Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



terça-feira, 27 de julho de 2010

P.S.:


Eu não queria escrever sobre perdas humanas nem perdas materiais, eu não queria escrever sobre guerra. Eu não queria descrever crueldades, não queria tentar destrinchar certas dores insuportáveis às quais os pesadelos nos levam a ter. Eu também não queria desfigurar máscaras, não queria vasculhar o sexo e suas entrelinhas. Ontem, não. Ontem, não. Quando escrevi sobre abraço, eu queria falar de coisas ternas - mesmo que às vezes tristes -, queria absorver um pouco da leveza que sinto em mim e por fora, através. Eu tentei apenas pintar um quadro, uma aquarela, fazer uma blusa de tricô, moldar uma argila, tão inconsistente, tão insuportavelmente maleável, eu queria fazer uma jarra com ela. Cheguei a comprar flores para colocar nessa jarra e nela eu derramei muitas águas que rolaram pelo meu rosto ao longo da vida. Eu queria muito pouco? Eu queria muito. Eu quis escrever sobre coisa impalpável e as minhas mãos são palpáveis. O teclado do meu computador é palpável. Abraços são muito mais que carnes se encontrando. Vivo a milhares de quilômetros de distância da minha mãe e eu a abraço todos os dias. Eu abraço meus mortos que não me deixaram. Eu abraço Deus. Eu posso fazer isso. Se você não pode, eu compreendo. Mas eu posso. Eu tentei descrever um abraço, mais fácil seria falar de beijo na boca, com língua. Seria extremamente mais fácil. Mas eu, com a minha mania de grandeza, tentei alcançar as estrelas, pegá-las, esfregá-las para que saísse mais brilho de lá. Sou assim, forçosamente uma pessoa resistente e obstinada.

                                Suzana Guimarães