Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



domingo, 6 de fevereiro de 2011

MISSivas

fotografia, por SCG

Era noite quando li pela primeira vez tua missiva. Era noite e eu era outra. Como é que alguém pode ir morrendo e vivendo ao longo de poucos dias, poucas noites, em pleno gozo da vida? Como é que alguém pode ler uma carta, fazer silêncio, e, quase que simultaneamente ler outra carta, outro remetente, outro espaço, outros punhos, teclados que bateram forte, rápidos?, não sei se rápidos ou de forma lenta, pensando, sentindo, chorando ou simplesmente, cansados. Só sei que quatro mãos digitaram... e sei que olhos espantados leram. Seriam mesmo "espantados"? Não seria a melhor palavra "enlevados"? Olhos que se elevaram, que saíram do corpo, ganharam espaço... e, naquela noite, eu fui um pouco mais do que me apresento constantemente aos outros.

Mas, em menos de um dia, em menos de uma noite toda, em menos do tempo que eu poderia alcançar, eu morri. Morri, renasci, fui obrigada a descer do enlevo, da sorte do trevo, da sina e me vi outra, um pouco mais menina porque renascida.

Você diz em tua missiva que se viu em outra pessoa, e eu lhe digo, num giro curto da Terra, eu me vi outra pessoa. Hoje, é noite e eu não sou mais aquela que leu tua missiva pela primeira vez.

Missivas podem nos fazer lembrar que podemos deixar de ser a qualquer momento, e, nesse deixar de existir, deixar braços sem abraços. Missivas trazem comunhão ou não. Missivas carregam nossas próprias lembranças... missivas podem nos fazer acreditar.

Era noite, agora também é noite e eu sou outra, eu que queria apenas continuar a ser.

                                              Suzana Guimarães


P.S.: missivas fazem lembrar de "miss", de sentir falta, saudade. Lembra o verbo perder, faltar, falhar, deixar escapar, não notar, não acertar...