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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



domingo, 27 de julho de 2014

Quando dei por mim

         
                                                                              Para Franck


Quando dei por mim, já não fazia importância todo o meu gostar por você, simplesmente porque ele era meu, e, assim sendo, eu não dependia mais de si, apenas de mim, para deixá-lo num canto; todo aquele gostar.

Quando dei por mim, aquele imenso amar transformou-se no vazio oco da última chupada no canudo de plástico, quando não há mais suco. Ou houve suco, mas imaginei ser grenadine pura, não líquido insosso.

Quando dei por mim, todos os homens eram os mesmos e mesmos todos os nomes. E eu não mais o distinguia.

Todo aquele gostar era cisma, vontade de mudar o calendário e sua ordem dita e também todas as horas e eu e o mundo, principalmente eu, isso é, vontade de transformar a mim mesma, em qualquer coisa além de ser sempre a mesma, jamais previsível, mas intensamente mutável, porém, bailarina da caixa de música. Sem roteiro, sem programa, sem um caminho, uma trilha.

Quando dei por mim, mal nenhum lhe fiz. Só a mim. Bem ou mal, somente um empurrão, leve toque na figura de rosa, rodopiando naqueles eternos bandolins. Leve empurrão, ela, ao chão. 

Quando dei por mim, criei fé extra: a música para, no entanto, o mesmo leve toque pode rodar a manivela vezes infinitas... 

Quando dei por mim, percebi que amor é pra morrer, no nascimento ou de velho; mas, a música, não.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 21 de julho de 2014

104º Desafio Poético com Imagens, por TaniaContreiras Arteterapeuta

Imagem: Jean Paul Boudier



No dia em que o senti como fenda aberta e eterna, no dia em que descobri a perda, tornei-me para o mundo múmia. Mumificada, atada, encoberta, vi diante de meus olhos sempre abertos - saiba, é preciso que saiba, quem morre de fome não fecha os olhos - o tempo passando. E ele passou, passaram-se minutos, horas, anos, um sem fim de vidas, um sem fim de nãos, mas eu não cedi. Continuei. Mumificada. 


Mimetizei-me ao mundo que não o entregava a mim. Tornei-me parte dele, por vezes, feliz, por vezes, rancorosa. Mas, fiquei.


Levantar-me-ei, porém, e venho para dizer-lhe isto: esta é a sua última visão. Fica com ela, que sou eu. Guarda-a porque sou eu. Mas, será o último olhar. Amanhã, uma revoada de pássaros beliscará meus cabelos sempre presos e eu partirei, laçada pelo desejo de ser só, porém, ser livre.


Cansou-me a espera. Desataram-se os nós. Soltou-se a última das amarras, caiu por terra um amor mumificado, sempre à espera, angustiado por não saber. Iludido por acreditar. Convencido que o tempo contaria a favor...


Minha efemeridade, meu amor, gritou mais alto. 


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Sobre o meu tempo


(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

Eu não tenho tempo, que bom que eu não tenho tempo. Eu o faço, todos os dias, porque todos os dias coisinhas me chamam, gritam, clamam por mim. Não tenho alguém para me ajudar - ou, melhor seria, fazer por mim - nas tarefas cotidianas, rotineiras, rasteiras... Tenho dois filhos em idades muito distintas e um é adolescente; o outro é criança ainda. São de sexos e temperamentos diferentes; um é pacífico, é fim de tarde ou manhã solitária na beira da praia; a outra é um vulcão em atividade, bruxinha faceira que ri de mim e me dá nó. Eu não tenho tempo, eu o faço por mim, e nesse movimento, vivo a me perder, perder de mim mesma, contudo, essa perda é fantástica, melhor que embriaguez leve. Eu não tenho tempo porque não o acumulo com coisas que emperram - porque eu tenho pressa - e por sentir algum remorso e necessidade de tampá-las a todo instante. Ou porque vivo a desviar da seta apontada. 

Eu não tenho tempo porque tenho a mim e carrego dois, prazerosamente. Eu não tenho tempo porque as pessoas já não podem mais me iludir ou manipular-me.

Esse tempo, que invento, que é meu, eu o gasto, muito de vez em quando, escrevendo. Eu escrevo porque descobri que decidi viver sozinha, bem escondida, e soltar-me também, claro, aos ventos, ao momento, mas eu misturei tudo. Sou um livro aberto, qualquer um pode me ler, porém, sou um livro sem índice, sem ordem, sem começo, meio e fim, que não lhe dá a chance de distinguir realidade de ficção.

Tudo, simplesmente, porque eu passei a não ter tempo...


Por Suzana Guimarães