Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



terça-feira, 10 de agosto de 2010

A NOSSA CASA, VOCÊ E EU

                                           
                                                      Suzana Guimarães


Agora é apenas a casa e eu.

Nada estranho, meu ninho sempre foi em mim mesma...

Ando deslizando, feito a bailarina do lago

Procuro não fazer barulho

Para que eu mesma não me perceba.

Agora é tudo como você quer.

Queimei a foto,

A flor ficou sem água.

Encolho-me igual sempre no sofá.

Você não anda pela casa, agora não somos nós...

Agora, a casa e eu, apenas

Mas dia passado, você tocou meus cabelos

Virei para ver quem era

Eu sabia que era você e

Na segunda vez, nem olhei

Mas nas duas vezes, passei a mão, refiz o gesto

Senti o peso ainda do seu toque.

Ouço suas músicas,

Nunca mais li seus livros.

E, deitada no sofá, eu teço a rede

Para nela mais tarde eu balançar.

Já não me assusto mais com a sua ausência

- você nem conseguiu partir -

Agora é tudo como você quer.

Mas agora é apenas a casa e eu...

Tudo se desfez porque o encanto chega num segundo, o amor em dois

A confiança nasce após um longo tempo que não se pode contar, mas que morre antes dos outros dois, muito antes.

Se eu me trancasse um pouco mais

Iria ouvir a sua voz

Mas agora é tudo como você quer

A sua voz, eu a ouço nas suas músicas

Na casa onde há somente eu.