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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

SOBRE ABRAÇO

                                     Suzana C.Guimarães


O melhor abraço é o que abarca.
É o do dia do embarque.
É o que embala mesmo estando eu tão cansada,
Mas eu posso me abarcar em você e você em mim.
Um abraço abarca o outro abraço
Sem nunca se saber a que vieram.
O melhor abraço você pede, roubado, de nada vale, é duro, dói os ossos, as juntas, o pescoço parece trincar (ainda mais para mim que sou pequena).
O melhor abraço, ou você dá ou nega. Não dá para fingir. Não dá para encostar de leve, não há espaço para pensar no cheiro - pensa-se depois.
Rápido ou longamente demorado, parado, fincado no ato será sempre abraço.
O melhor abraço é o que transfere a cor da alma , você abarca, abre os braços, acolhe.
Não lamento os abraços que não dei.
Lamento todos que deixarei de ofertar.
O último abraço eu não sei se darei,
Talvez eu vá, enquanto adormecido meu corpo, alcançá-lo, mas sobrará apenas um gosto oco na boca quando eu acordar e me vir fora daquela barca.
Da barca que eu fui embalada, abraçada...
Lamento todos que deixarei de dar
Porque há nós que não desatam e meus braços permanecerão atados em cegos laços
De nós que nos perdemos faz tempo.
Lamento os abraços que não dei, mas apenas ofereci, não dei naquele momento tenso, lágrimas caindo,
fiquei apenas olhando pensando estar consolando, dando.
Mas lá estavam meus braços caídos, flácidos, tão frouxos...
Eu sei muito pouco de abraços.
Fala-se muito, faz-se pouco.
Lamento o abraço que me recusei por medo
De me entregar, de encostar, de confessar implorar
Preferi carregar nos braços o orgulho.
Conheci o abraço da perda,
Era o último, eu nem sabia, e eu o dei a você, num momento único da minha vida, quando abri os braços e tentei alçá-lo,
Mas você mirava a porta de saída.
O melhor abraço é do tamanho do ramalhete que você pode dar.
Não dê buquês que não possa carregar, você poderá me machucar.
Não dê uma flor se você pode dar um jardim, vai sobrar espaço.
Não dê rosas murchas, espinhos que ferem
Não dê cactos!
Abarca com lírios, angélicas,
Nunca pedras!