Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



segunda-feira, 14 de junho de 2010

MUITO POUCO

                                  Suzana C. Guimarães

Contentei-me com a gota,
Aquela para se beber.
Caiu em minha boca
Única e última.
Contentei-me com o vento
Que acabava de balançar
O cabelo da outra.
Puxei fundo dos pulmões
E cheirei o que aquele vento deixou.
Contentei-me com a sombra da árvore
Que vi tão alta e tão bela
Mas que se ia
Junto ao dia.
Abracei meu corpo
O que me restou
E com ele também me fartei
Quando por mim
Outro corpo quase me encostou.
Contentei-me com o aroma
Da fruta que pendeu no ar
E eu não pude sequer pegar.
Contentei-me com a beleza do azul do céu,
Que vi muito pouco antes,
Da chuva desabar.
Contentei-me em ver a voz
Caminhando longe em direção ao luar.
Contentei-me com o muito pouco
Do amor que não puderam me dar.