Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

UM FUTURO VIVIDO

Fotografia de Suzana Guimarães






Meus olhos estão molhados, de saudade do futuro que vivemos. Mais uma


vez, escrevo para você e assim o farei, até o dia em que outras


certezas pegarem-me de assalto, numa terça-feira qualquer, de um meio


de mês qualquer, numa rua qualquer de um bairro no estrangeiro. Até o


dia em que eu passar por outro alguém assim igual passei por você.



Lembra-se? Após anos, decidi mudar o trajeto, velho conhecido, e mudar


de rua. Mudei de endereço num dia marcado para passar por você, que


vinha andando, cabeça baixa. Eu, distraída. Você carregava cartas,


escritas para alguém, mais tarde, bem mais tarde, descobri, você


escrevia cartas porque queria ser só seu, mas sentia-se numa longa


espera, por alguém que você nem sabia se apareceria e mesmo se


existia.



Derrubei você e as cartas. Você ofereceu um chá, e, eu que não gosto


de chá nem café, aceitei. Li as cartas em nossos setenta e sete dias,


até o dia em que você pulou no primeiro vagão de trem e me deixou


parada, perplexa e só, na estação.



A mesma estação onde permanece fechada, a casa. E ela? Não sei. Escrevo para


dizer-lhe que ela agora nem mais é minha, também a abandonei, feito


você. A nossa casa, que sequer pisamos nela, mas que muito bem a


conhecemos, está lá, na beira daquela estrada, abaixo da linha férrea,


tudo trancado, relógio parado, toalha no chão caída. Lá, eu não volto,


apesar de que saí na noite passada, atrás de você, e, você em outra


casa, fechado dentro dela, deixava a voz ecoar ao vento que chegou a


mim e ouvi. Já sei. Você não quer.



Você não quer, então eu também não quero. Queremos pegar numa cadeira,


sabendo que é uma cadeira, sentindo-a cadeira, queremos nos sentar


nela, bem distantes a minha da sua, assim você quer e eu concordo, e


queremos esperar os dias seguirem normais. Chega de corações saltando


pela garganta, de noites mal dormidas, de cabelos arrepiando sem que


ventos lhes tocassem, sem que pensamentos os eriçassem. Chega de


sobressaltos, de tapas em palavras, de beijos surrealistas escorrendo


por alças de blusas. Chega daquela coisa insana, de nossas e de tuas.



Você nem gritou adeus e arrancou da minha mão todas as cartas. Na


hora, as portas se fecharam, a do trem e a da casa, aquela que sequer


foi aberta! Nem chegamos lá, você partiu antes, aflito e medroso,


sumiu. Eu corri lá, peguei a lembrança de tudo aquilo que


compartilhamos, bati portas e janelas, num misto de ódio e ternura,


peguei todos os sentimentos e os carreguei nas mãos enquanto


ainda as queimavam... até que tudo se acalmou, e eu então guardei


tudo, dentro de um botão de uma rosa branca, abri e fechei as folhas


pétalas, perpétuas, igual fazia com as cartas, e decidi lhe escrever


para dizer que, aquilo, eu vivi, você querendo ou não, e este é o


seu castigo: a eterna lembrança de mim, que você não quer. Em mim,


ficou tudo de si, mas você, eu nunca neguei. Em mim, janela ou porta,


uma vez aberta, não fecha.




por Suzana Guimarães


Nota: texto originalmente publicado em 13 de dezembro de 2010, no Blog 'O Medo de Suzana'.