Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quarta-feira, 30 de junho de 2010

WALT WHITMAN


" Eu parto com o ar – sacudo minha neve branca ao sol que foge

Desfaço minha carne em redemoinhos de espuma,

Entrego-me ao pó para crescer nas ervas que amo;

Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus pés.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;

Não obstante serei para ti boa saúde

E filtrarei e comporei teu sangue.

E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;

O que não está numa parte esta noutra

Em algum lugar estarei a tua espera"



       walt whitman

quinta-feira, 24 de junho de 2010

AUSÊNCIA MINHA

Que eu ausente
ou eu ausento
Não ausentes tu!

Suzana C. Guimarães


Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.

CARTAS

                        Suzana C. Guimarães

Quando eu morrer,
Não me enviem
Cravos, flores
Rosas brancas.
Quando eu morrer,
Me enviem cartas.
Quero cartas
Em papéis de seda,
Papel rascunho,
Muitas folhas
Ou uma única.
Mas, prefiro as longas...
Me enviem cartas
De amor
Desabafo...
Irrefreadas candongas!
Que falem da última fornada de bolo
Sobre o filho que nasceu
O pai que morreu.
Me conte sobre as últimas músicas
Últimos livros, últimos poemas que sorveu
Me descreva a última viagem ou a primeira
Pois eu amo cartas.
Enviá-las ou recebê-las...
E tantas foram as cartas
Que li e reli,
Minhas ou alheias...
Rasgos de cartas,
Cartas quase que incendiadas
Cartas mofadas, esquecidas,
Renascidas em minhas leituras
Pelo simples amor
Que eu sempre dediquei a elas...
Sem maldade, sem culpa que me acuse.
O primeiro beijo,
Aquela noite inesquecível
Aquela madrugada insuportável.
Ou não conte nada,
Escreva um infinito de pontinhos
Entre palavras desconexas.
Me conte daquele abraço que pediu e
Do beijo que aproveitou para roubar!
Do sono que perdeu.
Me fale dos Réveillons em que preferiu dormir
Do Natal que não viu passar...
Choramingue o amor não correspondido
Que, para não se esquecer de quem já lhe esqueceu
Diz que comprou aquele disco
Que toca o dia todo feito vício.
Me escreva a mais simples verdade
Use melodia...
Ou as maiores mentiras.
Mas, cartas.
Não me envie rosas
Principalmente as brancas
Não as quero mais.
Morta, largo mão de tolas queixas,
Dos sonhos escorridos pelos vácuos
Morta, apenas cartas...
Iniciem com "Querida",
Terminem com sua ida.
Iniciem com meu nome
Ou aquele que você sonhou me chamar
Ou aquele que você me chamou em sonhos...
Morta,
Estarei sem mãos,
Rosas, não as poderei pegar.
Morta,
Abrirei os olhos tão eternamente fechados
Para minhas cartas alcançar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

É ASSIM

                           Suzana Guimarães


Pessoas por toda parte.
Gente que corre, que grita.
Gente perdida.
E eu também corro
E não grito
E me vejo só.
Perdida.
De meus amores,
De calor,
E comida.
É assim, sempre foi
A maneira cruel de se perder
Em tudo,
De todos,
Um só segundo.
É assim
Que se eterniza,
Um só segundo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

EMBRIAGUEZ

                                Suzana C. Guimarães                                        


Ensimesmada, me embriago.
Em tempestivas tragadas
Me aguo...
De letras do teclado.
Não desagarro,
Sou tragada!
De mim nada mais sei
Corpo sem cuidar,
Qualquer pano que me cubra
Sem colar
Sem cheiro
E me deito.
Vejo letra rubra
Machucada.
Me desajeito
Com as todas palavras.
Anestesiada...
Vejo teclas,
Vejo-as nuas, marcadas.
Minha casa cheira a aguardente
O mesmo com que me embriago
Daquela coisa quente!
Minha cama está desfeita.
Minha casa não se enfeita.
Bebo, bebo, a última letra guardo
Do lado esquerdo, à espreita.
Sonho embriagada
Daquelas palavras
Andam perguntando por mim, exalo meu peito
Que leio.

sábado, 19 de junho de 2010

INTENSAMENTE (COLAPSO ?) (DESABAFO ?)

                                   Suzana C. Guimarães

Estou cansada!

Cansei de viver intensamente
De cuidar intensamente
De decidir intensamente
De limpar intensamente
De falar intensamente
De procurar intensamente
De pedir intensamente
De tentar esquecer intensamente
De explicar intensamente
De me branquear intensamente
De me cuidar intensamente
De pensar intensamente


Eu quero!

Dormir intensamente
Escrever intensamente
Transar intensamente
Ler intensamente
Beijar intensamente
Silenciar intensamente
Balançar na rede intensamente
Comer intensamente (eu como tão pouco!)
Mergulhar no mar intensamente
Me bronzear intensamente
Relaxar intensamente
Me negar intensamente

quinta-feira, 17 de junho de 2010

MIM

(SCG - arquivo pessoal)

                         
        







                 Abri a porta
                 Entrei.
                 Abri a tela
                 Bebi,
                 Até cair
                 
                 Depois,
                 Deitei.
                 Abri os olhos
                 Sonhei
                                                                        
                 Voltei,
                 Abri a boca
                 Sorvi.
                 Abri o vinho
                 Servi

       
                                                                                                    
                                                    Suzana Guimarães

terça-feira, 15 de junho de 2010

as cartas que voam

                                      Suzana Guimarães

Graças a Deus, as cartas, hoje, voam. Na velocidade da luz!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MUITO POUCO

                                  Suzana C. Guimarães

Contentei-me com a gota,
Aquela para se beber.
Caiu em minha boca
Única e última.
Contentei-me com o vento
Que acabava de balançar
O cabelo da outra.
Puxei fundo dos pulmões
E cheirei o que aquele vento deixou.
Contentei-me com a sombra da árvore
Que vi tão alta e tão bela
Mas que se ia
Junto ao dia.
Abracei meu corpo
O que me restou
E com ele também me fartei
Quando por mim
Outro corpo quase me encostou.
Contentei-me com o aroma
Da fruta que pendeu no ar
E eu não pude sequer pegar.
Contentei-me com a beleza do azul do céu,
Que vi muito pouco antes,
Da chuva desabar.
Contentei-me em ver a voz
Caminhando longe em direção ao luar.
Contentei-me com o muito pouco
Do amor que não puderam me dar.

domingo, 13 de junho de 2010

TÃO PERTO

                             Suzana C. Guimarães

Eu queria ser
Mais minha enquanto sua,
Num tempo perdido entre dois passos.
Um seu, outro meu.

Eu queria ser
Mais minha enquanto sua,
No vento fino e seco que passeia entre nós.
Que nos faz mais sós.

Eu queria ser
Mais sua,
Menos minha.
Enquanto emparelho meus passos aos seus;
Estendo meus braços curtos aos seus
Tão longos,
Que me escapam.

Eu queria ser
Mais sua
Enquanto minha,
Quando asperjo ao vento
Minhas dores e perfumes,
Finjo não vê-lo
Tão perto
E negro
Tão certo.

sábado, 12 de junho de 2010

VERBO DO SEXO

                                     Suzana C. Guimarães


Olha e encosta,
Abraça e beija.
Alisa e mela.
Geme e estremece.
E puxa e aperta,
Murmura,
Delira.
Despe e lambe,
Acaricia e enlouquece e
Ufa!
Berra e beija.
Abafa e cheira.
Remexe.
Revira.
Pede e recebe.
Esmaga e esquenta.
Borbulha e enfumaça.
E enlaça e recomeça.
E...

domingo, 6 de junho de 2010

O AMOR

                         Suzana C.Guimarães


Quando é que as portas se abrem
E o amor chega
E nos pega, nos enleva
E nos derruba
Ao chão?
Quando é que acontece,
O momento exato,
O dia do olhar, o dia da certeza,
Quando é que ele chega?
E nos invade e domina.
Nos prende no quarto escondido e só da alma;
Lá onde ninguém passeia,
Onde os passarinhos cantam
E o verde fica mais verde
E vemos frutas maduras nos pés,
Árvores em volta?
Quando é que o amor toma conta
Sem que queiramos.
E queremos sim,
E nós nos afrontamos,
O amor e nós,
Numa luta perdida e insana.
Onde não se vê vencedores
Nem vencidos.
E o corpo dói de desejo.
Quando é que o amor chega
Assim sem avisar,
Sem esperar resposta,
Sem que permitamos?
Pois eu não queria amar nunca
Porque ele dá e tira vida
E me engana
E ludibria.
Faz sofrer e chorar sem dó.
Por gosto, o amor, de se sentir mais forte.
Ah! Eu não queria o amor.
Nem nos meus mais loucos devaneios.
Eu não queria ter que senti-lo
Tão agudo e certo
Como uma flecha
Num arco retesado.
Porque se morre ao amar.
Se perde pedaços de nós
Ao vento, sem dó.
Porque tira o sono
E a razão
Perturba o coração.
E não há quem ajude,
Quem console.

Quem nos salve.
Eu não queria o amor.
Queria viver sem deparar com ele,
Numa esquina qualquer,
Num dia qualquer,
Num tempo qualquer
Que se eterniza
Numa janela de flores,
Num caminho à beira-mar,
Numa visão sem par.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O TEMPO

                          Suzana C.Guimarães


Penso:
Era tão negra assim
A noite?
As sombras tão altas assim
Que eu só as pudesse ver
Ao longe?
Era assim o tempo tão lento
Que eu não pudesse
Vê-lo?
Tê-lo?
Eram maçãs que caíam
Ou eu que perdia o tempo
Da colheita
Ou era que o tempo é que se esvaía?
E eu ia
E vinha pelas antigas trilhas.
Ou era eu que não contava os dias
Não mais em franca zina
Num tempo que rugia,
Em que as sombras eram só minhas?
Penso,
Era então dia,
Eu é que não via.
As sombras,
Curtas...
Iguais ao tempo que zunia.