Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



segunda-feira, 23 de maio de 2011

CEGUEIRA


fotografia, por SCG


Ela, na janela, vendendo frutas. Ele passa toda tarde e toda tarde diz para ela "eu a amo, eu a amo". Ela, na janela, vendendo frutas, sabe, ele não a ama, ele ama a moça rica e linda. Ela é pobre, apenas vende frutas, expostas, exóticas, na cesta rasa. Ela é cega, ela não o vê, mas ouve toda tarde "eu a amo, eu a amo". Ela queria cortar os cabelos, ela queria conhecer o mundo, saber a cor dos olhos dele, não voltar nunca mais para casa. Ela ouve os passos dele ao longe, sabe que é ele, sente o cheiro de aldeia. 

Ele passa toda tarde para contar para ela, pois ele tem certeza, com a moça rica e linda ele provará todos os frutos do mundo, subirá todos os montes. Ela também tem cheiro de aldeia.

E os cheiros se casam bem.

Ela, na janela, não tem tristeza, tem vazios, dois vazios, os dos olhos.

Ele canta para ela o amor dele, que é puro, é terno, juvenil, muito melhor que todas aquelas frutas, que só murcham.

Ela, um dia, come a fruta do dragão, o melão com chifres, todas as rambutans e uma mangostim, enquanto o escuta, atenta. Depois, fecha a janela e para lá, volta não.

Ele não fala mais "eu a amo, eu a amo"... Ele anda pela cidade e não se ouve mais aquele som cantado, de amor romanceado.

Ele não sabe, mas ela ri.


por Suzana Guimarães