Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sábado, 8 de abril de 2017

Ele


Ele tem sorriso manso em lábios de promessa. Ele tem cabelo irreverente e estilo próprio. Ele tem um olho que entrefecha... ele aprecia um mundo calmo com pessoas inteligentes e também um pouco insanas, um pouco ansiosas, um pouco fora das molduras... mas, presta atenção em seu olhar. Presta atenção, pois é outro mundo, paralelo a esse que descrevo. Nesse mundo, nesse sério mundo, ele não está brincando. Nesse mundo, trata você de respeitar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Breve


Fui visitá-la no mesmo hospital; no mesmo Centro de Terapia Intensiva (CTI) em que estive um ano antes. Aquilo tudo era enorme surpresa para todos, assim como havia sido para mim, quando lá, deixei um bilhete mal escrito da minha vida... Ela não me visitou. Ela não soube de mim porque não quis saber.

Olhou-me nos olhos e perguntou-me, "Por que isso foi acontecer comigo?".

Abri as cortinas. Apontei os leitos à volta dela, todos ocupados. Respondi:

_ "Olhe! Você não é a única!".


(Suzana Guimarães, por que a vida é pra ser ficção)


terça-feira, 14 de março de 2017

Será que ninguém chorou por mim por que eu não corri atrás de esquilos para fotografá-los; não fui ao parque, não relevei a existência dos esquilos; pouco me importei com a máquina, pouco me atentei para a tão bela arte da fotografia... será que foi por isso? Eu não corri, afoita, atrás de esquilos no parque.
Posso vê-los; competindo com esquilos.

sábado, 4 de março de 2017


O filtro é denominado outono. O risco é quase de inverno. A promessa cumprida é uma noite quase azul. Juro. Eu vi o céu azul caindo de amores pelo rosa da tarde. Era primeiro de março. Era a vontade de um abraço.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Para o meu rei


​Fica assim, uma recordação de nós. É fim de temporada, é fim de ano, é fim de qualquer começo; tempo de ouvir a chuva caindo, serena. É inverno.

As pessoas mastigam incansavelmente ao meu lado e eu alimento-me e basto-me de você. As pessoas falam muito e alto e eu só sei recordar. Recordo a gente junto, assim, coladinhos, você respirando meu ar que sumia... porque você não sabe, mas eu pensei várias vezes em deixá-la ir de vez, a minha entrecortada respiração, pois, nos braços do rei, morre-se em satisfação. 



​Suzana Guimarães​


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Tão simples!


(Suzana Guimarães, por Rika Silva)


A vida vai
​Também toda fumaça, todo cansaço, até qualquer odor.
Tudo morre quando é vida
Inclusive o amor​

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


(imagem: desconheço autoria)



Era um bom momento para dizer, "Eu a amo", ele pensava, aflito, enquanto ela se despedia, falava coisas, e, para ele, poderia ser talvez a última vez, então era a hora, falaria.


​Falaria, mas não falou. Pediu um instante, disse que gostaria de dizer-lhe algo e um silêncio calmo se fez presente. Ela esperou. Ele não falou.


Ele não falou porque o coração gritava muito mais alto: "Eu a invejo."



Suzana Guimarães​

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O universo, ele e eu.


Ele disse, "O universo natural é escuro e frio." 

Sim, escuro e frio, pensei, desliguei o carro e sorvi a imagem que se formou, então, respondi internamente...

é escuro e frio, mas há silêncio e luz; há som quando se passa por elas...

por elas, todas elas que você nem imagina, as estrelas...

de onde sai a mudez do verdadeiro silêncio, de onde não se ouve voz humana, pobre e triste voz, sozinha e sem par.



Por Suzana Guimarães

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Porque sempre haverá outono...



​As ruas frias, o sol quase fraco, as folhas quase ao chão.
Tudo é você.
O barulho que a máquina faz ao ligar, pela manhã, e o sino da igreja chamando para a missa.
As árvores mais apressadas, já nuas, me lembram você...
Tudo hoje cedo era você, insistente pincelada de cinza num chão desmaiado de histórias que nunca viveremos.



Suzana Guimarães​​

domingo, 9 de outubro de 2016

Um poema de Mário Quintana


"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas

que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo

um carinho no momento preciso

o folhear de um livro de poemas

o cheiro que tinha um dia o próprio vento..."



Mário Quintana

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O sentido da existência



(fotografia scg)


Pesou o passar daquelas horas. O relógio à frente, na parede, ajudava. Pesou o corpo que se entregou dobrado. Ficou assim, dobrada em dois, sentada na cadeira dura e inerte. Sentiu vazio enorme e um clarão: a existência é sem sentido enquanto se embala na certeza contrária... 

porque tudo acontece como que maestrado no final de tudo, mas no correr das horas parece vago e sem cor. 

​Podia ficar ali para sempre. Ou morrer ali daquilo tudo que era o nada a subir pelas pernas.

Curvada, olhou essa coisa alguma galgando dos dedos dos pés aos joelhos... nada fazia sentido, coisa alguma, gente nenhuma.

Foi então que neste desejo de morte, ouviu chamarem seu nome.



Suzana Guimarães


_ era 5 de julho.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nota sobre comentários

Após anos, decidi reabrir a caixa de comentários. Contudo, agora, "os comentários passam por um sistema de moderação. Não serão aprovados os comentários:
- não relacionados ao tema do post;
- com pedidos de parceria;
- com propagandas (spam);
- com link para divulgar seu blog;
- com palavrões ou ofensas a pessoas e marcas;"
- com luzinhas e pequenos corações saltitantes porque pesam a página.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sensação

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)



Sensação de lavada, bem lavada, na beira do rio, batida na pedra; secada; passada à lá dona Anésia, sem vincos, pendurada e esticada no cabide com o primeiro botão, aquele próximo ao gogó, cuidadosamente lacrado.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre ele e eu.

(desconheço autoria da imagem)

Passávamos. Ele contemplava o rio; disse-me, "Porque ela está muito próxima, a Lua, então ele se enche todo. Quase transborda." Para mim, era apenas um rio, belíssimo, de águas grossas; 

Passávamos... Penso que mal vejo o mundo; só quase transbordo... porque ele passa e vai ao meu lado. E só ele, só ele me enche toda.


Com ele, morrerei Suzana.




Suzana Guimarães

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Para quase falta tudo." (RMS)

(arquivo pessoal de suzana guimarães)

sábado, 6 de agosto de 2016

Relato breve...

​Eu queria. E era comum querer... Desejava um tempo especial, quase antes do fim do dia, do início da noite, o morno que se dá quando o calor ameniza, deixa a terra e as águas do mar alcançam as areias; um tempo calmo, gentil para comigo e eu para com ele. Mas também desejei - era muito comum querer! - passos pesados socando a terra, trovões, raios, enxurradas... a desgraça, a destruição da calmaria. Eu queria...


(fotografia por Suzana Guimarães, via celular)


Sentada aqui onde estou, debaixo desta árvore, diante do mar, vendo as pessoas multiplicando-se em meus piscares de olhos... ouvindo o homem furando a terra, a britadeira quebrando as pedras, as vozes comentando... comentam sobre o barulho, mas para mim o cenário é o mais que perfeito porque nunca é o mesmo (lembre-se, as pessoas multiplicam-se aos meus olhos e se vão...) e eu cansei e o tempo que eu queria, não quero mais, só este. Estou parada, e se quero, quero apenas o fim da mesmice...

Já não posso mais, as mesmas imagens, o mesmo vocabulário, as recordações que se atravessam. 

Sei que é meio-dia e que o homem parou para almoçar (e faça o tempo que for, ele parará), o silêncio apoderou-se do lugar, e eu ainda aqui. Espero um ônibus, o motorista me perguntará (ele, mais tarde, perguntou), "Where are you going?", e eu, prontamente, "I do not know". Sigo nesse ônibus, olho as cenas e elas não se repetem...

O que cansou-me foi a repetição...​​
​ 


por Suzana Guimarães​

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ah!


(foto: suzana guimarães)


Se eu soubesse, se você passasse, ah, se eu soubesse e você passasse. Se eu soubesse que você sabendo e eu também passasse... e se nós soubéssemos que passaríamos, eu passaria todo dia, eu saberia todo dia, e você saberia que eu passaria e também passaria, só para que eu soubesse.​

(suzana guimarães)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Aos cinquenta anos de idade

(desconheço autoria da imagem)



Aos cinquenta anos, a gente atira para matar. Não há mais rodeios e a necessidade apregoada é balela; nessa idade, sabemos muito bem como resolver as coisas; resolvendo. Não há necessidade, mas os atos são rápidos, sem premeditações infundadas. Demorou? A gente já se foi. Aos cinquenta anos, não há mais espaço para romantismos baratos e dramas. É tudo nu e cru. Ah, amo essas duas palavras! A gente tem fome e com certeza esperar o outro tomar alguma atitude é coisa impensada. É cru porque nos tornamos bruxos, adivinhões, e a conta de somar é a que mais sabemos. Um fato ou ato somado a outro é resultado sabido e esperado. Só os tolos, os tais românticos e dramáticos, erram ou subtraem, ou pior, dividem. Somos muito bons em multiplicar! Porém, predomina a tal necessidade que é falsa, pueril, enganosa, só para fazer charme, diversão. Aos cinquenta, a gente vai à fonte para beber água quando pairam dúvidas. Vai ao âmago da questão, vai aonde o cômodo diria para não ir, mas a gente vai. Fica aquela coisa remoendo dentro de nós, e fazer a verdade ser revelada fica fácil... a gente bebe a água, sorrindo.


Aos cinquenta, rir é mais fácil que chorar.


Suzana Guimarães