Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quarta-feira, 27 de junho de 2012

A RAZÃO DA ESCRITA

(Suzana Guimarães por LRMeneghini)


Escrevemos porque temos que preencher. Se estivesse tudo muito bem, estaríamos absolutamente ocupados.

(Suzana Guimarães)

sábado, 23 de junho de 2012

A NOITE E EU


(Imagem sem autoria conhecida, retirada da Net - na delicadeza de Dulcie Brito)


Hoje, eu quis tocar a noite
por breves segundos
ninguém viu, ninguém soube
Só você que me lê, agora.

Eu quis tocar a noite,
falar para ela tudo o que eu poderia
Em total mudez,
em total nudez.
Ser dela...

Ser o campo para o seu orvalho,
ser por ela, possuída...
vagarosamente, mas de forma eterna.

Antes que o amanhecer viesse e me levasse
Com suas regras preestabelecidas, com sua cara dura, quase sempre mal amanhecida.

Envaidecida, me deitaria em forma de flor que desabrocha, 
Que nunca desabrochou.
Ela não sabe, a noite, mas eu sempre fui dela.


Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Demorar a saber é demérito dos que amam

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)


Ele guarda um segredo. Eu sei, porque, quando olho para ele, lembro-me do cofre escondido. Era um cofre antigo, na casa do meu avô, portanto, posso saber o que é um segredo eterno à luz do dia.

Pelas manhãs ou na hora do pôr do Sol, ele vai para a praia. Pouco sei dele. Ele pinta quadros, desenha mulheres, gente, instantes humanos. Ao lado dele, as perguntas que ele guarda, para me desorientar.

O mundo dele é em Inglês. O país dele, eu invadi. A cidade, mais ainda, adotei como destino escrito n`alguma estrela. Pouco sabemos de nós, somente o que permito que saiba e eu o deixo confuso, e as línguas atrapalham. E ele a mim também desconserta quando faz perguntas ou me olha com olhar desviado. Naqueles olhos já mergulhei e me encontrei, e eu me pergunto se ele se perde ou se encontra nos meus. Tenho mania de confundir, mas não é por querer, é por hábito da defesa. Ele desenha um rosto vagamente conhecido por mim, mas eu não sei quem é. Ele não se revela, só quando faço fotos dele, na beira da praia, colorindo telas. Eu penso em me revelar, mas algo em seus gestos me diz que ele me vê por entre véus. Ele me vê por uma fresta da razão, porque, o todo ele reconhece em linguagem de alma, mas ele ainda não sabe. Demorar a saber é demérito dos que amam. Há quem gaste décadas.

Acostumei-me à coisas trancadas. Na casa do meu avô, eu me sentava em frente ao cofre e chupava laranjas, mastigava chicletes, fazia enormes bolas, coçava os pés, descascava o esmalte. Cantarolava músicas que eu jamais sabia além de uma ou duas estrofes, misturava as letras, prazerosamente. Da mesma forma, gosto de estar em frente a ele, mas dispenso qualquer fazer... ele soletra meu nome repetidamente, feito ladainha, e isso me embala, mas não me basta.
 
Do cofre que o habita, eu já sabia, desde sempre, desde o primeiro olhar trocado.  Ele mergulha em ondas para dentro de si mesmo e, antes que ele alcance a praia, ele mergulha em outra...

Se meu avô revelasse o segredo, perderia a graça. O mistério por fim aniquilado...

Eu queria que ele lançasse ao mar nosso maior segredo, e me desse a mão, me convidasse para caminhar. Só isso, me convidasse para caminhar.


Por Suzana Guimarães 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

EU SOU ABSTINÊNCIA DE VOCÊ

(by Anita Kreituse)

Morro de sede em frente à fonte, morro de fome em frente ao pote. Ando sedenta da água dos teus poros, que me lavavam e me serenavam, caíam em brisas, varriam os desgostos... da tua pele que eu via de olhos vendados e também nos dias das cegueiras, quando o mundo parecia descolorido. Ando sedenta, morrendo em secura, a derme trinca, racha, machuca os olhos do coração. Ando sedenta da gota que eu ganhava, do mar onde eu nadava... Tudo é desconsolo e aridez. Às vezes, bate um respingo e eu lambo com os olhos, o pouco que seja, mas isso me mata. É pouco, eu já tive muito.

Meus olhos não se fecham, teimam em ficar abertos, arregalados, à espera, como se um piscar pudesse me arrancar de vez de você. Finjo estar viva, mas estou quase morta. A fome é um vazio no peito, insaciável. A fome diz de você, e eu me acabrunho e me escondo. Eu não sabia que poderia morrer assim, de forma escondida para ninguém ver. Doem meus ossos, minha cabeça gira, perco-me na fome constante e é essa constância que mata, pois eu já tentei matar você para me salvar. Eu não o amo com o amor dos romances, eu não o desejo com o ardor dos amantes, eu sou abstinência de você.

Há um veneno subindo e descendo pela garganta, meus pés andam feito chumbo em chão de algodão, não sei se o que passa longe está perto, tento lhe roubar com os olhos, mas você se fechou em corpo aberto, de tão poderoso que é, cortou a linha tênue que nos unia.

Sou hoje abstinência de você, eu não o amo, sou um corpo que deixou de ter o seu, sou alma que perdeu o fino frescor, ameno, delicado...

'I will die'.

Por Suzana Guimarães