães



Nota: texto anteriormente publicado em 'O Medo de Suzana', em 29 de setembro de 2012.

EU QUERIA POUCO, COISA MÍNIMA





Eu queria escrever qualquer coisa, bem pouca, qualquer coisa que me aliviasse e, ao mesmo tempo, preenchesse. Algumas palavras certas, bem encaixadas, dispostas informalmente, com o intuito apenas de dizer para mim as verdades que procuro e não encontro - bem provável que eu mesma impeça esse processo! Eu queria dizer qualquer coisa para mim mesma, pois, em mim, eu confio. Eu queria uma visão clara, certeza que não vacilasse em dúvidas. Eu queria saber a razão de eu me sentir assim, nem cá, nem lá, em lugar algum. Que essas palavras me transportassem para um lugar sereno, habitado, cúmplice. Ou que alguém viesse e fizesse isso por mim. Penso que não seriam palavras escritas as melhores, tão pouco as pronunciadas, penso que o ideal seria alguma ação, um gesto ou dois, um convite para dividir uma sombrinha, não, melhor ainda, alguém que estendesse o braço e me puxasse para debaixo dela. Eu queria pouco, coisa mínima.




Por Suzana Guimarães
 
 
Nota: texto anteriormente publicado em 'O Medo de Suzana', em 5 de agosto de 2012.

sábado, 6 de outubro de 2012

MINHA ALMA SEMPRE BUSCOU A TUA

 
Fotografia de SCG
 
Você chegou manso, na mesma lentidão da névoa que cai. Diz palavras que só os olhos revelam e ninguém e nada mais pode traduzir melhor. Eu respiro em miúdo e em disparada pois cada passo teu em direção a mim, assim, tão determinado, bambeia as minhas pernas, desequilibra meu frágil muro de arrimo.

Duas ruas se encontram, uma estreita e florida, outra, larga, longa e seca. Não é a primeira vez que você vem entre névoa densa. Nem será a última. Rosas brancas caem em cachos, nas entradas das casas... da mesma forma, muito tempo atrás, quando os meninos corriam soltos pelos campos e viraram homens e se tornaram pais, tiveram bisnetos, morreram, serviram de adubo às flores...

Silêncio em nossos corações, no peito, saudade antiga que não se entende, pouquíssima visão. Grandes encontros prescindem de grandes ornamentações.

É manhã clara, manhã de festa. Flores renascem todos os dias, você nasceu para mim, eu vim cedo, na correria, na pressa de lhe rever, me fiz flor antes da hora, me perdi nos ventos que sopravam forte, mas eu lhe alcançaria, mesmo que dois séculos se passassem.

Então, vivamos enquanto ainda somos tenros, amanhã retornaremos à terra, seremos adubo, e, no sem fim da vida, caminharemos novamente, uma alma buscando a outra.

Por Suzana Guimarães