Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 18 de maio de 2017

Fervendo em seu mundo novo



Imagino-o por aí - esse outro planeta que você criou, ha, ha!, bem melhor que seu antigo reino tamanho de uma birosca! Imagino-o por aí, fervendo como ferviam meus 'Sais de Fruta', isso realmente me faz rir!; fervendo como as formiguinhas que eu gostava de cutucar e apreciar... fervendo como o leite, que derramava no fogão quando eu desviava o olhar.


Fervendo. 



Imagino-o tentando ouvir o silêncio, tentando decifrar sinais, buscando o 'own'... Quase em vão...



Vejo-o como deveria ser e é. Eu diria, "Sossega, para com isso!". Eu diria assim para o que eu tinha certeza? Não. 



Roda, roda, aprende, reconhece, vê! Roda, roda, caminha, mas saiba que no peito impossível sossegar o tambor. E isso é finito?



Neste seu planeta, talvez o silêncio o alcance - é ele quem o procura e chama e não o contrário... aprende a recebê-lo: 



Repita infinitamente uma frase de duas palavras - sujeito mais verbo -, repita, repita, repita, repita...



E então, aí, você não ferverá.



Suzana Guimarães 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Já fui sol

Já fui sol e não sabia. Ardi seus olhos e sua pele. Queimei em você sem dó... porque eu queria, porque ninguém mais fazia. Tantos e tantas que por você passaram e em você ficaram num correr de anos sem piedade - o tempo é mais cruel que eu! -, e muito pouco fizeram ou mesmo nada quiseram... Para despertar o que ardia em segredo, no escrutínio do seu peito; mas eu não sabia, apenas sentia e isso é tudo.

Ardi em dois tempos, em bem menos que quatro mil dias, em bem menos que o todo de uma vida. 

Já fui sol e não sabia. Já quis ser voo cego ao precipício, fingindo ser pássaro; já quis ser morte, e também clausura, catedral antiga, eu só quis...

Você agora é lado de fora, externo, natural. Eu sou quase a mesma, não mais solar, porém... sou planície prata; noturna em pleno dia, sou a continuação do que eu sempre fui. Sou pausa.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

"Também já foram esquecidos..."



Nota de um jornal da cidade de São Paulo sobre a vida que segue no metrô:

"Também já foram esquecidos cadeiras de rodas, espada, carrinho de bebê, colchão, vestido de noiva, bicicletas, penico, narguilé, fogão, carrinho de pedreiro, uma urna funerária, próteses dentárias, próteses de pernas e, mais recentemente, um olho de silicone."

Tanta coisa interessante, algumas difíceis de serem carregadas, coisas enormes que ocupam espaços e os olhos... então, você pode esquecer-me. Esquecer é distração e também arte. Deixa-me, deixa a ideia de mim n`alguma estação de metrô, numa dobrada de escada, num banco de espera, na catraca - não paga para eu passar! Qualquer lugar fora de você está bom e lindo! Quem sabe, completo até as listas dos perdidos e encontrados...


(Suzana Guimarães)

sábado, 8 de abril de 2017

Ele


Ele tem sorriso manso em lábios de promessa. Ele tem cabelo irreverente e estilo próprio. Ele tem um olho que entrefecha... ele aprecia um mundo calmo com pessoas inteligentes e também um pouco insanas, um pouco ansiosas, um pouco fora das molduras... mas, presta atenção em seu olhar. Presta atenção, pois é outro mundo, paralelo a esse que descrevo. Nesse mundo, nesse sério mundo, ele não está brincando. Nesse mundo, trata você de respeitar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Breve


Fui visitá-la no mesmo hospital; no mesmo Centro de Terapia Intensiva (CTI) em que estive um ano antes. Aquilo tudo era enorme surpresa para todos, assim como havia sido para mim, quando lá, deixei um bilhete mal escrito da minha vida... Ela não me visitou. Ela não soube de mim porque não quis saber.

Olhou-me nos olhos e perguntou-me, "Por que isso foi acontecer comigo?".

Abri as cortinas. Apontei os leitos à volta dela, todos ocupados. Respondi:

_ "Olhe! Você não é a única!".


(Suzana Guimarães, por que a vida é pra ser ficção)


terça-feira, 14 de março de 2017

Será que ninguém chorou por mim por que eu não corri atrás de esquilos para fotografá-los; não fui ao parque, não relevei a existência dos esquilos; pouco me importei com a máquina, pouco me atentei para a tão bela arte da fotografia... será que foi por isso? Eu não corri, afoita, atrás de esquilos no parque.
Posso vê-los; competindo com esquilos.

sábado, 4 de março de 2017


O filtro é denominado outono. O risco é quase de inverno. A promessa cumprida é uma noite quase azul. Juro. Eu vi o céu azul caindo de amores pelo rosa da tarde. Era primeiro de março. Era a vontade de um abraço.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Para o meu rei


​Fica assim, uma recordação de nós. É fim de temporada, é fim de ano, é fim de qualquer começo; tempo de ouvir a chuva caindo, serena. É inverno.

As pessoas mastigam incansavelmente ao meu lado e eu alimento-me e basto-me de você. As pessoas falam muito e alto e eu só sei recordar. Recordo a gente junto, assim, coladinhos, você respirando meu ar que sumia... porque você não sabe, mas eu pensei várias vezes em deixá-la ir de vez, a minha entrecortada respiração, pois, nos braços do rei, morre-se em satisfação. 



​Suzana Guimarães​


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Tão simples!


(Suzana Guimarães, por Rika Silva)


A vida vai
​Também toda fumaça, todo cansaço, até qualquer odor.
Tudo morre quando é vida
Inclusive o amor​

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


(imagem: desconheço autoria)



Era um bom momento para dizer, "Eu a amo", ele pensava, aflito, enquanto ela se despedia, falava coisas, e, para ele, poderia ser talvez a última vez, então era a hora, falaria.


​Falaria, mas não falou. Pediu um instante, disse que gostaria de dizer-lhe algo e um silêncio calmo se fez presente. Ela esperou. Ele não falou.


Ele não falou porque o coração gritava muito mais alto: "Eu a invejo."



Suzana Guimarães​

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O universo, ele e eu.


Ele disse, "O universo natural é escuro e frio." 

Sim, escuro e frio, pensei, desliguei o carro e sorvi a imagem que se formou, então, respondi internamente...

é escuro e frio, mas há silêncio e luz; há som quando se passa por elas...

por elas, todas elas que você nem imagina, as estrelas...

de onde sai a mudez do verdadeiro silêncio, de onde não se ouve voz humana, pobre e triste voz, sozinha e sem par.



Por Suzana Guimarães

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Porque sempre haverá outono...



​As ruas frias, o sol quase fraco, as folhas quase ao chão.
Tudo é você.
O barulho que a máquina faz ao ligar, pela manhã, e o sino da igreja chamando para a missa.
As árvores mais apressadas, já nuas, me lembram você...
Tudo hoje cedo era você, insistente pincelada de cinza num chão desmaiado de histórias que nunca viveremos.



Suzana Guimarães​​

domingo, 9 de outubro de 2016

Um poema de Mário Quintana


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas

que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."



Mário Quintana

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O sentido da existência



(fotografia scg)


Pesou o passar daquelas horas. O relógio à frente, na parede, ajudava. Pesou o corpo que se entregou dobrado. Ficou assim, dobrada em dois, sentada na cadeira dura e inerte. Sentiu vazio enorme e um clarão: a existência é sem sentido enquanto se embala na certeza contrária... 

porque tudo acontece como que maestrado no final de tudo, mas no correr das horas parece vago e sem cor. 

​Podia ficar ali para sempre. Ou morrer ali daquilo tudo que era o nada a subir pelas pernas.

Curvada, olhou essa coisa alguma galgando dos dedos dos pés aos joelhos... nada fazia sentido, coisa alguma, gente nenhuma.

Foi então que neste desejo de morte, ouviu chamarem seu nome.



Suzana Guimarães


_ era 5 de julho.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nota sobre comentários

Após anos, decidi reabrir a caixa de comentários. Contudo, agora, "os comentários passam por um sistema de moderação. Não serão aprovados os comentários:
- não relacionados ao tema do post;
- com pedidos de parceria;
- com propagandas (spam);
- com link para divulgar seu blog;
- com palavrões ou ofensas a pessoas e marcas;"
- com luzinhas e pequenos corações saltitantes porque pesam a página.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sensação

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)



Sensação de lavada, bem lavada, na beira do rio, batida na pedra; secada; passada à lá dona Anésia, sem vincos, pendurada e esticada no cabide com o primeiro botão, aquele próximo ao gogó, cuidadosamente lacrado.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre ele e eu.

(desconheço autoria da imagem)

Passávamos. Ele contemplava o rio; disse-me, "Porque ela está muito próxima, a Lua, então ele se enche todo. Quase transborda." Para mim, era apenas um rio, belíssimo, de águas grossas; 

Passávamos... Penso que mal vejo o mundo; só quase transbordo... porque ele passa e vai ao meu lado. E só ele, só ele me enche toda.


Com ele, morrerei Suzana.




Suzana Guimarães

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Para quase falta tudo." (RMS)

(arquivo pessoal de suzana guimarães)