Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sábado, 2 de abril de 2011

SOBRE A PRIMAVERA


fotografia, por SCG


A minha verdade é primavera. Ontem, saí para as ruas da cidade sem casaco de frio. Quando passei pela orla marítima, senti cheiro forte de maresia. Na noite anterior, senti ventos na janela, na hora de dormir, convidando-me a voar, mesmo seca. Sufoquei-me no inverno passado, tornei-me quase um graveto.

Sim, sufoquei-me... Palavras, casacos por sobre ombros, pesando, mas fazendo-se pouco.

A minha verdade é uma insistência em renovar canteiros, adubar a terra, trocar as flores, sentir cheiros novos. Não quero mais as sementes, pétalas, rosas e espinhos daquela primavera, a que passou. As cores fascinaram-me, tocaram-me profundamente, com tamanha intensidade que alcancei o inverno, duro, rígido, sem perceber.

Sim, sufoquei-me... Palavras, casacos roçando meus seios, minhas costas, braços, pernas, eu toda. Aquelas flores todas, odoríficas. Eu andava pelas ruas, e elas saíam pelas mangas, pelas frestas, entre botões.

Jaz um graveto em terra, não importa, há de chover, há de molhar, há de voar e eu hei de alcançar tudo aquilo que ainda não conheço, mas que me espera, pois toda semente espera.

A minha verdade, na realidade, é mais sonho que verdade.

                                                   por Suzana Guimarães