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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 29 de julho de 2010

ESTÁ FERVIDO?

                                   Suzana C. Guimarães


Eu gosto de tudo que ferve.

Começou o gosto, na infância, eu tinha tara por sal-de-fruta, depois de quase morrer engasgada por duas vezes, parei. Eu enchia a mão, enfiava na boca e vibrava com aquele fervilhar todo.

Leite fervendo, eu mexo com uma colher para não parar ao derramar, doce de brigadeiro fervendo.

Água fervendo, principalmente quando ferveram esquecidas e só resta o susto no final.

Formigueiro fervendo porque eu cutuquei com uma varinha.

Um dia fervendo na Bahia...

Uma pessoa fervendo de raiva, me dá vontade de rir até cair.

Eu fervendo de ódio, é ótimo! Às vezes, acho graça do tamanho do exagero. Uma pessoa ferver de raiva lembra filme de Almodóvar, aquelas coisas descabidas que ele cria.

O ferver da água do mar quando a lava encosta, um ferver para trás.

O ferver de palavras que saem da minha boca.

O ferver de ódio de quem perdeu, é tão verídico!

O ferver do meu silêncio quando eu juro a mim mesma mais nada falar.

O ferver dos meus sonhos que me acordam estática na cama, atônita, endurecida pela informação.

O ferver dos meus anseios que não conseguem ultrapassar certas fronteiras.

O ferver que sinto quando penso em você e penso em lhe rasgar com as unhas, cortar fino, para ver se você sente um pouco mais do que parece sentir.

O ferver da água do carro, é triste, é problema, mas é lindo ver a água fervendo, pulando pra fora, chapiscando tudo em volta. E a gente fica parado, assistindo, sem poder fazer nada.

O ferver da língua da carola na igreja, das carpideiras que pranteiam os mortos, daquele povo batendo a cabeça no muro e lamentando, colocando a fé para ferver...

O ferver das palavras dentro de mim.

O ferver dos desejos mal compreendidos dentro de mim.

O ferver da minha longa espera...

Mas eu sinto saudades mesmo é de quando ferver para mim era apenas o sal-de-fruta espumando dentro da boca.