Ilustração por

Sobre contos e pespontos

Entre um conto e outro, alguns pespontos. Preciso dos pespontos para manter o principal equilibrado e firme. Preciso todo o tempo... Aprendi a pespontar quando a minha mãe me ensinou a fazer flores. Não, não se aprende a pespontar quando se faz flores. Essas apenas me lembram a minha mãe que me ensinou a pespontar os arranjos que a vida nos dá.



sexta-feira, 30 de março de 2012

O QUE EU QUERO


Nem as músicas que saem do rádio do carro, nem este dia incerto, nem quente, nem frio, nem eu, acordada, com saudades de você, pensando em quantos dias não o vejo, nada está ajudando. As melodias não se harmonizam com meu dia, nem o balanço do carro me agrada. A moça de ontem, a mesma de hoje, está dando beijinhos no rapaz careca, de costas para mim, que passo e os vejo, igual a ontem, só que hoje, ela está sentada no colo dele. Isso me desagrada. Meu lado humano e perecível me incomoda. Troco a estação do rádio, há semanas vem tocando melodia contrária a mim, algo saudosista! Quero batida forte, gosto de cantoras com voz forte e cantores de voz fraca. Gosto do ritmo, da cadência, isso me leva até você.

Perdi você faz tempo, nem conto mais esse espaço entre nós dois, quando podíamos nos olhar e nos tocar, nem conto, pois, não se conta tempo sem fim. Contam-se os beijos da moça nos lábios do homem calvo; contam-se as voltas do cordão que trago no pescoço, simpatia para lhe rever; contam-se todas as histórias que ainda não pudemos contar! Quero acabar com esta saudade. Quero o novo, quero saber teu novo nome, bem ao certo, para que eu possa gritá-lo bem alto na hora do gozo.

Por Suzana Guimarães

terça-feira, 20 de março de 2012

UMA TAÇA DE VINHO VELHO, UMA XÍCARA DE CAFÉ TRUFADO E O ÚLTIMO MINUTO, ATRÁS.

(fotografia, por SCG)



Bateu-me uma loucura branda, daquelas que ninguém vê, só nós mesmos. Uma taça de vinho achado no fundo da geladeira, uma xícara de café trufado por cima e a certeza de que você é minha ilusão, a das mais absurdas que já tive em minha vida; isso tudo, agrupado num corpo exausto e carente, principalmente descrente, sim, cansado da guerra do amor. Tolices! Insanidades que vivemos ou nos colocamos a vivenciar: amor não guerreia. Mas, a tatuagem também invisível, igual à da loucura, recita calmamente: desista de tuas lutas inglórias, desista destes olhos, desista do nome que lhe chama na madrugada, desista de ser o nome que lhe é sussurrado ao pé da cama. Desista dos olhos postos em você, porque outros já fizeram o mesmo e você continua a duvidar de suas poucas armas... nessa guerra maldita! Desista.

Bateu-me essa loucura que remédio não resolve, e eu me remexo toda, vasculho a última vez em que o vi, dois minutos atrás, e revejo o caminho que poderíamos percorrer ou mesmo ultrapassar. Bom, com certeza, todo encontro só começa após a corrida silenciosa ou escandalosa, de obstáculos.

Sim, você é o dono da mais absurda de minhas querências. Renego-o, disfarço, finjo, mascaro. Só não me peça que eu levante os olhos para você, pois, sei, verá o desejo louco e manso, renegado por ser absurdo, mas existente, correndo, escorrendo, ultrapassando a pele que moldura o lago onde você poderá se perder.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 12 de março de 2012

PARA TI

(Suzana Guimarães - arquivo pessoal)
 
 
Tua boca entreaberta
Feito a curva que o rio faz antes de alcançar o mar
É onde desenhei você e eu
Me arde... sou casal sem par
Dê-me tuas pernas para que as minhas se abram
Dê-me tuas costas e teu peito
Quero ler teu corpo folha a folha, água por água, de onde se soltam os laços de tua alma
Dê-me a oferta de nossa história que só você carrega, eu não - andei perdida e sem jeito
 
Entreabre o véu d`água, pra ver. Já estou nua.
 
 
Por Suzana Guimarães


 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

SOU ÁRVORE, NÃO CONHECI O REI



Meus textos são frutos que caem de mim, árvore velha e marcada, quase amarga ao toque, porém, ainda cheia de flores e frutos. Alguém me lê na Romênia. Acredito que seja a mesma pessoa, nem sei por quê. Lembro-me então da bailarina que dançava para o rei. Mas, eu não sou bailarina, e não existe o rei, sequer cheguei a segurar a coroa por entre as revoltas dos meus cabelos... nunca fui a amante preferida ou cortesã desejada. Nada vi de mil noites, e por mim, ninguém montou em um cavalo para me salvar, eu me salvei sozinha, todas as vezes, as incontáveis vezes, e gravei meus atos, no livro dos sonhos, para não me esquecer. E também desconheci o desespero da exigência da lembrança, não houve reis para me cobrá-la. Sou apenas aquela que passou, correndo por arvoredos, mergulhada nas sombras da noite, aclamada pela valentia; sou aquela que matou quem se atreveu desejar ser rei, aquele que morreu de medo, e, medo é o meu escudo, meu punhal e meu próprio túmulo. Sou aquela que matou o rei que não existiu. Dos novecentos fantasmas, nenhum apareceu para me assustar, inclusive o rei, que me daria o susto do amor.

Mais provável que assim seja, um único leitor, absorvido pelos frutos que deixaram a árvore, ou, entretido com o reflexo que vê. Ele ou ela me lê silenciosamente. Quando venta em meus galhos e minha copa balança freneticamente, eu me desgosto. Ando procurando saber até onde vão meus galhos, minha sombra, o odor que de mim, exala. Sei das raízes, mas, elas não me atraem tanto quanto antes, pois sei que viverei enquanto as possuir e isso me basta. Eu me desgosto com o barulho das ventanias porque causa em mim ânsia, por querer saber até onde tudo em mim chega e o que posso ainda descobrir em todo aquele que em mim se encosta, em lânguido prazer, ou devassa revelação. Constato, ao ler o nome do país, que também passei por lá, e hoje, sou memória, sou o tempo estagnado.


Sou árvore. Não fui bailarina. Não fui amante do rei. Não roubei o rei. Não rezei para o rei, não entreguei meu corpo como oferenda, sou Suzana. Antes que ele pudesse estender os braços longos para me alçar, cortei a veia, e, hoje, corto a raiz da árvore. Que morra seca, sedenta, de tanto pedir por água.


Por Suzana Guimarães


(Nota: texto originalmente publicado em meu outro Blog  "O medo de Suzana", em 29 de janeiro de 2012.)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

UMA CARTA PARA VOCÊ QUE MORREU

(fotografia, por SCG)


Nota: Antonio Cláudio Zamagna, o Tuca, pediu-me, em janeiro de 2010, uma carta, "...uma carta dando conta de um momento ou período de intensa felicidade a... um morto muito querido".

Ele disse que irá respondê-la, se você quiser conhecê-lo, vá ao DS, clica AQUI

Enquanto me mantenho afastada, enquanto descanso e desenho novos caminhos para mim, enquanto estanco as águas do rio, deixo-a à deriva, a carta, quem sabe, aos céus, já que a vida parece mesmo ficção.




                                   Los Angeles, 9 de novembro de 2011.
                                               

                                                 Querido,


É manhã, sinto frio, a neblina cobre o meu carro que segue a estrada, longa, silenciosa, solitária. É outono. Os ventos gelados batem no meu rosto, pois eu insisto em querer sentir o cheiro de maresia, mesmo que isso arda meus olhos... ah, as coisas do mar lembram-me você. Faz tempo, muito tempo... Hoje, é seu aniversário de morte. Como é que podemos contar, como que celebrando, o desaparecimento, o fim, o nada, o que nunca mais será? O que acabou. 

Engraçado, estou tendo um "déjà vu"... Lembra-se? Minhas coisas e eu, meus jeitos... já escrevi esta carta antes. Já vi essa cena. E posso então voltar para trás, largar minhas inseguranças e a vontade de nunca mais lhe falar ou pensar em você. Não se pensa em mortos, não se fala com mortos. Será? Será que deliramos ao fazermos isso? Então, encontro-me em pleno delírio.

Eu fui feliz, sabe... Fui feliz durante aquele tempo, um pouco antes de você morrer. Eu fui feliz porque você foi uma febre, um carinho, um contato de mansinho que explodiu. Fiquei doente, sim, você me adoeceu. Mas, eu me sentia completa ao seu lado. Creio que você também. Nós nunca havíamos sido tão felizes. Éramos um, o caminho encontrado do outro.

Mas, a morte ceifa.

Você, meu sonho. Será que eu lhe disse o quanto realmente o amei, o desejei, o metamorfoseei para meus próprios gostos, como se eu fosse sua dona, proprietária? Não, claro que não. Quando eu ia dizer, veio a doença e levou você de mim.

Os pássaros voam baixo, mas céu escuro por aqui não é sinal de chuva. É apenas céu escuro e nada mais. Mas, por que os pássaros pressentem algo que eles sabem muito bem, não acontecerá?

Lembra-se da nossa primeira e última viagem? Lembra-se? Você se lembra? Eu queria saber, eu sempre quis saber a verdade, mas...

Veio a chuva forte. O nosso carro quebrou. Estávamos indo para um lugar tão lindo, florido, tantas montanhas, tanto silêncio... o mesmo de agora! Lembro-me bem, o carro parou no meio daquela escuridão e nós ficamos sozinhos. Eu poderia ter feito amor, delicado amor, com você, eu poderia...

E novamente estou tentando me enganar. Fizemos amor, sexo, qualquer nome para aquela coisa, insana, desvairada. Nada me importava muito, nem passado e muito menos o futuro. Seriam poucos dias, contados nos dedos... eu não havia bebido aquele vinho do jantar, mas fiquei com amnésia. Perdi as cenas em minha memória. Ficou apenas a sensação palpável de morte. Lembro-me bem, desde o primeiro toque, ponta de dedo num dos cantos da minha boca até o corpo todo por sobre o meu. Segredo, segredo, secreto.

O carro ficou apertado, e você foi me ajeitando, ajeitando, deslizando-se por sobre mim até que rolamos pra fora. E a chuva forte inundou por horas, por meses, por anos, até agora...

Mas, por que será que os pássaros voam baixo se não irá chover?

Foi a chuva que o matou ou fui eu ou fomos nós? Foi o nosso pecado? Foi o nosso sagrado?

Você que tanto me adoeceu... até hoje vivo o desequilíbrio físico... você que tanto me levou ao pico e ao fundo, a um afirmar e negar amor, à uma desordem geral em meus mais devotados arranjos de como se viver em paz, eu que tanto almejei o silêncio de uma vida solitária... você tanto me desequilibrou... e quem morreu foi você.

Febre alta, pulmões esgotados, dias numa cama de hospital, delirando, gritando, agitando braços, querendo fugir, querendo sem consciência.

Respiro fundo, tento prender o cheiro de maresia que sinto.

Eu era uma mulher que você punha no colo, dava silêncio, dava palavras, discursos inflamados, o melhor e também o pior de si. Você era o homem que combinava com a cor que sempre gostei para roupa de cama, papel de parede, travesseiro, flor e champanhe, cor de meia-luz... eu fazia você rir e chorar num mesmo segundo, e eu era só promessa. Você era um rio onde eu navegava sem saber nadar muito bem.

Fomos felizes! Isso é o que importa. Sigo em frente, feito os pássaros, fazendo movimentos sem muito pensar, sem questionar. Sigo.

Quando eu chegar em casa, escreverei essa carta para você.


Por Suzana Guimarães

domingo, 22 de janeiro de 2012

BLOG TEMPORARIAMENTE FECHADO

fotografia, por SCG

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE NÓS

 
 
 
 Você me cala

quando me toca

quando pronuncia meu nome

quando desfaz distância


Quando para o tempo que corria para mim

a vida gigante que me engolia

você me percebe

distante, ausente

e eu toda paro


É porque fico a perscrutar

o silêncio que nos envolve

Ou a gritaria de nossos poros


É porque soa em nós uma antiga reza

um desejo teso

inconformado

resguardado

de oratório


Nossos corpos

apenas extensão

de nossa almas abençoadas

de um amor calado entre mãos


É isso, corre em teu corpo a revelação!



(Por Suzana Guimarães)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Conto "CEGUEIRA", na voz de LUIZ FERNANDO ROCHA








Ela, na janela, vendendo frutas. Ele passa toda tarde e toda tarde diz para ela "eu a amo, eu a amo". Ela, na janela, vendendo frutas, sabe, ele não a ama, ele ama a moça rica e linda. Ela é pobre, apenas vende frutas, expostas, exóticas, na cesta rasa. Ela é cega, ela não o vê, mas ouve toda tarde "eu a amo, eu a amo". Ela queria cortar os cabelos, ela queria conhecer o mundo, saber a cor dos olhos dele, não voltar nunca mais para casa. Ela ouve os passos dele ao longe, sabe que é ele, sente o cheiro de aldeia. Ele passa toda tarde para contar para ela, pois ele tem certeza, com a moça rica e linda ele provará todos os frutos do mundo, subirá todos os montes. Ela também tem cheiro de aldeia.

E os cheiros se casam bem.

Ela, na janela, não tem tristeza, tem vazios, dois vazios, os dos olhos.

Ele canta para ela o amor dele, que é puro, é terno, juvenil, muito melhor que todas aquelas frutas, que só murcham.

Ela, um dia, come a fruta do dragão, o melão com chifres, todas as rambutans e uma mangostim, enquanto o escuta, atenta. Depois, fecha a janela e para lá, volta não.

Ele não fala mais "eu a amo, eu a amo"... Ele anda pela cidade e não se ouve mais aquele som cantado, de amor romanceado.

Ele não sabe, mas ela ri.



Por Suzana Guimarães


Notas:
1.Texto anteriormente publicado aqui (clica em cima).
2. LUIZ FERNANDO ROCHA é o dono do Blog "Buteco do Lufe" (clica em cima).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

VOCÊ, O MISTÉRIO E EU



Ontem, fiz um texto enquanto eu dirigia. Anteontem, também. Eu os perdi antes que eu pudesse escrevê-los. Morreram em meio à música que tocava no carro. Tenho cartas para escrever, agradecimentos por fazer, livros para ler e tudo o que consigo é colocar as roupas para lavar na lavadora, depois, na outra máquina para secá-las. Consigo também estender os cobre-leitos das camas. Lavo à mão tudo o que não cabe na lavadora de louças e me perco por horas aqui, nesta outra máquina, em frente à uma tela que arde meus olhos. E é só! Não leio, não escrevo, não durmo, mal como. E só. Espero não sei o quê. Não estou esperando a criação, tenho certeza, ela não surge nos momentos de vazio. Sentada, espero o nada. E o nada não procria.

Não telefonei para os amigos distantes, desejando boas festas, bom recomeço, não organizei gavetas que prometi arrumar; o livro de receitas continua lotado de papéis avulsos, soltos, à espera de uma certa ordem. Não replantei as folhagens da varanda, não troquei de carro e nem a cor predileta para as unhas... sequer sonhei acordada. Mas, há um troço que percorre meu corpo por dentro, bem mais forte que minha inércia. Dizem que se chama seiva da vida. Esse troço faz eu me lembrar de você. Não fiz muita coisa, inclusive desaprendi várias, mas com certeza, eu o encontrei, você existe, enfim, posso olhá-lo nos olhos, tocá-lo, você não é mais um desassossego de alma. Você faz parte do meu mistério. Carrego-o há tanto tempo que ele se moldou a mim. Os cachorros não se parecem com seus donos? Pois bem, o mistério ficou a minha cara e eu a cara dele. Não posso sair do nada e decifrá-lo, já que somos unidade. E andamos por aí, olhamos o entardecer, um lilás coroando a praia e só. É tudo o que faço. Depois, lavo a roupa, como qualquer comida, me entupo de água e me sustento no vácuo, um lugar secreto, aberto no corpo. Esperamos, o segredo e eu, esperamos você passar, pois só você tem a capacidade da revelação, só você pode me transmutar, sou apenas a velhice de mim mesma tentando a claridade que você carrega nos olhos sem ao menos perceber, de tão aderente e antiga. Incipiente.

E então, seguiremos: você, a revelação (a alma do meu extinto segredo) e eu, como se tanto tempo não houvesse passado, apenas recordado insistentemente por se saber único.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CONSAGRAÇÃO



Catedral é seu corpo
Nave esplêndida em ângulo reto
Onde estendo minhas asas

Sou pássaro, desde feto
Sempre fui
A vagar pelos céus da procura infinita.
Incansável,
Alcei alturas absurdas só para encontrá-lo,

Cá estou,
Penetrando em seus segredos
Ouvindo o som que arde em meu peito
Ecoa em ti?

Sim, catedral é seu corpo
Onde adormeço
ferida de voo...

Cessam em mim
pensamentos rasteiros
de um tempo perdido sem ti
Onde chamas ardiam isoladas
Quando eu o chamava em vão.


Por Suzana Guimarães

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU CASAMENTO

(Fotografia, por Suzana Guimarães)




                                                   Los Angeles, 28 de novembro de 2011.




                                                    Querido amigo,


O inverno se aproxima no deserto californiano... Os céus se vestiram de cinza, constante cor a embalar as horas. Às vezes, esquenta um pouco, chego a pensar em praia, mas as águas do Pacífico sempre tão geladas afastam meu pensamento e me levam a pensar em casacos de frio, boinas, luvas e cachecóis. Sei que por aí, está chovendo. Apesar dos estragos que fazem, tenho constante saudade das chuvas tropicais, do cheiro de terra encharcada, do barulho dos trovões, da correria das pessoas nas ruas e avenidas alagadas.

Mas, esta carta tem sabor de primavera, cheiro de roseirais, som de risos ao longe, sussurros ao pé do ouvido e a alegria das borbulhas do champanhe... eu me casei, caro amigo!

Era fim de tarde, o Sol se deitando nas águas do mar, o alaranjado colorindo o céu, onde gaivotas sobrevoavam, testemunhas mudas, quase que intrometidas. A cerimônia foi para poucos amigos e parentes, algo singelo, íntimo, devoto. Foi na praia. Caminhei ao lado do meu bem, por alguns minutos, o tempo que gastamos para ir da casa dos pais dele até a tenda montada, ornamentada com tochas e conchas do mar, nas areias de uma praia quase deserta, tranquila.

Ele vestia calça e camisa brancas, eu, um vestido em rendas e fendas, também branco. O cabelo dele, negro, realçava a cor; as orquídeas em meus cabelos balançavam-se ao sabor da brisa. Havia riso em nós. Andávamos de mansinho, sem pressa, ele falava em tom baixo, em Espanhol, sim, ele fala em Espanhol, um sonho de menina que guardei... eu ria, respondia em Inglês e em Português, porque nos compreendemos em várias Línguas e ele quer aprender a nossa. Ah!, até penso sobre isso, que ele não aprenda muito pois eu gosto do som que ouço quando ele pronuncia meu nome, bate as sílabas na boca, parecendo um carinho, gosto do sotaque, do jeitinho insistente de tentar pronunciar corretamente.

E gostamos de nossas diferenças, nossos costumes antagônicos, eu sempre tão barulhenta, ele, quieto, manso! E gostamos da sensação de plenitude que o nosso estar perto nos dá e de nossas peles, dos toques, dos arrepios, da sensação constante de vento fino a passar por nós, nos aproximando, mas também dando espaço.

Foi servido, após a cerimônia, Mimosa, champanhe com suco de laranja, um coquetel enfeitado com sementes de romã. Muito bom mordê-las... e água de coco. Frutos do mar, arroz branco, carnes ao molho de ervas e de hortelã cremoso, saladas e frutas secas, muita tâmara, que adoro!

Nossos pés descalços nas areias, no chão, assim como estávamos quando nos conhecemos naquela insossa tarde de quinta-feira... Os convidados ganharam sandálias Havaianas como lembrança da festa.

Passamos três dias num barco, à deriva, soltos no mar, em Lua de Vênus.

Meu amigo, estou sob o império das nuvens, andando em ruas estelares, cavalgando em prados verdes, macios, e pouco me importa o frio que espreita, querendo entrar, pois em mim, se faz verão.

Em mim, cantam todos os pássaros, em peito cheio e aberto, em mim, gravita a perenidade.


                                      Um grande abraço,


                                      Suzana/LILY


                           (Um texto de Suzana Guimarães)



NOTA: Texto confeccionado para o amigo Helcio Maia, do Blog "Palavra Fátua".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

EM ÁGUAS




Embalsamada minha alma...
Tranquei-me em luto branco
Fechei boca,
Ouvidos...
Entrefechei os olhos.
Os ventos secaram as lágrimas
O tempo ganhou


Fui para a praia
Areias brancas
Palmas brancas
Mar branco, céu branco, eu, um conjunto.


Atirei-me ao mar
Misturei-me às espumas
Entreguei-me às ondas


Sou silêncio.
O grito morreu faz tempo na garganta trancada.


Sou um som antigo...
Embala-me, mãe, embala-me.



Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CREPÚSCULO



Me despi de você

Num tempo que não se conta
Na hora morta
Me despi de você
Na beira da praia
Na beira do caminho
À margem do rio
De um alto sem fim

Larguei o anel que era nosso
Os meus pensamentos em ti
A tua imagem beijando meu rosto

Larguei tudo
Inclusive eu.


Por Suzana Guimarães

domingo, 6 de novembro de 2011

POR ACASO

Suzana Guimarães - arquivo pessoal



Emagreci
Cortei o cabelo
Cortei as unhas, bem curtas
Você viu?


Engordei
Pintei de vermelho meus cabelos
Enrolei colares no colo nu
Você viu?


Cheguei
Toquei o sino na porta
Esperei
Contive a ânsia no peito, insisti
Masquei um chiclete, dois, três
Você viu?


Sentei na beirada do mundo
Com o cheiro do melhor perfume
Compus músicas e até fiz graça,
Fechei o tempo para fazê-lo intrínseco
Esperei...


Você viu?


E agora vem você, presumindo saber de mim.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DEVASTAÇÃO




Esta casa não é minha


E nem os sonhos que me compunham

Nem meus, os olhos que tanto quiseram ver


Esta boca que sorri

Também não é minha

Meu corpo caminha perdido

da alma

que se aquietou

Parou

Mergulhou no breu de um canto mudo

Desfez-se da vaidade da leveza

Pesa num canto da casa, é talvez uma cômoda, um aparador


Nada é mais meu, tudo se tornou devastação.


(por Suzana Guimarães)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DETALHE



Entreguei-lhe um anel
você o deu à outra
Besuntei-me de odor
você cheirou e levou para ela
Enviei-lhe a minha camisola de dormir
você forçou a entrada no corpo dela


Postei-me diante de você
Você tentou arrancar o fluido cintilante que dança à minha volta
para enfiar no corpo dela


Você me quis, no corpo dela


Mas, eu sou procissão de fé
Sou corte que não se transmuta em cicatriz
Sou pele que não guarda digital
Sou rio sem volta
Sou o ontem dentro do hoje


Sou o amor de quem me quiser amar.

Por Suzana Guimarães

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

NOJO



Todos se calaram.
Perderam a festa?
O que realmente viram pela fresta?
Cadê a pedra que rolou?
A vida que girou...
Por que perderam a graça?
Por que você perdeu a graça?

Por que teu medo segura teu calcanhar
a cada passo, a cada ensaio
no teu palco de palhoça?


Trapezistas de palavras, gente comedora de verve alheia.


Por que todos se calaram?
Você ganhou aquela guerra?
Por que você não lustra mais tuas garras fracas, repõe tua munição?
Por que você perdeu a fala?

Porque você não estava na praça.
Porque vocês vivem feito traças
finas, rápidas nas palavras, e vazias debaixo de mão pesada.


Dispenso tuas falsas profundezas...

Por Suzana Guimarães

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

QUANDO O AMOR ACABA



Eu não rasguei as cartas. Não risquei teu nome na agenda de endereços e nem deletei você dos arquivos do meu computador. Não guardei o álbum de fotografias no quartinho dos fundos, muito menos lancei fogo nele. Não me sentei no chão e quebrei a moldura, o vidro... com ponta de tesoura, na tentativa vã de aniquilá-lo. Mesmo que você morra, você permanecerá.

Não ganhei ao nascer poderes mágicos de esquecimento e nem uma borracha enorme o suficiente para apagar tudo o que vivemos. Eu não posso apagar o que vivemos porque estaria apagando um tempo da minha vida, curto ou longo, pouco importa, foi minha vida, durou intensamente feito uma vela a arder.

Não adianta acender velas, fazer promessas. Não adianta tomar remédios. Conheci uma mulher que passou pela cirurgia de Lobotomia, ela queria esquecer... morreu louca, inútil, definhando em cima de uma cama; e não esqueceu. Não vou procurar benzedeiras, videntes, cartomantes para pedir aconselhamento sobre nós. Deixei Deus em paz, deve ser muito cansativo ser Deus... ora eu pedi a Ele que você ficasse, ora pedi que você sumisse, que voltasse, que me amasse, que me odiasse.

Não releio nada do que escrevemos. Não revejo imagens passadas, cenas. Não bebo para esquecê-lo porque só bebo quando estou feliz, e, ultimamente, não tenho bebido nem uma taça de vinho sequer. Não enxoto você de meus pensamentos, peço delicadamente à tua alma que você se vá.

Guardarei as cartas, as lembranças, as fotos... Eu amo a minha existência por completo, tanto os momentos bons quanto os ruins, do início até hoje. Não sou um ser com espaços em branco.



Por Suzana Guimarães