Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



domingo, 8 de agosto de 2010

SEGUNDA PELE

arquivo pessoal


             

Por que às vezes eu me retiro?
Não há planejamento ou certa alternância,
Eu me retiro para poder retirar a segunda pele,
Uma segunda pele que aderiu sem que eu a tatuasse ou a colasse com saliva
Mas que permanece.
Retiro-me quando essa segunda pele
Passa a me incomodar.
Bem que tento dela me livrar,
Esfrego com sais e esponjas no banho
Ou tento o contrário para que ela adira
Uso benéficos hidratantes após banho
Besunto-me toda para ver se ela fica de vez...
Mas é uma segunda pele.
E a primeira rejeita feito tecido desconhecido
O que para mim já se faz conhecido demais.
Tento estratégias, mergulho nas águas, ela parece me deixar
Na praia, penso vê-la nas águas salgadas indo em direção ao cais
Entro no mar aliviada, sem ela,
Mas à noite, ela vem com a maresia
E se instala novamente.
Palavras, palavras,
Se eu fosse vidente, eu as veria
Escritas no meu corpo, comendo os poros
Por isso é que às vezes eu me retiro
Numa tentativa vã de expurgá-las.
Verbais, sentenciais
Por vezes, imperativas
Por vezes, subjuntivas de enlouquecer
Uma segunda pele,
Uma segunda alma.
                                                                por Suzana Guimarães