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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sexta-feira, 9 de julho de 2010

ODEIO FLOR QUE NÃO SE CHEIRA

                                                 
"Flor perfume leve... tempestade devassa destruição..."
                                (Rafa Feck)

Ao criar o Blog, dois meses atrás, me deparei com o espaço em branco para eu responder "quem sou eu". Nem tentei preenchê-lo, pois sempre penso em tudo diante dessa situação e o tudo não resolve.

Uma malagueta me irritou na terça-feira, logo pela manhã, e hoje, sem que eu ainda me lembrasse dela, retornou. Me irritou novamente.

Lembrei-me então da auto-definição do Rafael Feck e entendi a razão de eu ter lido a frase mil vezes, na época. Eu lia a minha própria definição, mas não sabia. Você com certeza concordará comigo, definir a si mesmo, dizer quem tu és, não é tarefa fácil.

Sim, eu sou flor, perfume leve... sei que é preciso que você, se quiser se aproximar, tenha a árdua tarefa - ou prazerosa, isso fica a critério de cada um - de encontrar o caminho do jardim. Se, se alcançá-lo, tu me sentirás. Mesmo que com pétalas secas ou rígidas ou desfalecidas, mesmo que com pouco cheiro, nunca doce, mas leveza que lhe passa ao respirar, sou flor. Sou flor que você pode cheirar, pois não suporto aquelas flores de plástico ou fedidas, já podres, ou simplesmente miragem floral, que não podem ser cheiradas, porque feito o príncipe que vira sapo, elas viram um vespeiro que você não pode sequer tocar. Se você me encontrar flor, tocará flor, sentirá flor, cheirará flor. Mas,

se você me encontrar vento forte, tempestade, o mundo sacolejando debaixo dos seus pés, não pense em jardins, jardineiros e tratamento do solo, afaste-se, corra se possível, porque, se tu me tocares, com certeza, encontrarás apenas devassa destruição.

Só o tempo, só Deus, só a voz da minha mãe, só os olhos dos meus filhos poderão conter a ira dos ventos. Nem eu mesma poderei. E, na minha devassa destruidora ventania não sei de flores, não sei de aromas. Mas sou o que tu vês, não sou a flor que você não poderia ter cheirado.
                                                                    por Suzana C. Guimarães


Nota: mesma publicação, na mesma data, em O Medo De Suzana.