Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



domingo, 25 de julho de 2010

DO TAMANHO DA MINHA LEVEZA


(SCG - arquivo pessoal)

             Suzana C.Guimarães

Estou do tamanho da minha leveza. Ou seria o peso da minha leveza? Mas é leveza, não é peso. Então é tamanho, dimensão. Densidade? O dicionário fala que leveza é "qualidade de leve". E, leve é "de pouco peso ou pouca densidade; pouco espesso ou denso" e outras coisas mais, mas dicionário, eu amo, desde a adolescência, mas nós sabemos, ele é apenas o pai dos burros. Às vezes, ele não ajuda.

Quando eu analisava as letras dos amigos, eles odiavam quando eu pegava meus livros para me ajudar. Eles queriam a análise solta, leve... E agora me vejo assim, querendo dizer o tamanho da minha leveza, explicar o som que vem de dentro da onda...

Hoje, pela manhã, passei perfume, eau, a palavra parece mais fluida, leve, e eu era o jato dele que ficou no banheiro e além de mim, não sei no que mais tocou.

Hoje, pela manhã, ao sair do carro, meu vestido ventou e eu ventei junto. Quase me dexei levar na roda da saia que se abriu e eu por instinto apenas bati a mão, mas eu nem via. Gosto de vestidos e saias quase longos, quase mantos, quase panos... só para sentir o prazer do ruflar... Aquele ruflo parece o perfume que me envolve.

Hoje, ao passar pela orla marítima, poeira fina entrou em meus olhos, tão levemente, só o suficiente para eu arder e molhar um pouco os olhos e pensar em ventos distantes.

Mal piso o solo, mal paro no colo.

Tenho a leveza da moedinha que aquele mal-encarado, daquela esquina onde passo, que me olha e a joga pro alto e a vê caindo... sou a caída dela. Sou o olhar que ele tem medo de me dar.

Sou o primeiro passo da menina que vai ser bailarina. Sou o primeiro passinho, o erguer dos pezinhos, o bailar pro alto dos bracinhos. Sou a leveza deles, neve dourada.

Ontem, eu aspirei o pó da casa, foi tudo para o vácuo, vacuum (a Língua Inglesa me surpreendendo, me seduzindo com a paciência dos amantes profissionais), mas agarrados ficaram fios de ouro, tão finos, tão finos, que só se pode ver quando amontoados. Era eu! E eles, eu, voam pela casa, quase que despercebidos.

Anteontem, um homem com longas costeletas brancas passou por mim em meu vestido agarrado ao corpo que suava neste deserto impiedoso. Ele soltou uma longa baforada pro lado, seu fumo cheirava bom, pensei em chocolate derretido e as fumaças soltaram o algodão do meu corpo. Eu, a fumaça de chocolate, eu, o desprender do vestido do corpo suado.

Ontem, eu cozinhei macarrão. Ao lavar a massa, eu escorri, eu era o fio que escapou e se foi com a água, tão lépido!

Ando por aí, ando por aqui, ando pela casa, pela praia, pelas ruas e mal sinto o espaço que vou ocupando na medida do meu passo. Pareço nada ocupar, pareço a leveza da menina loira que pula no colo da mãe, num salto, eu sou tudo aquilo que circula o pulo. Mais leve que a unha do passarinho pendurado no fio ou do esquilo que me fita do fio pensando ser eu uma aparição.

Voo leve do meu chapéu, tão grande chapéu sem peso, que escapou de mim, na calçada da praia, eu sou o momento exato bem pouco antes do voo e da leveza das mãos do homem que roubou uma foto. Sou a lente da máquina que alongou-se e tão breve me captou na perda.

Sou o pisar leve das gueixas. Sou o beijo que se joga daquelas janelas pequenas, logo após o adeus.

Recosto-me em maciez, inspiro e expiro a mim mesma, não acreditando que meus ossos, minha carne, toda a minha pele, todo o peso dos meus pensamentos, toda a carga das minhas sensações, todo o meu passado e meu presente que estou a desembrulhar possam ter virado nota musical, uma só, que eu ouço desde criança, desde a casa da minha avó e vem aqui me encantar.

12 comentários:

  1. Leveza...é tão bom se sentir assim não é Suzana?
    O aspirar o pó de tudo, jogar as "Sujeiras" fora, e aspirar coisas novas.
    Eu ando fazendo isso todos os dias na minha vida.
    Eu me subtraio, me somo, me multiplico, até encontrar o meu centro, o meu ponto.
    E me sinto leve, leve...
    Minha querida, deixei email pra ti com palavras do poeta maior, Vinicius.
    Mas alguma coisa repito aqui:
    Feliz aniversário Suzana.
    Feliz "RENASCIMENTO", feliz vida.
    Receba ai um abraço meu, com as melhores vibrações possiveis.
    Que a leveza fique instalada por todos os dias.

    Beijo!

    ResponderExcluir
  2. Suzana/Lily, bom que voltastes, morria de saudades suas e de seus textos...mas vc esteve presente e eu nem sabia: no perfume da moça da esquina, no vestido num varal, no pó que brilhou ao sol na limpeza de ontem, na massa do jantar e os pratos ainda brilham na pia, no cheiro de chocolate e tabaco da casa vizinha, nas moedas que dei ao mendigo hj de manhã...era vc, minha amiga, mandando sinais, como as canções que ouço agora...
    Beijos, carinhos, paz e nem sei que horas são, talvez devesse saber, assim marcaria na folhinha, que hj, tal horas, Suzana/lily voltou...

    ResponderExcluir
  3. Voltando aqui! Li num dos seus comentários em algum dos 'amigos blogueiros em comum', que foi seu aniversário, não sabia, qdo foi? Meus parabéns msm pós-niver, apesar de não gostar muito de aniversários, nem os meus e nem os dos outros, uma vez um amigo escreveu: pq parabéns? por termos nascido? por termos sobrevivido?, minha perplexidade caminha na mesma direção...

    ResponderExcluir
  4. da tua mania de grandeza!

    linda, linda, linda...

    Rafa

    ResponderExcluir
  5. "...não acreditando que meus ossos, minha carne, toda a minha pele, todo o peso dos meus pensamentos, toda a carga das minhas sensações, todo o meu passado e meu presente que estou a desembrulhar possam ter virado nota musical, uma só..."

    numa nota só encontrar tanta intensidade... bem, e a leveza é um privilégio de almas que guardam bons sentimentos, que não esperam muito mas apenas o que lhe é de direito, o que vem às mãos com o vento...

    ah obrigada pelo comentário, sim em meio à nossa surdez é possível ouvir a voz de Deus, só Ele pode gritar tao alto a ponto de nos acordar
    Um abraço no coração

    ResponderExcluir
  6. E bom se sentir uno mesmo ser aquele que uno mesmo se sente desde que amanhece ate anoitecer con as vondades q a vida nos ofrece sempre ao ser uno mesmo....

    Saludos

    Linda Semana
    Abracos

    ResponderExcluir
  7. E na leveza das suas palavras flutuei, ventei com vc...

    Lindo demais!^^

    Beijos Su-su

    ResponderExcluir
  8. Um texto que nos faz flutuar. Nem a leveza te acompanhou, pois ficou pesada ao te ver passar acima dela.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  9. Que lindo! Eu ventei junto!!!!

    Agradeço as palavras que me ofertou - lá no meu blog - deliciei-me com elas.
    Bom te encontrar!

    bjus

    ResponderExcluir
  10. Ah! Quanta poesia a flutuar por aqui... Quanta beleza e leveza nas palavras que saem de ti, feito plumas.

    BeijooO*

    ResponderExcluir
  11. Um beijo...




    TELEFONE

    Toca o telefone...
    Toca sem parar
    Deixo-o tocar
    Mas depois...
    Vou...
    E quando lhe pego
    Nunca mais toca...
    Alguém estava...
    Mas não queria estar...
    Do outro lado de lá
    Ouvi suspirar...
    E fiquei a pensar...
    Porque será?
    Que se passará?
    E continuo à espera...
    Que ele volte a tocar!...


    LILI LARANJO

    ResponderExcluir
  12. É simplesmente maravilhoso ler-te!

    ResponderExcluir

A caixa para comentários está novamente aberta. Contudo, agora, "os comentários passam por um sistema de moderação. Não serão aprovados os comentários:
- não relacionados ao tema do post;
- com pedidos de parceria;
- com propagandas (spam);
- com link para divulgar seu blog;
- com palavrões ou ofensas a pessoas e marcas;"
- com luzinhas e pequenos corações saltitantes porque pesam a página.