Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



quinta-feira, 21 de março de 2013

Administrando o docinho de banana na geladeira.

By Laura Zalenga





Porque você dormiu, você não escreveu...
 
O que sabe você da minha busca? Qual a tua pretensão em pronunciá-la, fazer referência? O que você sabe de mim se teus olhos sempre se negaram a me ver?
Você sabe o que eu lhe conto e eu lhe enrolo, lhe embromo e você dorme, e você administra o docinho de banana na geladeira...
 
Enquanto você dorme e o docinho é comido aos poucos, você fixa teus olhos no espelho amarelado do tempo que você não conseguiu conter entre teus dedos e eu aqui venho para lhe dizer o que sei, a tabacaria foi uma boa desculpa para teu arrependimento explícito de não ter me estendido a mão.
 
Estendo-lhe agora para você, meu tempo, meus dedos, meus pensamentos que você admira e odeia, você, que me mata e me ressuscita e que se engasga com a verve que lhe passo por entre... por entre dedos, entre coxas, entre notas, entre um passo e o seguinte.
 
Venha cá, aproxime-se, antes que eu me perca de vez de ti, ai, eu que nada entendo de perdas, apenas sinto-as.
 
Toma tempo para me entender, esqueça de si mesmo, por breve segundos... quem sabe, dentro da brevidade, você se encontre e veja que ela ficou noiva de um e se casou com outro, que teus castelos perderam o sentido e você não se perdoa. Por quê? Porque teu sono segura tuas pernas, não lhe permitindo caminhar e elas diminuem de tamanho a cada passo. E tuas pernas não alcançam teus sonhos, e teus passos, você os faz bem diminutos para caber teus pés.
 
Tua mãe não lhe fez pequeno, nem teu pai, nem eu. Quem lhe diminui e faz círculos no chão é você mesmo que tem medo do que vê por entre frestas, por entre saias e calças, por entre a noite escura, nos quartos proibidos. E então, você dorme.
 
Ei, ela ficou noiva de um e se casou com outro, porque o docinho foi comido aos poucos, na geladeira em que você o deixou...
 
Enquanto você dormia, eu gozava sozinha.
 
E, você? Tem gozado? A morte anda lhe alcançando? A vida anda lhe alcançando? Para onde foi o sofá desgastado? Para onde foi o teu desejo de criar peixes substitutos? Não há vida sem gozo e morte, não há morte sem gozo e nem eu sem muitos gozos. Sim, gozos, no plural...
 
Você imagina saber de mim, mas vou lhe dizer, na minha busca não há vazio, na saudade que sinto de quem procuro não há vacilo, na minha espera e busca, eu jamais dormi, e jamais administrei docinhos na geladeira...
 
Vem cá, escuta: a minha busca é soberana, lotada, é tanta que sobra e se esparrama pelos lados, para cima, para baixo. A minha busca é o meu excesso, a minha perdição, pois eu busco porque quero encontrar, e, encontrando, gozar, esparramar-me, viver de doer, gastar, gastar, gastar e marcar cada centímetro do meu corpo já bastante marcado... eu quero mais, porque não sei de pouco, não saio por aí pedindo ninharias para quem pode dar muito, ah, tenho dó dos falsos cegos e dos sujeitos de baixa autoestima!
 
O meio pão com o qual não me contento não é o único, eu também não me contento com meia gente, nem com meia vida. Por entre meus dias todos, busco sim quem irá lamber e delirar em meus excessos.
 
Antes que você novamente durma: meus excessos são maus e ótimos, ora uns, ora outros, feito nascente e poente, infernos e paraísos, feito os dias que eu criei com você, e, entre eles e você, prefiro eles. 
 
 
Por Suzana Guimarães.