Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sexta-feira, 30 de julho de 2010

FUI COMPRAR BATOM


Arquivo pessoal de SCG


quinta-feira, 29 de julho de 2010

ESTÁ FERVIDO?

                                   Suzana C. Guimarães


Eu gosto de tudo que ferve.

Começou o gosto, na infância, eu tinha tara por sal-de-fruta, depois de quase morrer engasgada por duas vezes, parei. Eu enchia a mão, enfiava na boca e vibrava com aquele fervilhar todo.

Leite fervendo, eu mexo com uma colher para não parar ao derramar, doce de brigadeiro fervendo.

Água fervendo, principalmente quando ferveram esquecidas e só resta o susto no final.

Formigueiro fervendo porque eu cutuquei com uma varinha.

Um dia fervendo na Bahia...

Uma pessoa fervendo de raiva, me dá vontade de rir até cair.

Eu fervendo de ódio, é ótimo! Às vezes, acho graça do tamanho do exagero. Uma pessoa ferver de raiva lembra filme de Almodóvar, aquelas coisas descabidas que ele cria.

O ferver da água do mar quando a lava encosta, um ferver para trás.

O ferver de palavras que saem da minha boca.

O ferver de ódio de quem perdeu, é tão verídico!

O ferver do meu silêncio quando eu juro a mim mesma mais nada falar.

O ferver dos meus sonhos que me acordam estática na cama, atônita, endurecida pela informação.

O ferver dos meus anseios que não conseguem ultrapassar certas fronteiras.

O ferver que sinto quando penso em você e penso em lhe rasgar com as unhas, cortar fino, para ver se você sente um pouco mais do que parece sentir.

O ferver da água do carro, é triste, é problema, mas é lindo ver a água fervendo, pulando pra fora, chapiscando tudo em volta. E a gente fica parado, assistindo, sem poder fazer nada.

O ferver da língua da carola na igreja, das carpideiras que pranteiam os mortos, daquele povo batendo a cabeça no muro e lamentando, colocando a fé para ferver...

O ferver das palavras dentro de mim.

O ferver dos desejos mal compreendidos dentro de mim.

O ferver da minha longa espera...

Mas eu sinto saudades mesmo é de quando ferver para mim era apenas o sal-de-fruta espumando dentro da boca.

CINZA(S)

                     Suzana C.Guimarães


Franck... Franck...

Hoje, o meu texto é para você. Nada, nada a ver com o dia de ontem, tão florido que você me deu. Não tenho em mãos, nem em flores, um texto belo para lhe ofertar. Não estou brincando de "agora é a sua vez, eu já fiz". Aconteceu de ser hoje. Você falou nos "meus sinais" para você, mas você não sabe o quanto acredito em sinais. Sinais são avisos, vindos de pessoas, de coisas, do conjunto de coisas. E hoje, um grande conjunto de coisas veio para mim, veio avisar, mas eu, eu apenas vi, impotente para segurar a marcha dos soldados na noite escura. Há como detê-la? Não. Você apenas se afasta, arreda o corpo para um canto, delira freneticamente pela invisibilidade.

Vai, Franck, puxa a poltrona e senta. Eu não estou diante do mar, do seu mar, nem diante do meu. Eu não moro de frente para ele. Ele está ali, mas eu não o alcanço só com o esticar das mãos e da vontade.

Vai, Franck, puxa a poltrona. Você já se secou depois de toda aquela chuva de mais cedo? Se não, pega uma toalha ali na gaveta, porque eu me sinto tão infeliz que nem tenho forças para alcançá-la. O que me alcançou hoje foi um conjunto de palavras, lidas aqui, acolá, numa revista, num panfleto, num Blog de uma ou duas amigas, e, inclusive você que falou de lavar a alma - ficou sem saber se a tinha lavado ou não. E, então, eu pensei que, confiando a você o segredo da minha dor, você poderia me ajudar, ou simplesmente ouvir em silêncio, você que vê beleza nos traços que dou ao desenhar abraços e levezas. 

Pois eu lhe digo, eu não lavei a minha alma. Eu perdi parte dela. Você pode me ver, Franck? Não. Você não pode me ver. Onde está a minha poltrona? Olha lá, está vazia. Também está vazia a cadeira preta, de couro, onde me sento todos os dias. Você gostaria de saber onde escrevo? Você quer ver a minha mesa?Ela é aquela ali, retangular, preta, de vidro. É linda! Eu escrevo num jardim preto, e você pode ver flores, folhas, pássaros, ladybugs (desculpe-me, mas joaninha em Inglês é mais bonito), margaridas, tulipas e borboletas, tudo, tudo transparente. Tudo desenhado aleatoriamente nessa mesa cheia de papéis, canetas, dois dicionários - creio não preciso mencionar em quais línguas, algumas pastas que nunca mais arrumei tempo para arrumá-las, um telefone sem fio que se toca eu sei de onde vem - mudinho o dia todo..., uma mulherzinha muito gorda, de uma ceramista famosa de Belo Horizonte, pelada, sentada à minha direita. Ah! Eu preciso falar dela. As coxas são as maiores que você já viu na vida, e os braços também. Ela é da cor da terra. Viajou para cá com um anjo de asas douradas e uma madona carregando um bebê. Vieram juntos, enrolados naqueles sacos que a gente adora estourar, entre minhas roupas, dentro da mala. Mas a madona sofreu rachaduras na aura, durante o voo. Há também o meu laptop que é branco e um par de mãos de madeira clara que meu filho me deu de presente no dia das mães, mãos que servem para segurar cartas. Estão vazias. Eu escrevia sobre sinais, e, essas mãos chegaram assim que comecei a contar histórias ou contar contos contados, como você preferir.

Ah! Eu não falei do detalhe: escrevo para fora. Li em algum lugar, certa vez, que quando você escreve para dentro do ambiente em que está, você está escrevendo para você mesmo e depois guardará tudo na gaveta. E que, se você escreve para fora, para uma varanda, que é o meu caso, você está escrevendo para os outros lerem. Pois bem, escrevo para uma varanda que toda tarde fica ensolarada. As cortinas que às vezes fecho, às vezes abro, são duas: a mais grossa é cor de vinho seco e a mais fina, marfim. Eu gosto muito porque as claras voam, apenas o suficiente para não incomodar. Na varanda há plantas e além da varanda, as palmeiras do prédio que enfeitam de graça a minha casa. Eu me sento de frente para a varanda que fica de frente para o elevador do prédio. Elevador? Você deve estar se perguntando... Elevador numa terra onde o chão treme? Sim, Franck. Só há três andares, o máximo permitido, eu moro no andar do meio. Sinto-me, quando olho para o elevador - se eu esticar um pouco só o pescoço posso vê-lo -, sinto-me uma daquelas velhas que fuxicam a vida dos outros o dia todo nas janelas, ou sentadas nas cadeiras, na calçada (será que isso ainda existe, as cadeiras nas calçadas? Hum, isso me faz lembrar a minha avó paterna... deixa pra lá, outro dia conto). As cortinas marfins e as palmeiras me escondem um pouco, mas eu, na realidade, não entendo muita coisa, fala-se de tudo aqui, Inglês, Espanhol, Coreano (lembram-me gatos) e uma outras línguas que não faço ideia. E há um problema nessa terra desértica, além de terremotos, as pessoas gostam de usar numa mesma frase, um pouquinho de cada língua. Franck, Franck, você não imagina o que é uma Torre de Babel.

Bom, mas falando em Torre de Babel, acabei por me lembrar do quanto me sinto desgarrada, um pedaço da minha alma, encardida ou não, se desprendeu. Tudo começou por conta de uma das borboletas da minha mesa. Uma delas decidiu conhecer o Brasil. E falando em Brasil, eu me lembro de que lá, para mim, pelo menos para mim, com certeza, tudo era uma grande Torre de Babel, apesar de eu tentar nunca errar no Português. Se você me perguntar qual das Torres prefiro, direi que a daqui. Pelo menos, aqui, a gente dá um sorrisinho e diz, "no English". O pequeno sorriso e essas duas palavrinhas vale feito diamante. Um dia, se eu ajudar, vou falar Inglês e Espanhol fluentes, mas sempre terei, numa daquelas bolsas enormes que carrego, esse meu tesouro, guardado para os momentos mais convenientes.

Aceita um chá, Franck? A semana toda nublou, mar cinza, céu cinza, sinal cinza e eu nem percebi. Hoje, está fazendo calor. Eu não tomo chá, não gosto, mas em cima da mesa, ali no canto, penso que há um. Chá, eu tomo, se for de erva-cidreira, mas nem sei se isso existe por aqui.

Pois bem, a borboleta da minha mesa decidiu voar, não viu os sinais, e se foi. Mais tarde, ela os viu,  mas já era mais tarde. A infeliz bateu as asinhas lá, Franck, e eu, aqui, morri. Morri. Por isso você não me vê. Agora, sou apenas presença, feito a presença da Cecilia. Sou pedaço de alma, perdi o viço, meus braços se quebraram numa tentativa de abarcar a vida, ontem, quando tudo aconteceu, eu pensava em abraços. A infeliz bateu as asinhas lá e aconteceu o terremoto aqui, sempre tão aguardado, aquele que não só treme de leve fazendo lembrar labirintite ou assalto, aconteceu o fatal, aquele que vem e mata. Caiu tudo, Franck. O fogo surgiu queimando, ardendo. Lambidas de uma quentura insuportável no corpo que corria atrás da alma. Pelo menos, era fogo, não era água. Pois não há poder que pare a água, nada, nada a detém. Contudo, a água pode apagar o fogo, ou então só o tempo. Talvez, mais do que possamos ver tenha sobrado. As vigas não eram de boa sustentação, parte da casa, a maior parte dela, se desfez. Nem precisa pensar em crematório, eu não quero mais virar cinza. Hoje, eu sou cinza.

Senta, Franck. Pelo menos a minha cabeça não dói tanto quanto durante o tremor. A mulherzinha da minha mesa, a pelada, está lá, intacta, leva para você. É ela a minha musa inspiradora, ela saberá lhe indicar os melhores caminhos. Ou, se quiser, fica com o anjo das asas douradas, ele também resistiu. Procura mais tarde, a ceramista famosa de Belo Horizonte, as peças dela são muito resistentes.

Espera, Franck! Eu ainda estou aqui. Sinta o cheiro de mirra, muitos me aguardam, mas eu ainda ficarei por aqui, tenho coisas para resolver. Não tenha medo. Não se inquiete. Já não posso mais nada, nem bem, nem mal fazer. Leva para a minha mãe o que restou da madona com a criança no colo. A aura já não existe mais, mas a minha mãe sabe fazer perfeitos remendos, ela fez isso a vida toda, remendou, colou, pespontou, alinhavou. Ela me amou. Entrega meu presente para ela, assim ela poderá acender a vela. Assim, eu poderei resgatar o meu pedaço que se perdeu. Mas, é preciso a madona, é preciso a vela. Só assim a minha mãe me verá inteira.

Sente-se, Franck. Ainda há música.

Para conhecer o Franck, clica aqui: http://francksantos.blogspot.com/

terça-feira, 27 de julho de 2010

P.S.:


Eu não queria escrever sobre perdas humanas nem perdas materiais, eu não queria escrever sobre guerra. Eu não queria descrever crueldades, não queria tentar destrinchar certas dores insuportáveis às quais os pesadelos nos levam a ter. Eu também não queria desfigurar máscaras, não queria vasculhar o sexo e suas entrelinhas. Ontem, não. Ontem, não. Quando escrevi sobre abraço, eu queria falar de coisas ternas - mesmo que às vezes tristes -, queria absorver um pouco da leveza que sinto em mim e por fora, através. Eu tentei apenas pintar um quadro, uma aquarela, fazer uma blusa de tricô, moldar uma argila, tão inconsistente, tão insuportavelmente maleável, eu queria fazer uma jarra com ela. Cheguei a comprar flores para colocar nessa jarra e nela eu derramei muitas águas que rolaram pelo meu rosto ao longo da vida. Eu queria muito pouco? Eu queria muito. Eu quis escrever sobre coisa impalpável e as minhas mãos são palpáveis. O teclado do meu computador é palpável. Abraços são muito mais que carnes se encontrando. Vivo a milhares de quilômetros de distância da minha mãe e eu a abraço todos os dias. Eu abraço meus mortos que não me deixaram. Eu abraço Deus. Eu posso fazer isso. Se você não pode, eu compreendo. Mas eu posso. Eu tentei descrever um abraço, mais fácil seria falar de beijo na boca, com língua. Seria extremamente mais fácil. Mas eu, com a minha mania de grandeza, tentei alcançar as estrelas, pegá-las, esfregá-las para que saísse mais brilho de lá. Sou assim, forçosamente uma pessoa resistente e obstinada.

                                Suzana Guimarães

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SOBRE ABRAÇO

                                     Suzana C.Guimarães


O melhor abraço é o que abarca.
É o do dia do embarque.
É o que embala mesmo estando eu tão cansada,
Mas eu posso me abarcar em você e você em mim.
Um abraço abarca o outro abraço
Sem nunca se saber a que vieram.
O melhor abraço você pede, roubado, de nada vale, é duro, dói os ossos, as juntas, o pescoço parece trincar (ainda mais para mim que sou pequena).
O melhor abraço, ou você dá ou nega. Não dá para fingir. Não dá para encostar de leve, não há espaço para pensar no cheiro - pensa-se depois.
Rápido ou longamente demorado, parado, fincado no ato será sempre abraço.
O melhor abraço é o que transfere a cor da alma , você abarca, abre os braços, acolhe.
Não lamento os abraços que não dei.
Lamento todos que deixarei de ofertar.
O último abraço eu não sei se darei,
Talvez eu vá, enquanto adormecido meu corpo, alcançá-lo, mas sobrará apenas um gosto oco na boca quando eu acordar e me vir fora daquela barca.
Da barca que eu fui embalada, abraçada...
Lamento todos que deixarei de dar
Porque há nós que não desatam e meus braços permanecerão atados em cegos laços
De nós que nos perdemos faz tempo.
Lamento os abraços que não dei, mas apenas ofereci, não dei naquele momento tenso, lágrimas caindo,
fiquei apenas olhando pensando estar consolando, dando.
Mas lá estavam meus braços caídos, flácidos, tão frouxos...
Eu sei muito pouco de abraços.
Fala-se muito, faz-se pouco.
Lamento o abraço que me recusei por medo
De me entregar, de encostar, de confessar implorar
Preferi carregar nos braços o orgulho.
Conheci o abraço da perda,
Era o último, eu nem sabia, e eu o dei a você, num momento único da minha vida, quando abri os braços e tentei alçá-lo,
Mas você mirava a porta de saída.
O melhor abraço é do tamanho do ramalhete que você pode dar.
Não dê buquês que não possa carregar, você poderá me machucar.
Não dê uma flor se você pode dar um jardim, vai sobrar espaço.
Não dê rosas murchas, espinhos que ferem
Não dê cactos!
Abarca com lírios, angélicas,
Nunca pedras!

domingo, 25 de julho de 2010

DO TAMANHO DA MINHA LEVEZA


(SCG - arquivo pessoal)

             Suzana C.Guimarães

Estou do tamanho da minha leveza. Ou seria o peso da minha leveza? Mas é leveza, não é peso. Então é tamanho, dimensão. Densidade? O dicionário fala que leveza é "qualidade de leve". E, leve é "de pouco peso ou pouca densidade; pouco espesso ou denso" e outras coisas mais, mas dicionário, eu amo, desde a adolescência, mas nós sabemos, ele é apenas o pai dos burros. Às vezes, ele não ajuda.

Quando eu analisava as letras dos amigos, eles odiavam quando eu pegava meus livros para me ajudar. Eles queriam a análise solta, leve... E agora me vejo assim, querendo dizer o tamanho da minha leveza, explicar o som que vem de dentro da onda...

Hoje, pela manhã, passei perfume, eau, a palavra parece mais fluida, leve, e eu era o jato dele que ficou no banheiro e além de mim, não sei no que mais tocou.

Hoje, pela manhã, ao sair do carro, meu vestido ventou e eu ventei junto. Quase me dexei levar na roda da saia que se abriu e eu por instinto apenas bati a mão, mas eu nem via. Gosto de vestidos e saias quase longos, quase mantos, quase panos... só para sentir o prazer do ruflar... Aquele ruflo parece o perfume que me envolve.

Hoje, ao passar pela orla marítima, poeira fina entrou em meus olhos, tão levemente, só o suficiente para eu arder e molhar um pouco os olhos e pensar em ventos distantes.

Mal piso o solo, mal paro no colo.

Tenho a leveza da moedinha que aquele mal-encarado, daquela esquina onde passo, que me olha e a joga pro alto e a vê caindo... sou a caída dela. Sou o olhar que ele tem medo de me dar.

Sou o primeiro passo da menina que vai ser bailarina. Sou o primeiro passinho, o erguer dos pezinhos, o bailar pro alto dos bracinhos. Sou a leveza deles, neve dourada.

Ontem, eu aspirei o pó da casa, foi tudo para o vácuo, vacuum (a Língua Inglesa me surpreendendo, me seduzindo com a paciência dos amantes profissionais), mas agarrados ficaram fios de ouro, tão finos, tão finos, que só se pode ver quando amontoados. Era eu! E eles, eu, voam pela casa, quase que despercebidos.

Anteontem, um homem com longas costeletas brancas passou por mim em meu vestido agarrado ao corpo que suava neste deserto impiedoso. Ele soltou uma longa baforada pro lado, seu fumo cheirava bom, pensei em chocolate derretido e as fumaças soltaram o algodão do meu corpo. Eu, a fumaça de chocolate, eu, o desprender do vestido do corpo suado.

Ontem, eu cozinhei macarrão. Ao lavar a massa, eu escorri, eu era o fio que escapou e se foi com a água, tão lépido!

Ando por aí, ando por aqui, ando pela casa, pela praia, pelas ruas e mal sinto o espaço que vou ocupando na medida do meu passo. Pareço nada ocupar, pareço a leveza da menina loira que pula no colo da mãe, num salto, eu sou tudo aquilo que circula o pulo. Mais leve que a unha do passarinho pendurado no fio ou do esquilo que me fita do fio pensando ser eu uma aparição.

Voo leve do meu chapéu, tão grande chapéu sem peso, que escapou de mim, na calçada da praia, eu sou o momento exato bem pouco antes do voo e da leveza das mãos do homem que roubou uma foto. Sou a lente da máquina que alongou-se e tão breve me captou na perda.

Sou o pisar leve das gueixas. Sou o beijo que se joga daquelas janelas pequenas, logo após o adeus.

Recosto-me em maciez, inspiro e expiro a mim mesma, não acreditando que meus ossos, minha carne, toda a minha pele, todo o peso dos meus pensamentos, toda a carga das minhas sensações, todo o meu passado e meu presente que estou a desembrulhar possam ter virado nota musical, uma só, que eu ouço desde criança, desde a casa da minha avó e vem aqui me encantar.

terça-feira, 13 de julho de 2010

BILHETE NA PORTA DA GELADEIRA

Querido(a),

Vou me ausentar.
Volto na minha primavera!

Beijos,
Lily


Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.

domingo, 11 de julho de 2010

NA CASA DA ESQUINA

                                  Suzana Guimarães

Na casa da esquina, duas árvores, uma em cada quina, um dia a doença chegou.
Poderosa, reinou absoluta por mil dias, ou mais... eu não sei.
Entrei na casa da esquina só pra ver as cores antigas das paredes...
Não vi o mal, não vi as lágrimas, não vi dor.
Cheguei numa tarde abafada para falar de futuro
Dei de cara com o passado fechado em luto.
Sem saber, pedi licença e entrei
Porque cheirava estranho
Porque as paredes - tão excessivas em cores - ora se abriam, ora apertavam.
Ar pesado.
Meus passos pesados,
Passos leves se aproximaram...

Na casa da esquina, duas árvores, uma em cada quina, um dia a morte chegou.
Eu nada vi, mas sei que bichinhos que comem na surdina, escondidos da luz
em absoluto silêncio, comiam, bem devagarinho, comiam, comiam...
Todos sabiam e não mais podiam fazer,
Apenas se afastaram um pouco e fizeram lentos os movimentos.
Trenzinhos a se arrastar... naquele deserto empoeirado,
onde o pó chegou para levar o corpo.
E, ele, dolorido, se foi, mas os passos leves não acompanharam.

Na casa da esquina, duas árvores, uma em cada quina, um dia a vida parou e isso já faz mil dias.
A árvore do viço faz sombra para outros bichinhos que correm na surdina,
de cara pra luz em frenesi, e que nem sei se comem...
Mexem-se, remexem-se
e plantas retorcidas, arbustos distorcidos, folhas resistentes lutam.
A árvore do triste, da outra quina, faz noite eterna sufocada para os vivos que ficaram.
Eles pouco comem, pouco se vestem, pouco se despem.
Eu muito vi, mas eu não queria... eu não queria...
Os passos leves muito próximos,
Olhos nas paredes coloridas,
A boneca na cadeira, sorrindo para mim, falou de desamparo.

Na casa da esquina, não se pode mais respirar, lá é tempo de passos curtos, bem curtinhos,
mãos que nada tocam, ar que não ventila, flores secas no pó que cresce.
Passos leves está lá, esquecida.
[na ânsia de esquecer, esqueceram-se de esquecê-la]
Eu vi, quando saí.
Espreitava-me pelo vidro da janela,
da casa da esquina.
Sonhando em alcançar a saída.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ODEIO FLOR QUE NÃO SE CHEIRA

                                                 
"Flor perfume leve... tempestade devassa destruição..."
                                (Rafa Feck)

Ao criar o Blog, dois meses atrás, me deparei com o espaço em branco para eu responder "quem sou eu". Nem tentei preenchê-lo, pois sempre penso em tudo diante dessa situação e o tudo não resolve.

Uma malagueta me irritou na terça-feira, logo pela manhã, e hoje, sem que eu ainda me lembrasse dela, retornou. Me irritou novamente.

Lembrei-me então da auto-definição do Rafael Feck e entendi a razão de eu ter lido a frase mil vezes, na época. Eu lia a minha própria definição, mas não sabia. Você com certeza concordará comigo, definir a si mesmo, dizer quem tu és, não é tarefa fácil.

Sim, eu sou flor, perfume leve... sei que é preciso que você, se quiser se aproximar, tenha a árdua tarefa - ou prazerosa, isso fica a critério de cada um - de encontrar o caminho do jardim. Se, se alcançá-lo, tu me sentirás. Mesmo que com pétalas secas ou rígidas ou desfalecidas, mesmo que com pouco cheiro, nunca doce, mas leveza que lhe passa ao respirar, sou flor. Sou flor que você pode cheirar, pois não suporto aquelas flores de plástico ou fedidas, já podres, ou simplesmente miragem floral, que não podem ser cheiradas, porque feito o príncipe que vira sapo, elas viram um vespeiro que você não pode sequer tocar. Se você me encontrar flor, tocará flor, sentirá flor, cheirará flor. Mas,

se você me encontrar vento forte, tempestade, o mundo sacolejando debaixo dos seus pés, não pense em jardins, jardineiros e tratamento do solo, afaste-se, corra se possível, porque, se tu me tocares, com certeza, encontrarás apenas devassa destruição.

Só o tempo, só Deus, só a voz da minha mãe, só os olhos dos meus filhos poderão conter a ira dos ventos. Nem eu mesma poderei. E, na minha devassa destruidora ventania não sei de flores, não sei de aromas. Mas sou o que tu vês, não sou a flor que você não poderia ter cheirado.
                                                                    por Suzana C. Guimarães


Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

ESTOU INDO PRA LÁ

                                 Suzana C. Guimarães


Estou indo pra lá

Você quer alguma coisa?

(Por que o corpo sempre estremece?)

Quero sim.

Quero que você me traga de lá e me leve daqui.

Não quero farinha, nada de preço

Muito menos rapadura.

Traga-me daquela praça

Traga-me daquelas ruas de vida dura

O que mando não tem peso

Você leva minha pele

Uma raspa

Um pouco do meu cheiro

E o som do meu riso.

Entrega nos prados, naquela rua sem preço

Onde ela estará

Não estou cá, nem lá

Estou nela,

Estou na vela

Acesa eu

Acesa ela

Eternas.



Espera!

Eu ainda não sei.

Está na ponta da língua

Espera, não consigo pensar...

O que é que eu quero de lá?

terça-feira, 6 de julho de 2010

GUARDA-ME


By Xi Pan
                



 Guarda-me!

 Guarda-me naquele livro que gostaste

 Entre flores debulhadas

 Guarda-me!

 Em segredo, não faças alarde

 Não me agradam os pápeis barulhentos

 Guarda-me,

 Nos segundos que antecedem farol verde,

 No bater da uma hora quando tudo já é noite mudez,

 Na lágrima que deixas cair à toa,

 Antes que possas prender.

 Guarda-me no intervalo mínimo dos afazeres

 Guarda-me naquele cheiro que nunca sabes que te lembra

 Guarda-me!

 Naquela tarde inútil,

 Em que paras para beber um café

 olhas vazio à tua frente.

 Guarda-me na cadeira vazia à frente.

 Guarda-me sem alarde,

 Não suporto alvoroço.

 Guarda-me no teu olhar,

 Naquele almoço de negócios,

 Quando olhas para fora das janelas

 buscas qualquer coisa longe...

 Guarda-me naquele sonho no qual imploras que não despertes

 Guarda-me feito última pétala do bem-me-quer

 Guarda-me quando vês avião decolar

 Guarda-me dentro daquele barulho

 Que avisa

 Que machuca

 Que diz, tão cedo!

 Guarda-me em qualquer um,

 Quando última vez olhares.

 Guarda-me naquela lembrança antiga

 Guarda-me dentro do riso que escapa quando dela te lembras.

 Guarda-me!

 Não quero ser tatuagem.

 Não quero ser bagagem.

 Não quero ser imagem.

 Guarda-me,

 Não sou miragem,

 Sou memória! 



Por Suzana Guimarães.


Revisão: Antonio Cláudio Zamagna.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

LILY INVADE

                                               Suzana Guimarães

Lily nasceu na primeira semana de maio de 2010. A gestação durou um mês. O parto, apenas alguns minutos, o tempo que se gasta para escolher um nome. Adotei Lily com amor, como se fosse a minha quinta cria. Eu, Suzana, queria muito contar uma história. Para ser sincera, eu sempre gostei de contar histórias, algo que herdei do meu pai. Foi quando Lily surgiu. A mim caberia a história real, a ela, as outras, fantasiosas. Pensei que Lily iria contar apenas contos, pequenas histórias que ouviu contar e que guardou na memória, mas a menina foi mais longe. No início, estava receiosa, perguntou para mim o que deveria postar em seu caderno virtual e eu lhe respondi: conta aquela história daquela morte, daquele velório que era para ser um e virou dois. Dá-lhe o nome de "O Enterro."

Mas o tempo foi passando e Lily, esperando a mãe, no caso, eu, claro, liberar contos guardados, amarrados debaixo do colchão, decidiu escrever o que bem lhe agradasse. Enquanto escrevia, Lily visitava os vizinhos. Um dia, ela me disse para fazer o mesmo, largar tanta obrigação, tanta lista a cumprir e mudar de direção, ir para lugar nenhum. Ela disse para eu me largar de mim mesma, dar o tempo que nunca mais havia dado, desde que havia deixado de ser menina. Sempre achei a Lily mais razoável, mais equilibrada, mais mansa que eu e decidi, então, acompanhá-la...

Eu mudei, ponto. Não há muito a dizer. Tenho a certeza absoluta e irrefutável de que mudei. Tenho vida suficiente para saber disso. Eu mudei no dia em que primeiro abri a janela da minha casa, delicada casa, no endereço Rua do Blog, número oito. Depois, aos poucos, quase voando, fui abrindo as portas, os basculantes. Larguei o portão da varanda de entrada sem trancas. Arranquei a portinha de madeira pro bicho passar (ela lhe batia às costas). Revirei essa minha casa em sofreguidão, os calçados ficaram onde foram deixados no instante da entrada, ou soltos, sem pares, espalhados por toda a casa. Abri baús, gavetas emperradas, mexi em todos os armários, experimentei todas as bebidas, comi comida crua só pra saber o sabor, aspergi perfumes sem querer me perfumar, apenas pelo prazer de sentir aquele ar sufocante a ponto de engasgar. Eu mudei, tenho certeza! Cada vizinho visitante que espiava pela janela, ou se sentava no sofá, ou abria a geladeira, ou bebia no meu copo para tentar me desvendar, ou simplesmente entrava e saía todos os dias da minha casa delicada casa, silenciosamente, feito gato de tão leve, foi peça fundamental nessa mudança. Os ares passaram pelas frestas, pelos buracos das fechaduras e se instalaram em minha medula óssea, no meu núcleo celular. Eu não sei mais andar, eu flutuo. Eu não sei mais me locomover, eu vou através.

Sim, eu mudei, e foi através, pois quando ao abrir a minha casa, invadi outras. Não, invadir é muito. A minha mãe me educou e disse que gentilezas e bons modos não ocupam lugar - quase num mesmo tempo em que o meu pai dizia que o saber, o conhecer não ocupa espaço. Através da minha então educada visita às outras casas, especialmente àquelas de cor semelhante à minha, eu deixei para trás vestes velhas puídas pestes. Entrei em casas inesquecíveis feito poema inesquecível, livro eterno, cartas seladas ou não, empilhadas em mesinhas, por sobre louça branca, para eu poder saborear. Casas singelas, amáveis, tão doces, feito aquela de guloseimas, mas também feita de morangos, suculentos morangos. Vi decoração nova, vi discos nas prateleiras, vi despedidas de amor voando aos céus. Vi jarros de suco de maracujá, vi o dono bebendo a música de uma cantora enquanto ele fitava o mar. Vi casas de sedas cheirando a perfumes não muito caros. Vi tanta chuva que escorria que parecia inundação de um amor perdido tentando se agarrar. Vi casas com sorridentes cachorrinhos nas portas, vi outras que se abriam apenas à noite. E o dono de uma delas, apaixonado, esculpindo letras para formar palavras para um amor sonhado, embalado. Vi casas de sorrisos fáceis, palavras fáceis, vi também alguma doença lá instalada, mas deitada ao lado da tia valentia. Entrei em muitas delas, em outras, parei na porta, só espiei. Numa casa, me mandaram abrir gavetas, portas, janelas, e me convidaram a deitar no sofá, pôr os pés sobre a mesinha de centro. Perguntaram-me se eu queria beber alguma coisa e acabei por me embriagar. Vi casa ausente sem aviso de volto já, mas com porta entreaberta. Numa ou noutra, cheguei a cochilar, não de tédio, mas de prazer de ver minha alma se esticar. Entrei em algumas casas para ler bilhetes escritos nas paredes, mas também para me deliciar com música tocada feito pano de fundo. Fui tão longe... ouvi falar de respirar, o dono mandava respirá-lo e eu bem que tentei, treinei bastante e saí de lá respirando, respirando-o. Numa das primeiras casas que visitei, a dona tinha nome tão singelo e foto de moça de um filme apaixonante. Numa casa voltei ao passado, cheguei em terras nascidas, antigas. Senti saudade do cheiro de toda a minha existência. Às vezes, vou lá, só para respirar a minha própria história, sentada num quarto sépia. E paro os olhos na maquininha de escrever, igualzinha àquela que meu pai me ofertou do seu tempo de trabalho, de um passado brilhante. E alguma coisa, que eu não sei bem o que é, lembra a minha mãe. Em muitas casas, às vezes choro, às vezes rio, às vezes choro e rio e até sinto comichão. Em todas, eu penso em Deus.

Eu mudei e ponto. Renasci. Sou Lily.



Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.



sexta-feira, 2 de julho de 2010

CROCHÊ

                           Suzana C. Guimarães


Fico aqui tentando soltar os pontos do meu crochê.
Foram pontos que dei sem ver,
Pensando em você
Numa tarde qualquer, do dia que se quer.
Dei os nós
Apertados de você.
Fiz vodu em crochê.
Peguei linha, cor e você.
Agora tento soltar os pontos do meu crochê.
Mas não posso,
Não despacho você.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

RIO DE VOZES

                                   Suzana C. Guimarães


Em mim,
Um rio de vozes
A passar...
Em mim,
Procissão de passantes
Com seus vozeios e lembranças,
A passar...
Quero que partam.
Que não voltem
Jamais!
Vozes conhecidas,
Insistentes.
Trépidas.
Ventanas da minha alma
Que as deixam chegar.