Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DEVASTAÇÃO


By Xi Pan


Esta casa não é minha


E nem os sonhos que me compunham

Nem meus, os olhos que tanto quiseram ver


Esta boca que sorri

Também não é minha

Meu corpo caminha perdido

da alma

que se aquietou

Parou

Mergulhou no breu de um canto mudo

Desfez-se da vaidade da leveza

Pesa num canto da casa, é talvez uma cômoda, um aparador


Nada é mais meu, tudo se tornou devastação.


(por Suzana Guimarães)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DETALHE



Entreguei-lhe um anel
você o deu à outra
Besuntei-me de odor
você cheirou e levou para ela
Enviei-lhe a minha camisola de dormir
você forçou a entrada no corpo dela


Postei-me diante de você
Você tentou arrancar o fluido cintilante que dança à minha volta
para enfiar no corpo dela


Você me quis, no corpo dela


Mas, eu sou procissão de fé
Sou corte que não se transmuta em cicatriz
Sou pele que não guarda digital
Sou rio sem volta
Sou o ontem dentro do hoje


Sou o amor de quem me quiser amar.

Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

NOJO



Todos se calaram.
Perderam a festa?
O que realmente viram pela fresta?
Cadê a pedra que rolou?
A vida que girou...
Por que perderam a graça?
Por que você perdeu a graça?

Por que teu medo segura teu calcanhar
a cada passo, a cada ensaio
no teu palco de palhoça?


Trapezistas de palavras, gente comedora de verve alheia.


Por que todos se calaram?
Você ganhou aquela guerra?
Por que você não lustra mais tuas garras fracas, repõe tua munição?
Por que você perdeu a fala?

Porque você não estava na praça.
Porque vocês vivem feito traças
finas, rápidas nas palavras, e vazias debaixo de mão pesada.


Dispenso tuas falsas profundezas...

Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

QUANDO O AMOR ACABA



Eu não rasguei as cartas. Não risquei teu nome na agenda de endereços e nem deletei você dos arquivos do meu computador. Não guardei o álbum de fotografias no quartinho dos fundos, muito menos lancei fogo nele. Não me sentei no chão e quebrei a moldura, o vidro... com ponta de tesoura, na tentativa vã de aniquilá-lo. Mesmo que você morra, você permanecerá.

Não ganhei ao nascer poderes mágicos de esquecimento e nem uma borracha enorme o suficiente para apagar tudo o que vivemos. Eu não posso apagar o que vivemos porque estaria apagando um tempo da minha vida, curto ou longo, pouco importa, foi minha vida, durou intensamente feito uma vela a arder.

Não adianta acender velas, fazer promessas. Não adianta tomar remédios. Conheci uma mulher que passou pela cirurgia de Lobotomia, ela queria esquecer... morreu louca, inútil, definhando em cima de uma cama; e não esqueceu. Não vou procurar benzedeiras, videntes, cartomantes para pedir aconselhamento sobre nós. Deixei Deus em paz, deve ser muito cansativo ser Deus... ora eu pedi a Ele que você ficasse, ora pedi que você sumisse, que voltasse, que me amasse, que me odiasse.

Não releio nada do que escrevemos. Não revejo imagens passadas, cenas. Não bebo para esquecê-lo porque só bebo quando estou feliz, e, ultimamente, não tenho bebido nem uma taça de vinho sequer. Não enxoto você de meus pensamentos, peço delicadamente à tua alma que você se vá.

Guardarei as cartas, as lembranças, as fotos... Eu amo a minha existência por completo, tanto os momentos bons quanto os ruins, do início até hoje. Não sou um ser com espaços em branco.



Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A PORTA PARA COMENTÁRIOS ESTÁ ABERTA


(fotografia de SCG, arquivo pessoal)




Ok! Vocês venceram! Reabro a porta da casa, o espaço é de vocês. Só não prometo mais a reciprocidade que antes cobrei e que uso como lei na minha vida.

Sejam bem-vindos!

Foram os comentários de vocês que mantiveram a casa aberta.

Um abraço,



Suzana/LILY


Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.

LEMBRANÇA QUE DÓI, ETERNA



imagem: Raíssa Medeiros


Lembra-se? A gente saía para as ruas, atrás daquelas músicas. A Lua em cima a nos contemplar, você falava baixo, estremecia meu corpo todo, roçava a barba em mim. Você sorria, as mulheres rodavam suas saias, o som de violino embalava nossas almas extasiadas, o bosque escuro e eu, eu vivia como que embriagada. Você sorria e enlaçava minha cintura em direção à roda. A noite nos mergulhava em espécie de delírio, como se atados por laços de pétalas, pétalas das rosas com as quais você me cobria entre beijos e abraços.

Lembra-se daquelas noites? Já faz tempo, muito tempo, mas ficou em mim as palavras 'yo soy tu hombre'. Hoje, a brancura que desceu sobre a cidade, nevoeiro denso, pareceu me guiar para essa lembrança... Tampou a crueza dos dias atuais e eu podia ouvir você me chamando, relembrei tua voz baixa, teu corpo oferecido para mim, quente, diante do meu. Eu podia ouvir o teu chamado, eu o ouço há um século ou dois, mas eu não sabia, eu nunca sei se para norte, sul ou oeste, mas ardeu em mim o beijo, o último, parecendo promessa, que em mim ainda ferve.


Por Suzana Guimarães

domingo, 2 de outubro de 2011

ELA E EU


(Suzana Guimarães  -  fotografia, Ana Diniz Echabe)


É só questão de tempo, um pouco mais, só um pouco e eu a verei novamente. Sou menino. Sinto pressão no peito. Sinto dor. Sinto alívio. Meu coração aos pulos saltará da boca. Sou menino. Angústia, saudade, tanto tempo, tempo longo, longo, nem me lembro mais, tento me convencer, mas ela virá. Ela chegará, sim, ela chegou e eu de novo em frente a ela, como sempre foi. E ela ri. Ela ainda ri. E ela me olha, apaixonada. Ela ainda me ama, ah, sim, ela me ama. Ela se mexe. Ela ainda se mexe, bastante, fala, anda, senta, revira meu velho coração.

Sim, agora sou ancião. O velho encurvado. Sou passado. Sou tristeza. Arrependimento. Sou o reflexo mal refletido dela, pois ela nunca saberá, mesmo que pense saber... Sou velho, sou um passo para trás, sou melancolia. Queria estar longe, queria ir embora, por que estou aqui?

Sou novo, sou viril, sou homem. Ela pendura-se no meu pescoço, cumprimenta-me. Ela sempre foi assim, eternizada assim, riso, volume alto, volume baixo, olhar cabisbaixo... sou homem, ela me toca, ela pergunta, ela finge, sou homem, sou comichão, sou passado passeando à flor da pele, sou avião voando alto, sou todos eles, de saudade. Sou homem e a toco, três dedos pressionando a cintura dela, sentindo o velho cheiro, sou menino, sou velho, sou homem. Sou recordação.


                             Por Suzana Guimarães