Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

DO HOMEM QUE NÃO AMEI

 
Fotografia gentilmente cedida por Raíssa Medeiros.

 
 
Dos homens que eu amei, fui saindo aos poucos. Peça por peça, eu ia desnudando-me, até a nudez completa. Nua, eu partia. Porém, houve um homem que não amei, mas o casaco que eu vestia, ao estar com ele, era o próprio, o homem. Sabe aquele pulôver, jaqueta, poncho, pele falsa ou verdadeira, aquele que cada um o possui para sempre? Assim, era ele para mim. Com esse homem, eu não precisei ir a lugar algum, mas com ele, eu passeei por secos becos em noites solitárias; com ele, caminhei vales calados de Katmandu, vi pobreza e beleza, tudo misturado e intrínseco. Dancei para ele junto aos ciganos, rodei meu vestido floral, compus um verso ou dois ao som de velhos violinos. Recordei florestas de pinheiros, botas socando o chão; uma casa isolada, no alto de um caminho sem fim. Lembrei-me de pessoas que nunca vi, de cortinas de pano frágeis a lhes proteger. Com ele, sofri medo e saudade antecipada; senti mais coragem, pensei em acreditar. Dormi em seus braços, num canto, isolados, com uma stalingrado a nos guardar. Por causa dele, ganhei um tempo a mais nos registros de nascimentos do sem fim do mundo. Por causa dele, fiz jura eterna, daquelas que doem e clamam dia e noite por sua consumação. Construí uma casa com paredes de pedra, desenhei num mapa uma estrada de trilhos, tranquei a casa e saí pelo mundo, esperando sua chegada.

É noite eterna. Novamente nua estou e eu não sei por que retirei esse casaco tão depressa, puxei suas longas mangas, seus botões e forro, em mudez completa. Não foi aos poucos, queimava sem fogo. Não foi aos poucos porque foi peremptório. Não houve o deslizar agonizante da saída, nem a dor de perdedor.

Não olhei para trás, ceguei meus olhos para nunca mais ver, minha língua, para nunca mais falar. Fiz um silêncio maldito.

Do homem que não amei, saí às pressas.

É noite. Escuta, escuta, mãe, esta batida seca no peito, tambor dos mortos. São meus passos que correm. Só não sei por que corro. Só não sei por que parto. Diz, mãe, diz qualquer coisa, por que nunca amanhece?

Por Suzana Guimarães.


Raíssa Medeiros

sábado, 17 de novembro de 2012

MOÇO!

(Imagem retirada da Internet)
Moço!

Pega teu sorriso, tua gargalhada solta, tua felicidade explícita por estares ao meu lado e vai dormir.
Pega teu olhar fixo, constante, parado em mim,
Pega tuas mãos lentas, teus toques suaves... e vai tu!

Vai tu, porque tu és bronco demais para mim! Sou delicada, sou quente, sou dos Trópicos. Sou molhada. Desertos, só os tenho na alma, não como tu que os tem em alma e corpo.

Pega teu corpo vazio e enche de alguma bebida bem barata e encharca-te nela, esquece que cruzei teu caminho. Tu és árido, tapa seco. Ah, se eu te desse um tapa! Guarda-o em caixa de veludo para que não esqueças tu que até para bater e desprezar, sou artista; faço belos arranjos, mesmo que me doa, mesmo que me fira... quem nasce abaixo do Equador possui calor, mas isso tu desconheces, tu conheces apenas calor de lareira.

Por Suzana Guimarães