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Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Enterro - Parte I

                                                      
                                                                O Enterro
                                                  

                                                    Suzana Costa Guimarães


     O corpo chegaria no voo das 11h 30min, no aeroporto de Confins. As filhas foram receber o ataúde lacrado e que não poderia ser aberto, pois vinha de país estrangeiro. Em silêncio foram até o aeroporto. A filha mais velha caminhava, mas parecia que não chegava, não ia, como se as pernas as enganasse enquanto percorria os longos trechos de corredores atrás do esquife da mãe. De longe viu a irmã que morava no exterior, em pé, ao lado do marido. Vestia calça jeans e um casaco preto por cima de uma camisa também preta. Trazia nas mãos um terço. Ao lado deles, o caixão. A filha caçula ao lado da mais velha mascava chicletes de caixinha. Pegava dois, jogava-os na boca, mastigava-os violentamente, cuspia-os na mão que se enfiava no bolso do casaco e novamente jogava mais dois na boca.
     Foi um tempo longo até o cemitério. As moças permaneciam caladas. Tudo já havia sido exaustivamente falado e gritado e sussurrado nos telefonemas. Não havia mais nada a dizer. Carregavam o corpo da mãe em direção ao túmulo, silenciosamente, com os braços doídos da dor da perda. Carregaram o corpo antes. Antes dos homens de braços fortes. Não diziam uma só palavra. A filha mais nova já não mais mascava suas borrachas ácidas, apenas lia um livrinho de salmos. A mais velha ora espiava as ruas apinhadas de gente, ora deitava a cabeça no encosto do banco do carro e de olhos fechados, parecia meditar. A filha, mulher do italiano, não dava um pio. Apertava as bolinhas do terço, mas não rezava. Não sabia rezar. Pensava na mãe rindo com ela pelas ruas de Santiago. Do medo de descer aquela ladeira e ver os pés de ambas fincados nas sandálias, com os dedos, todos os dedos arreganhados e agarrados nos calçados: dedos de macacos, tentavam falar em risos de lágrimas. Na tagarelice da mãe, que perdia o rumo, que trocava nomes de pessoas, que para chamá-la primeiro dizia os nomes das outras filhas, da irmã, da mãe, da avó e da vizinha. Pensava na mãe com dor. Pois não havia mais a mãe. Não havia mais aquele sorriso de dentes perfeitos. Perdera uma amiga. Perdera uma parte do seu corpo, ou de sua alma, de uma forma repentina e ela sabia que o pedaço fazia falta, mas onde ficava mesmo esse pedaço? Nela toda? Oculto? Revelado na carência do eterno diálogo que se rompera? Porque ela tinha necessidade física da mãe e por isso insistira tanto em sua ida à nova terra. Porque quando viu a mãe morta se viu seca e sem brilho. Sentiu fraqueza. Um corpo se esvaindo, leve da dor. Perene. Não gritou. Não falou. Foi o seu momento de silêncio. Ela cobrava do mundo aquela cena. Aquele martírio. Não se pode tocar gente amada morta porque é impossível ser verdade, mas o rosto inerte, sem voz, sem olho com brilho, sem vida, diz que sim, que acabou, mas não acabou. Tem que continuar. Vai continuar, mas é difícil e aí ela grita, se arranca dela e de si mesma, quer esganar o mundo. Torcê-lo. Quer arremessar bolas de barro no muro. Quer abrir o peito com unhas e arrancar sua dor. Mas sua dor não sai. Ficou. Eternizou-se.
     O genro sentia muito, gostava da sogra. Apreciou a ida daquela mulher educada e elegante à sua casa e lhe dera um anel de ouro branco incrustado de brilhantes. Sentia também a tristeza da sua jovem mulher com quem se casara há seis meses. Ela chorou o mal repentino da mãe, chorou durante a sequência pavorosa de vômitos e diarreias, chorou os três dias naquele hospital frio, onde as pessoas falavam rápido e baixo coisinhas que ela não entendia em meio a palavras espaçadas e conhecidas por ela, chorou aos berros e gritava: “mãezinha, mãezinha!”. “Tempestivas, amorosas... quentes!”. Assim pensou, raciocinou e levou ao altar aquela mulher morena e bonita, que ele amou desde a primeira cruzada de pernas numa tarde quente em um motel do Rio de Janeiro. Ela, bonita, nova e sedutora. Cabelos negros e longos num rosto caboclo. Ele, apenas um executivo europeu que passara dos quarenta e sofria de feiura e ciúmes. “Mas era muita emoção, talvez se ela se contivesse um pouco”, pensava o homem taciturno e sem pescoço, de beca preta e sapatos plataforma que lhe davam bons centímetros.