Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Também já foram esquecidos..."



Nota de um jornal da cidade de São Paulo sobre a vida que segue no metrô:

"Também já foram esquecidos cadeiras de rodas, espada, carrinho de bebê, colchão, vestido de noiva, bicicletas, penico, narguilé, fogão, carrinho de pedreiro, uma urna funerária, próteses dentárias, próteses de pernas e, mais recentemente, um olho de silicone."

Tanta coisa interessante, algumas difíceis de serem carregadas, coisas enormes que ocupam espaços e os olhos... então, você pode esquecer-me. Esquecer é distração e também arte. Deixa-me, deixa a ideia de mim n`alguma estação de metrô, numa dobrada de escada, num banco de espera, na catraca - não paga para eu passar! Qualquer lugar fora de você está bom e lindo! Quem sabe, completo até as listas dos perdidos e encontrados...


(Suzana Guimarães)

sábado, 8 de abril de 2017

Ele


Ele tem sorriso manso em lábios de promessa. Ele tem cabelo irreverente e estilo próprio. Ele tem um olho que entrefecha... ele aprecia um mundo calmo com pessoas inteligentes e também um pouco insanas, um pouco ansiosas, um pouco fora das molduras... mas, presta atenção em seu olhar. Presta atenção, pois é outro mundo, paralelo a esse que descrevo. Nesse mundo, nesse sério mundo, ele não está brincando. Nesse mundo, trata você de respeitar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Breve


Fui visitá-la no mesmo hospital; no mesmo Centro de Terapia Intensiva (CTI) em que estive um ano antes. Aquilo tudo era enorme surpresa para todos, assim como havia sido para mim, quando lá, deixei um bilhete mal escrito da minha vida... Ela não me visitou. Ela não soube de mim porque não quis saber.

Olhou-me nos olhos e perguntou-me, "Por que isso foi acontecer comigo?".

Abri as cortinas. Apontei os leitos à volta dela, todos ocupados. Respondi:

_ "Olhe! Você não é a única!".


(Suzana Guimarães, por que a vida é pra ser ficção)


terça-feira, 14 de março de 2017

Será que ninguém chorou por mim por que eu não corri atrás de esquilos para fotografá-los; não fui ao parque, não relevei a existência dos esquilos; pouco me importei com a máquina, pouco me atentei para a tão bela arte da fotografia... será que foi por isso? Eu não corri, afoita, atrás de esquilos no parque.
Posso vê-los; competindo com esquilos.

sábado, 4 de março de 2017


O filtro é denominado outono. O risco é quase de inverno. A promessa cumprida é uma noite quase azul. Juro. Eu vi o céu azul caindo de amores pelo rosa da tarde. Era primeiro de março. Era a vontade de um abraço.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Para o meu rei


​Fica assim, uma recordação de nós. É fim de temporada, é fim de ano, é fim de qualquer começo; tempo de ouvir a chuva caindo, serena. É inverno.

As pessoas mastigam incansavelmente ao meu lado e eu alimento-me e basto-me de você. As pessoas falam muito e alto e eu só sei recordar. Recordo a gente junto, assim, coladinhos, você respirando meu ar que sumia... porque você não sabe, mas eu pensei várias vezes em deixá-la ir de vez, a minha entrecortada respiração, pois, nos braços do rei, morre-se em satisfação. 



​Suzana Guimarães​


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Tão simples!


(Suzana Guimarães, por Rika Silva)


A vida vai
​Também toda fumaça, todo cansaço, até qualquer odor.
Tudo morre quando é vida
Inclusive o amor​

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


(imagem: desconheço autoria)



Era um bom momento para dizer, "Eu a amo", ele pensava, aflito, enquanto ela se despedia, falava coisas, e, para ele, poderia ser talvez a última vez, então era a hora, falaria.


​Falaria, mas não falou. Pediu um instante, disse que gostaria de dizer-lhe algo e um silêncio calmo se fez presente. Ela esperou. Ele não falou.


Ele não falou porque o coração gritava muito mais alto: "Eu a invejo."



Suzana Guimarães​